Contos para Dormir
Ilustração do conto Jonas e o Peixe Grande

Jonas e o Peixe Grande

Mandaram Jonas ir até Nínive, do outro lado do deserto. Ele foi ao porto e comprou passagem para o lado contrário — e começou ali a maior viagem da vida dele.

Equipe Contos para Dormir ·

Um homem que comprou passagem para o lado errado e descobriu que o escuro também sabe conversar

Jonas morava numa cidade pequena, dessas em que todo mundo sabe a hora que o vizinho acorda.

Era um homem quieto. Cuidava do quintal, consertava o que quebrava, dormia cedo. Nunca tinha viajado para longe e não fazia questão.

Uma noite, quando ele já estava naquela hora em que a gente ainda escuta as coisas mas já está meio dentro do sonho, uma voz falou com ele.

— Levanta, Jonas. Vai até Nínive.

Jonas abriu os olhos no escuro do quarto.

Nínive era a maior cidade do mundo naquele tempo. Ficava do outro lado do deserto e era tão grande que levava três dias para atravessar de uma ponta à outra. Cheia de gente que Jonas não conhecia, e que andava fazendo coisas que ele achava muito erradas.

— Vai até lá — disse a voz. — E fala com eles.

Jonas ficou deitado olhando o teto até o galo cantar.

Ele não respondeu não. Também não respondeu sim.

Fez uma terceira coisa.

De manhãzinha, com o céu ainda cinza, ele arrumou um saco de pano com o que cabia, fechou a porta de casa, olhou uma vez para o caminho que subia na direção do deserto — e virou as costas para ele.

Desceu até o porto de Jope, que ficava exatamente para o outro lado.

O porto cheirava a peixe, a corda molhada e a alcatrão, e os mastros dos navios encostados no cais balançavam todos juntos.

Jonas parou na frente do maior deles.

— Esse vai para onde? — perguntou.

— Társis — disse o marinheiro, sem levantar a cabeça do nó que estava dando.

Társis era o lugar mais distante que existia. Tão longe que muita gente achava que era só história de marinheiro. E ficava na direção contrária de Nínive: se Nínive era para lá, Társis era para cá.

Jonas pagou a passagem.

Homem de túnica cor de areia no cais de um porto antigo ao amanhecer, saco de pano no ombro, olhando um navio de madeira

O Navio que Ia para o Outro Lado

O navio soltou as amarras no meio da manhã.

Jonas ficou na amurada vendo a cidade dele ficar pequena, depois virar um risquinho, depois sumir. Quando não sobrou mais nada para olhar, ele desceu.

Havia um porão embaixo do convés, escuro, cheio de sacos de trigo e potes de azeite amarrados uns nos outros. Jonas achou um canto entre dois sacos, deitou com o saco de pano debaixo da cabeça e fechou os olhos.

Dormiu como quem não dorme faz tempo.

Lá em cima, o vento mudou.

Primeiro foi só uma brisa diferente, dessas que fazem o marinheiro velho olhar para o horizonte e não dizer nada. Depois o céu foi ficando cor de chumbo. Depois o mar começou a subir.

E aí veio a tempestade.

Foi uma tempestade das grandes. O navio subia numa onda e caía do outro lado com um baque que fazia a madeira gemer inteira. A vela rasgou lá em cima e ficou estalando no vento como um chicote.

Os marinheiros faziam tudo o que sabiam fazer.

Jogaram carga no mar para o navio ficar mais leve — os sacos de trigo, os potes de azeite, as âncoras extras. Tiravam água com balde, dois homens de cada lado, e a água voltava mais rápido do que eles conseguiam tirar.

Foi o capitão quem lembrou.

Desceu no porão com uma lamparina que balançava tanto que quase apagava, e encontrou Jonas dormindo entre os sacos, encolhido, com a testa franzida de quem sonha coisa pesada.

— Como é que você consegue dormir? — gritou o capitão, sacudindo o ombro dele. — Levanta! Levanta e pede alguma coisa para alguém, porque a gente já pediu para todo mundo!

Capitão de barba grisalha com uma lamparina acordando um homem que dorme entre sacos de trigo no porão escuro e inclinado de um navio

A Verdade no Meio da Tempestade

Jonas subiu para o convés e o vento quase o derrubou.

Os marinheiros estavam todos ali, encharcados, agarrados no que dava. Olharam para ele daquele jeito de quem já desconfia mas ainda não sabe do quê.

