Contos para Dormir
Ilustração do conto A Raposa e as Uvas

A Raposa e as Uvas

Depois de pular a tarde inteira sem alcançar o cacho, a raposa foi embora dizendo que aquelas uvas estavam verdes mesmo.

Equipe Contos para Dormir ·

Tem coisa que a gente só despreza depois de não conseguir

Era o fim de um dia quente de fevereiro, e a raposa estava com fome.

Ela tinha andado desde cedo. Cheirou toca vazia, virou folha seca, cavoucou embaixo de raiz — e nada.

Foi então que, passando por um sítio velho, ela levantou o focinho e sentiu.

Cheiro doce. Cheiro de fruta madura.

A raposa parou.

Lá em cima, numa parreira armada em cima de uns caibros de madeira, tinha um cacho de uvas.

E que cacho.

As uvas eram roxas, gordinhas, brilhando com aquela poeirinha clara que uva madura tem. Umas já estavam tão cheias que pareciam prestes a estourar.

A raposa sentou embaixo e olhou para cima por um tempo, só apreciando.

— Bom — ela disse. — Isso vai ser fácil.

Uma raposa ruiva sentada embaixo de uma parreira, olhando para um cacho de uvas roxas maduras lá em cima

As Tentativas

A primeira tentativa foi um pulo simples.

Ela recuou dois passos, tomou impulso e saltou.

Passou longe. As uvas continuaram lá, balançando de leve com o vento que o pulo fez.

— Aquecimento — disse a raposa.

A segunda tentativa foi com corrida.

Ela foi até o outro lado do terreiro, virou, correu com tudo e saltou no último passo.

Chegou mais perto. Encostou a ponta do focinho numa folha.

Só na folha.

A terceira tentativa foi de lado, tentando pegar impulso na mureta de pedra.

A quarta foi tentando subir pelo caibro, mas o caibro era liso e a unha de raposa não segura em madeira lisa.

A quinta foi pulando várias vezes seguidas, sem parar, como se as uvas fossem cansar antes dela.

Na sexta ela tentou empurrar uma pedra para perto, para pular de cima.

A pedra era pesada demais. Ela empurrou com o ombro, empurrou com a cabeça, empurrou com as quatro patas. A pedra andou meio palmo e parou.

Na sétima ela tentou sacudir o caibro, na esperança de derrubar o cacho.

O caibro nem tremeu. Só soltou um pouco de poeira que caiu no olho dela.

Na décima tentativa, a raposa estava ofegante.

Na vigésima, estava com a língua para fora e as patas tremendo.

Na trigésima, ela pulou, errou feio e caiu de lado no chão de terra, levantando poeira.

Ficou ali deitada um tempo, respirando com dificuldade, olhando o cacho lá em cima.

O cacho continuava exatamente do mesmo jeito. Roxo. Gordo. Perfeito.

E a essa altura o sol já estava baixo.

A raposa deitada de lado no chão de terra, ofegante, com o cacho de uvas ainda intacto acima dela

A Desculpa

A raposa se levantou devagar.

Sacudiu a poeira do pelo, primeiro de um lado, depois do outro.

Ajeitou o rabo.

E ficou parada ali, embaixo da parreira, sentindo uma coisa que ela não sabia bem o nome.

Não era só a fome. Era outra coisa, mais embaixo, que apertava.

Era aquela sensação ruim de ter tentado com tudo e não ter conseguido.

Ela olhou para cima uma última vez.

E foi então que, sem nem pensar direito, a raposa falou em voz alta — mesmo sem ter ninguém por perto para escutar:

— Ah. Mas que bobagem.

Ela deu de ombros.

— Olha o tamanho dessas uvas. São pequenas demais.

Olhou de novo.

— E a cor. Roxa desse jeito? Uva boa é mais escura.

Deu mais um passo para longe.

— Aliás, agora que reparei, elas estão verdes. Devem estar azedas. Azedas de doer o dente.

E aí, mais firme, como quem fecha um assunto:

— Não estava com vontade de uva mesmo.

E foi embora, trotando pela estrada de terra com o focinho erguido, como se aquele tempo todo tivesse sido uma escolha.

O Que Ficou

O cacho ficou lá.

Amadureceu mais dois dias, ficou ainda mais doce, e depois um bando de sanhaços chegou e comeu tudo numa manhã.

Eles não pularam.

Só voaram.

Mas a raposa não estava lá para ver isso — e talvez tenha sido melhor assim, porque ela já tinha resolvido o assunto do jeito dela.

Até hoje, quando alguém fala mal de uma coisa que queria muito e não conseguiu, tem sempre alguém que lembra:

— Isso é conversa de raposa. As uvas não estavam verdes coisa nenhuma.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Você acha que aquelas uvas estavam realmente azedas?
  2. Por que é mais fácil dizer 'eu não queria' do que 'eu não consegui'?
  3. O que a raposa poderia ter feito em vez de ir embora?

Sobre esta história

Fábula de Esopo, do século VI a.C., em domínio público. É dela que vem a expressão que a gente usa até hoje quando alguém despreza o que não conseguiu ter. Na versão grega a fábula tem só quatro linhas; nossa recontagem desenvolve as tentativas da raposa, mas mantém o desfecho exatamente como está no original.

Perguntas frequentes sobre A Raposa e as Uvas

Qual é a moral de A Raposa e as Uvas?

Que é comum desprezar aquilo que a gente não conseguiu alcançar, para não ter que admitir o fracasso. A fábula não diz que isso é maldade: mostra que é um jeito de a pessoa se proteger, e que o problema é acreditar na própria desculpa.

De onde vem a expressão 'as uvas estão verdes'?

Vem exatamente desta fábula de Esopo. Até hoje, quando alguém fala mal de uma coisa que não conseguiu ter, dizemos que está fazendo como a raposa da história.

Esta história é assustadora?

Não. Não há perigo, vilão nem conflito com outro personagem: a raposa só tenta alcançar um cacho de uvas e não consegue. O único conflito é dela com ela mesma.

Quanto tempo leva para ler esta história?

Cerca de 6 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site, boa para as noites em que sobra pouco tempo.

Que tal a história de amanhã?