
O Coelhinho que Não Conseguia Dormir
Tico, o coelhinho, tenta de tudo para pegar no sono: conta estrelas, cenouras e até ovelhas. Será que ele descobre o segredo de dormir?
Na toca mais aconchegante da campina, um coelhinho descobriu que dormir não é coisa que se faça com pressa
Na beirada de uma campina onde o capim crescia macio, havia uma toca redonda e quentinha. A porta era um buraco redondo no barro, com raízes penduradas em cima que pareciam cortininhas. Lá dentro cheirava a terra fresca, a capim seco e a um tiquinho de cenoura guardada no canto.
E dentro dela morava um coelhinho chamado Tico.
Tico tinha as orelhas mais compridas da família, o nariz mais tremelicante e um problema: quando chegava a hora de dormir, o sono não vinha.
Naquela noite tinha sido igual a todas as outras. A mamãe coelha lavou as patinhas de todo mundo, ajeitou o cobertor de retalhos, contou uma história curtinha e passou de cama em cama dando um beijo em cada testa. Quando chegou a vez de Tico, ela arrumou as orelhas compridas dele em cima do travesseiro, uma de cada lado, com todo o cuidado de quem guarda duas fitas.
— Boa noite, meu bem — disse ela.
— Boa noite, mãe.
Aí a mamãe coelha apagou a lamparina. A luz foi ficando laranja, depois amarelinha, depois virou só um fiozinho de fumaça com cheiro de vela apagada.
Os irmãos de Tico dormiram rapidinho, todos amontoados como pãezinhos numa cesta. Dava para ouvir a respiração deles no escuro: uma subindo, outra descendo, todas fora do compasso.
E Tico continuava ali, de olhos bem abertos, olhando o teto de terra da toca.
Ele contou as raízes que apareciam no teto. Eram cinco. Contou outra vez, para ter certeza. Continuavam cinco.
— Hoje eu durmo — disse ele, decidido. — É só eu me esforçar.
E fechou os olhos com tanta força que ficou uma ruguinha entre as sobrancelhas.

Primeira Tentativa: Contar Ovelhas
Tico tinha ouvido de um primo que, para dormir, era só contar ovelhas. O primo falou isso com muita segurança, mastigando um pé de alface, e Tico achou que devia ser verdade.
Fechou os olhos.
— Uma ovelha. Duas ovelhas. Três ovelhas…
No começo foi bom. As ovelhas iam aparecendo bem certinhas, uma atrás da outra, pulando uma cerca baixinha de madeira. Pulavam devagar, como se estivessem debaixo d'água.
— Quatro ovelhas. Cinco ovelhas. Seis ovelhas…
Foi indo. Chegou na ovelha número doze e aí lembrou que nunca tinha visto uma ovelha de perto.
Será que ovelha é grande? Será que é macia? Será que ovelha é quentinha como um cobertor ou fria como o capim de manhã cedo? Será que ovelha tem nome? Será que ovelha também tem dificuldade de dormir — e, se tem, o que é que ela conta?
Aí ele pensou: se a ovelha conta coelhos e o coelho conta ovelhas, ninguém no mundo dorme nunca mais.
A ideia era tão engraçada e tão preocupante ao mesmo tempo que Tico abriu os dois olhos de uma vez só.
Quando percebeu, estava mais acordado do que no começo. O coração dele até batia mais rápido, de tanto pensar.
— Não funcionou — disse Tico.
Virou de um lado. Virou do outro. Ajeitou o travesseiro, que já estava quente. Virou o travesseiro do lado frio, que sempre ajuda um pouquinho — mas dessa vez ajudou por três segundos e mais nada.