— De onde você é? — perguntou um.

— Para onde você estava indo, de verdade? — perguntou outro.

E Jonas ficou quieto um segundo.

Poderia ter inventado qualquer coisa. Era só falar um nome de cidade, dar de ombros e continuar segurando a corda como os outros.

Mas ele estava cansado de carregar aquilo desde Jope.

— A culpa é minha — disse ele.

Falou alto, para vencer o vento.

— Me mandaram ir para um lugar e eu comprei passagem para o lado contrário. Vocês não têm nada a ver com isso. Vocês só estavam trabalhando.

O navio inteiro pareceu ficar em silêncio por um instante, mesmo com todo aquele barulho.

— E o que a gente faz agora? — perguntou o capitão.

Jonas olhou o mar.

— Me deixem descer — disse. — Aí ele sossega.

E aí aconteceu uma coisa que Jonas não esperava: eles não quiseram.

Aqueles marinheiros nem conheciam o Jonas. Tinham perdido a carga toda por causa dele. E mesmo assim pegaram os remos e tentaram voltar para terra.

Remaram contra a tempestade inteira. Remaram até as mãos arderem. Cada vez que o navio avançava dois palmos, uma onda devolvia três.

Remaram até não sobrar mais força em ninguém.

Então Jonas subiu na amurada sozinho.

Dois marinheiros ainda seguraram o braço dele, um de cada lado, do jeito que a gente segura alguém que não quer soltar.

— Está tudo bem — disse Jonas.

E soltou.

Homem de túnica cor de areia em pé na amurada de um navio, dois marinheiros segurando seus braços na chuva forte

O Escuro que Não Era o Fim

A água engoliu o barulho de uma vez.

Lá em cima ainda havia trovão e gritaria. Um metro abaixo da superfície, nada — só um chiado surdo e comprido, e ele descendo devagar num verde que ia ficando azul, e o azul ficando preto.

E aí a água abriu.

Não foi uma mordida. Jonas nem entendeu direito o que estava acontecendo.

Foi mais como quando alguém está caindo e outra pessoa estende os braços por baixo. Uma coisa enorme veio das profundezas, escura e macia. O mar sumiu de repente em volta dele. E Jonas escorregou para dentro de um lugar quente, onde não entrava luz nenhuma.

Depois aquilo se fechou.

E ficou tudo quieto.

Jonas passou um tempão sem se mexer, esperando o susto passar.

Passou.

O chão embaixo dele era macio e balançava devagar, como uma rede pendurada. O ar era morno e cheirava a maré baixa. Não dava para enxergar nada — nem a própria mão.

Mas dava para ouvir.

Dois barulhos, um por cima do outro. O mar do lado de fora, longe, abafado, aquele chiado grande que nunca para. E, embaixo dele, lento e enorme, um bum… bum… bum… que ia e voltava sem pressa nenhuma.

Era o coração do peixe.

Jonas se sentou. Abraçou os joelhos.

E, como não tinha mais nada no mundo para fazer, começou a falar.

Três Dias de Conversa

No primeiro dia, ele reclamou.

Reclamou do navio, que ele nem queria ter pegado. Reclamou do capitão que foi acordá-lo. Reclamou da tempestade, do vento, do mar, do frio, do escuro, do cheiro. Falou alto, e a voz voltava abafada das paredes, como quem responde de má vontade.

Reclamar cansa. No fim do primeiro dia ele dormiu de tanto reclamar.

No segundo dia, ele explicou.

Explicou muito bem, com todos os detalhes, por que aquilo não era culpa dele. Que Nínive era longe demais. Que ele era só um homem, sozinho, sem cavalo nem dinheiro nem coragem. Que ninguém lá ia escutar mesmo.

Cada explicação era ótima. Encaixava perfeitamente.

E, no escuro, sem ninguém para concordar, nenhuma delas parava em pé por mais de um minuto.

No fim do segundo dia, Jonas ficou calado.

Ficou horas assim, ouvindo o bum… bum… bum… que ia e voltava sem pressa.

Homem de túnica cor de areia sentado de cabeça baixa, abraçando os joelhos num lugar escuro e morno de paredes macias e arredondadas

E no terceiro dia ele disse.

Disse baixinho, quase sem voz, do jeito que a gente diz as coisas que custam:

— Eu não fui porque eu não quis.

Esperou.