Segunda Tentativa: Contar Cenouras
— Talvez seja porque eu sou coelho — pensou. — Ovelha é coisa de ovelha. Coelho tem que contar cenoura.
Achou a ideia tão boa que quase acordou os irmãos para contar. Segurou.
Fechou os olhos de novo, com jeitinho dessa vez, sem apertar nada.
— Uma cenoura. Duas cenouras. Três cenouras…
Só que cenoura, para um coelhinho, é uma coisa muito interessante de pensar.
Na cenoura número quatro, ele já estava reparando na folhinha verde de cima. Na número sete, Tico já estava com fome — daquela fome besta que dá tarde da noite, quando não tem nada para fazer a respeito. Na número nove, começou a imaginar uma cenoura do tamanho de uma árvore, com a raiz enterrada até o outro lado da campina e ele mesmo subindo nela com uma escada. Na número dez, imaginou a mamãe coelha puxando essa cenoura gigante do chão, os irmãos todos pendurados atrás dela, e a cenoura sem sair nem um tiquinho.
Aí teve vontade de rir.
O nariz dele tremeu. Os bigodes tremeram junto. Ele abafou o risinho no travesseiro para não acordar ninguém, e o travesseiro fez aquele barulhinho de pluma amassada.
Depois ficou quietinho, esperando. O riso passou.
O sono não veio.
— Também não funcionou.

Terceira Tentativa: Contar Estrelas
Tico ficou um tempinho olhando o escuro. Depois teve uma ideia grande, dessas que fazem a gente sentar na cama.
— Já sei — sussurrou. — O problema é o tamanho. Ovelha é pouca. Cenoura é pouca. Estrela é que tem de sobra.
Levantou bem devagarinho, na ponta das patas, com o cuidado de quem anda em cima de folha seca. Passou pelos irmãos. Passou pelo cesto de brinquedos. Desviou do potinho de água, que ele sabia exatamente onde ficava porque já tinha derrubado ele duas vezes na vida.
E foi até a entrada da toca.
Lá fora, a noite estava linda. O ar estava fresco e cheirava a capim molhado. O céu inteirinho salpicado de luz, de uma ponta à outra, sem sobrar um pedacinho vazio.
— Pronto — disse ele. — Vou contar estrelas. Estrela tem muito mais que ovelha e cenoura.
Começou.
— Uma, duas, três, quatro, cinco, seis…
Contou até vinte e três. Aí perdeu a conta, porque uma estrela cadente atravessou o céu correndo e ele teve que fechar os olhos e fazer um pedido. Pediu para dormir. Não adiantou.
Recomeçou do começo, porque contar estrela pela metade não vale.
— Uma, duas, três, quatro…
Contou até trinta e um. Aí perdeu a conta de novo, porque um vaga-lume passou pertinho do nariz dele, piscando, e por um segundo Tico achou que fosse uma estrela caindo baixinho para ver as coisas de perto.
Tico sentou na entrada da toca, de orelhas caídas, e suspirou fundo.
— Eu nunca mais vou dormir na vida — disse para o vaga-lume.
O vaga-lume piscou duas vezes e foi embora, porque vaga-lume não sabe responder essas coisas.

A Mamãe Coelha Aparece
Uma pata macia pousou nas costas dele.
Tico nem levou susto. Já conhecia aquele jeito de chegar sem fazer barulho.
— Já tentou tudo? — perguntou a mamãe coelha, sentando-se ao lado, sem pressa nenhuma.
— Tudo — disse Tico. — Ovelha, cenoura e estrela. Eu me esforcei muito, mãe. Muito mesmo. Acho que eu sou o único coelho do mundo que não sabe dormir.
A mamãe coelha ficou quietinha um pouco. Ela sempre ficava quietinha um pouco antes de responder as coisas importantes.
Lá longe, o capim inteiro se mexeu junto quando o vento passou.
— Deixa eu te perguntar uma coisa — disse ela. — Enquanto você contava as ovelhas, você estava descansando?
Tico pensou.
— Não. Eu estava trabalhando.
— Pois é, meu bem. Esse é o problema — disse a mamãe coelha. — Dormir é a única coisa do mundo que quanto mais a gente se esforça, menos acontece.
Tico franziu o narizinho.
— Mas para todo o resto funciona. Para cavar buraco funciona. Para correr funciona. Para aprender a amarrar o cachecol funcionou.
— Para todo o resto, sim — disse ela. — Para dormir, não. Dormir é mais parecido com soltar do que com segurar.
Tico ficou olhando o céu, pensando naquilo. Uma estrela piscou lá em cima, como se estivesse concordando.
— Então como é que faz? — perguntou ele.
— Ao contrário — disse ela. — Em vez de fazer, a gente vai desfazendo. Vem cá que eu te ensino. Mas é devagar. Não vale ter pressa, senão não funciona.
E deu a pata para ele.