Ninguém discordou. O mar continuou chiando lá fora, o coração continuou batendo embaixo, e o escuro continuou exatamente do mesmo tamanho.

Então ele continuou.

— Eu não quis porque eu não gosto deles. Achei que não mereciam nem que eu andasse até lá.

Silêncio.

— E deixei todo mundo naquele navio no meio da tempestade por causa disso.

Ele encostou a cabeça na parede morna.

E ficou muito tempo ali, sem se defender de nada — coisa que ele nunca tinha feito na vida.

Depois disse a última:

— Levanta, Jonas.

A Praia e o Caminho Comprido

Ele acordou com sol na cara.

Estava deitado de bruços numa faixa de areia molhada, com a água chegando até os joelhos e indo embora, chegando e indo embora. Havia caranguejo andando de lado perto da orelha dele.

Jonas ficou um tempo assim, sem se levantar, aprendendo de novo o que era luz.

Lá longe, na linha do horizonte, uma coisa enorme e escura subiu devagar acima da água, ficou um instante brilhando ao sol e afundou outra vez.

Jonas levantou a mão da areia. Meio como quem acena, meio como quem agradece.

Não sabia onde estava. Sabia só uma coisa: dessa vez ele ia andar para o lado certo.

Foi um caminho comprido.

Ele atravessou o deserto pedindo água nas aldeias, dormindo encostado em muro de pedra, com a sandália virando trapo. Contou os dias no começo, depois desistiu de contar. Havia manhãs em que a única coisa que fazia sentido era voltar.

Ele não voltou.

E numa tarde, no alto de uma subida, Nínive apareceu.

Era mesmo enorme. As muralhas iam de um lado ao outro do que dava para ver, e por cima delas subia a fumaça de mil fogões acesos e um barulho de cidade grande, feito um mar de outro tipo.

Jonas ficou parado na crista do morro. Depois desceu.

Homem de túnica empoeirada parado no alto de um morro ao entardecer, olhando as muralhas de uma cidade antiga e enorme lá embaixo

O Dia em que a Cidade Parou

Ele entrou pelo portão junto com os carroceiros e os vendedores de tâmara.

Andou até o meio da primeira rua, parou embaixo de um toldo e falou. Não fez discurso bonito. Não sabia fazer. Falou uma frase curta, do jeito que tinha ouvido: daquele jeito ali, aquela cidade toda ia se perder. Depois repetiu.

Um menino parou para escutar. Depois a mãe do menino. Depois o homem da banca de peixe, que largou a faca em cima da tábua.

E foi assim o dia inteiro, e o dia seguinte, e o outro: um homem empoeirado atravessando a maior cidade do mundo, dizendo a mesma coisa em voz alta.

O estranho é que eles escutaram.

Aquilo correu de rua em rua mais rápido do que ele andava. No terceiro dia, o recado já chegava antes dele.

As bancas fecharam. As oficinas pararam. As pessoas se sentaram na soleira das portas conversando baixo, quietas pela primeira vez em muito tempo.

Até o rei ouviu.

Ele desceu do trono, tirou o manto bom, sentou no chão do pátio como qualquer pessoa e mandou avisar a cidade inteira: ninguém aqui vai continuar do jeito que estava.

E não continuaram.

Nínive não se perdeu. No fim daquela semana a cidade estava de pé, mais quieta do que nunca, com as janelas acendendo uma a uma quando o sol baixou.

Homem de túnica cor de areia falando no meio de uma rua de cidade antiga, com pessoas paradas em volta escutando

A Sombra na Colina

Jonas saiu da cidade e subiu uma colina baixa do lado leste.

Sentou-se lá em cima, de frente para Nínive, e ficou emburrado.

É que ele tinha andado meio mundo, atravessado uma tempestade e passado três dias no escuro para avisar que uma coisa ruim ia acontecer — e a coisa ruim não aconteceu.

Ele se sentia bobo. E ainda tinha um pedacinho dele achando que aquela gente não merecia sair assim, tão fácil.

O sol do meio-dia era de rachar.

Durante a noite, uma planta cresceu ali do lado. Uma mamoneira de folha larga, dessas que dão em terreno seco, e essa cresceu depressa até virar um guarda-chuva verde bem em cima da cabeça dele.

Jonas gostou daquela planta como não tinha gostado de nada na vida inteira.

Passou o dia na sombra fresca, olhando a cidade lá embaixo e se sentindo, pela primeira vez em semanas, uma pessoa confortável.

No outro dia, um bichinho comeu o pé da planta por baixo e as folhas murcharam antes do almoço.

Veio um vento quente do deserto. Jonas ficou sem sombra, de cara vermelha, e reclamou alto:

— Isso não se faz!

E a voz — aquela mesma da primeira noite, que ele não ouvia desde então — falou com ele com a maior calma do mundo:

— Você ficou assim por causa de uma planta que nasceu numa noite e murchou na outra. E aquela cidade ali embaixo, que tem tanta gente e tanta criança que nem sabe diferenciar a mão direita da esquerda?

Jonas abriu a boca.

E não achou uma única palavra para responder.

Quando as Luzes se Acenderam

Ele ficou ali sentado na colina o resto da tarde, quieto.

O sol foi caindo e o calor foi saindo da terra. As pedras da encosta, que de dia queimavam, ficaram só mornas debaixo da mão.

Lá embaixo, Nínive começou a acender.

Primeiro uma janela, depois duas, depois a cidade inteira pontilhada de amarelinho, como se alguém tivesse derrubado um saco de vaga-lumes dentro das muralhas. Subia um cheiro bom de pão e um som de conversa distante, sem palavra nenhuma que desse para entender.

Jonas puxou o tronco murcho da mamoneira para perto e usou como encosto.

Pensou no navio, e torceu para que aqueles marinheiros tivessem chegado bem a algum porto.

Pensou no escuro morno do peixe e no bum… bum… bum… que ia e voltava sem pressa, e descobriu, meio surpreso, que não tinha mais medo nenhum daquela lembrança.

Pensou na frase que tinha levado três dias para sair.

Lá em cima, as estrelas foram aparecendo de uma em uma, do mesmo jeito que as janelas.

Jonas foi ficando com sono.

Deitou de lado no chão da colina, com o braço debaixo da cabeça e o rosto virado para as luzes da cidade que continuava ali, inteira, respirando devagar.

E dormiu antes que a última janela apagasse.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Jonas comprou passagem para o lado contrário. Você já fingiu não ter escutado alguma coisa que sabia que era para você?
  2. Dentro do escuro ele passou dias reclamando antes de falar a verdade. Por que será que é tão difícil admitir uma coisa dessas?
  3. Os marinheiros remaram com todas as forças para não deixar o Jonas ir. O que isso mostra sobre eles?

Sobre esta história

Recontagem infantil do Livro de Jonas, texto bíblico de domínio público com mais de dois mil anos, sem autor conhecido. O enredo foi mantido inteiro: o recado para ir a Nínive, a passagem comprada para Társis do lado oposto, a tempestade, os três dias dentro do peixe, a cidade que escuta e a planta que faz sombra na colina. O que mudou foi o tom das cenas duras. No texto antigo os marinheiros lançam Jonas ao mar; aqui eles remam de volta até não sobrar força em ninguém, e é o próprio Jonas quem desce, com dois deles ainda segurando o braço dele. O peixe grande aparece como abrigo, não como bocado. O texto desta página é nosso, escrito para leitura em voz alta.

Perguntas frequentes sobre Jonas e o Peixe Grande

Qual é a moral da história de Jonas e o peixe grande?

Que fugir de uma coisa custa mais caro do que encará-la, e que o primeiro passo para resolver qualquer confusão é admitir a própria parte nela. Jonas atravessa metade do mundo e uma tempestade inteira para chegar numa frase que ele já podia ter dito na primeira noite.

Jonas foi engolido por uma baleia?

O texto antigo não fala em baleia — fala num peixe grande. A baleia entrou nas versões mais recentes por causa de traduções e ilustrações antigas. Nesta recontagem mantivemos o original: um peixe enorme, do tamanho de um barco.

Esta versão é assustadora para crianças pequenas?

Não. A tempestade é forte e o mar é grande, mas ninguém se machuca e ninguém morre. O peixe não devora Jonas: ele o recolhe, e o lugar escuro por dentro é morno e calmo, mais parecido com um esconderijo do que com um perigo.

Para que idade esta história é indicada?

Dos 5 aos 10 anos. Os menores acompanham pelas repetições — a voz que chama, os dias contados um a um. Os maiores costumam se interessar pela conversa que Jonas tem sozinho no escuro e pela pergunta que fica no ar no fim.

Que tal a história de amanhã?