O Segredo
Voltaram para dentro sem acender nada. Tico se deitou no lugar dele, no meio dos irmãos, bem no calorzinho que eles tinham deixado guardado. A mamãe coelha se acomodou perto, com a voz baixinha, quase do tamanho de um sussurro.
— Fecha os olhos — disse ela. — Mas fecha sem apertar. Só encosta uma pálpebra na outra.
Tico encostou.
— Agora solta os pés. Só os pés. Deixa eles pesados, como se fossem duas pedrinhas na areia.
Tico soltou os pés. Foi engraçado: ele nem sabia que estava segurando eles.
— Agora solta as pernas. Deixa elas moles, como capim molhado.
Tico soltou as pernas. Elas afundaram um tiquinho no macio.
— Agora a barriguinha. Deixa ela subir e descer sozinha. Você não precisa ajudar.
A barriga de Tico subiu. Desceu. Subiu de novo, mais devagar.
— Agora os bracinhos. Pesados. Deixa eles caírem para os lados, do jeito que quiserem cair.
Os braços de Tico ficaram pesados.
— Agora as orelhas — sussurrou a mamãe. — As suas são compridas, então vai devagar. Solta uma. Solta a outra.
Tico soltou as orelhas, uma de cada vez, e elas se espalharam no travesseiro como duas folhas que caem sem barulho. E, sem perceber, deu um bocejo enorme, daqueles que fazem os olhos lacrimejarem.

— E o rosto — disse a mamãe coelha, cada vez mais baixinho. — Solta a testa. Solta as bochechas. Solta o narizinho. Deixa ele parar de tremer.
O nariz de Tico parou de tremer.
Lá fora, o vento passou pelo capim e fez aquele barulho de mar pequeno. Um grilo tocou três vezes e parou. As estrelas continuaram lá em cima, todas no lugar, sem precisar que ninguém contasse elas.
— Mãe — murmurou Tico, já com a voz arrastada. — Acho que eu esqueci de tentar.
— Eu sei — disse a mamãe coelha, sorrindo no escuro. — É assim que funciona.
Tico já não ouviu.
Estava dormindo havia um tiquinho, no meio dos irmãos, com as orelhas compridas soltas no travesseiro e o nariz paradinho.
E dormiu a noite inteira.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O Tico tentou várias coisas para dormir. Qual delas você acha mais engraçada?
- O que a mamãe coelha ensinou para ele no final?
- Que parte do seu corpo você quer soltar primeiro hoje: os pés ou as mãos?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para crianças pequenas. O final traz um exercício simples de relaxamento — soltar o corpo dos pés para a cabeça — que dá para fazer junto com a criança na cama, logo depois da leitura.
Perguntas frequentes sobre O Coelhinho que Não Conseguia Dormir
Esta história ajuda a criança a pegar no sono?
A ideia é essa. O final ensina, dentro da própria narrativa, um relaxamento de soltar o corpo parte por parte, que você pode repetir com a criança assim que fechar a história. A repetição noite após noite é o que transforma isso num sinal de sono.
Para que idade esta história é indicada?
Dos 2 aos 6 anos. É curta, tem repetição e frases simples — feita para a faixa em que a criança ainda está aprendendo a acompanhar uma história inteira.
Quanto tempo leva para ler?
Cerca de 12 minutos em voz alta, num ritmo bem devagar. É uma das mais curtas do acervo, boa para as noites em que já passou da hora.


