Contos para Dormir
Ilustração do conto Noé e a Arca dos Animais

Noé e a Arca dos Animais

Um barco enorme, dois de cada bicho e quarenta dias de chuva. E, no fim de tudo, um arco-íris no céu.

Muito tempo atrás, um homem começou a construir um barco enorme num lugar onde não havia mar nenhum

Noé era um homem simples que morava com a esposa e os três filhos numa terra seca, longe de qualquer rio grande.

Um dia ele começou a construir um barco.

Não um barquinho de pescar. Um barco gigantesco, do tamanho de um quarteirão, com três andares e uma porta enorme na lateral. E começou a construir no meio do nada, onde a água mais próxima era um poço.

Os vizinhos vinham ver.

— Noé, para que isso?

— Vai vir uma chuva grande.

— Chuva? — riam eles. — Aqui não chove faz três anos.

Noé não discutia. Continuava serrando madeira.

Os Anos de Trabalho

Levou muito tempo.

Os filhos de Noé cresceram serrando e martelando ao lado do pai. A esposa dele cozinhava para todos e vedava as frestas com piche, que era um trabalho fedorento e ninguém gostava.

E os vizinhos continuavam passando e rindo.

Teve dia em que Noé sentou na sombra da própria obra, olhou aquele casco enorme de madeira parado na terra seca e pensou se não estava mesmo ficando maluco.

Mas no dia seguinte levantou cedo e voltou a trabalhar.

A Fila dos Bichos

Numa manhã, os vizinhos acordaram com um barulho estranho.

Era um barulho de mugido, de grunhido, de pio, de zumbido — tudo junto.

Vindo do horizonte, em direção à arca, havia uma fila.

Uma fila de bichos.

Vinham elefantes com passo pesado, levantando poeira. Vinham girafas com o pescoço balançando. Vinham cavalos, camelos, ovelhas, cabras, cachorros, gatos, coelhos, ratos. Vinham em duplas — um de cada lado —, sem se atacar, sem correr, sem sair da fila.

Vinham aranhas caminhando pelo chão e formigas em duas colunas certinhas. Vinham pássaros de todas as cores pousando no telhado da arca até não caber mais.

Ninguém em lugar nenhum jamais tinha visto uma coisa daquelas.

Noé abriu a porta grande da lateral, e os bichos foram entrando.

Levou o dia inteiro.

A Chuva

À noite, quando o último casal de tartarugas terminou de entrar — devagarinho, porque tartaruga não tem pressa —, a família de Noé entrou também.

E a porta se fechou.

Foi então que caiu a primeira gota.

Depois a segunda. Depois não dava mais para contar.

Choveu daquele jeito que a gente acha que vai parar a qualquer momento e não para. Choveu de dia e de noite. A terra seca virou barro, o barro virou poça, as poças viraram um lago, e o lago foi subindo até que a arca, que estava parada na terra havia anos, deu um solavanco e boiou.

Dentro do barco, os animais fizeram um barulho enorme naquele momento. Depois foram se acalmando.

Quarenta Dias

A pomba volta com o raminho de oliveira

A parte que quase ninguém conta é a parte chata.

Foram quarenta dias de chuva. E depois muito mais tempo boiando, sem terra à vista, sem saber para onde estavam indo.

Dentro da arca havia trabalho de sobra. Alimentar todo mundo. Limpar tudo — e você pode imaginar o tamanho dessa tarefa com aquele tanto de bicho. Separar os que brigavam. Acalmar os que tinham medo de trovão.

Os filhos de Noé revezavam turnos. A nora mais nova descobriu que os camelos ficavam calmos se alguém cantasse, então cantava. O caçula passava as noites com os cachorros, que não gostavam do balanço.

E, todos os dias, Noé subia até a janelinha do teto e olhava para fora.

Água. Só água, em todas as direções.

A Pomba

Depois de muito tempo, a chuva parou.

Noé esperou mais uns dias e soltou um corvo pela janelinha. O corvo voou, voou e voltou, porque não tinha onde pousar.

Esperou mais uma semana e soltou uma pomba. A pomba deu uma volta grande e voltou também, cansada, e pousou na mão dele.

Esperou mais sete dias e soltou a pomba de novo.

Dessa vez ela demorou.

Quando voltou, ao entardecer, trazia no bico um raminho verde de oliveira.

Noé segurou aquele raminho na palma da mão por um tempo bem longo, sem falar nada, com a família toda em volta esperando.

Um raminho verde só podia significar uma coisa: em algum lugar, a água tinha baixado o bastante para uma árvore aparecer.

A Porta Se Abre

Ainda demorou mais um pouco. Água não some de uma hora para outra.

Mas veio a manhã em que a arca encostou em terra firme, numa montanha, com um raspar de madeira que fez todo mundo se olhar em silêncio.

Noé abriu a porta grande.

E entrou luz.

Os bichos saíram do jeito que tinham entrado, mas com pressa: os cavalos disparando, os pássaros explodindo para o céu todos ao mesmo tempo, os elefantes descendo devagar e as tartarugas, de novo, por último.

A família saiu e ficou parada ali no alto, olhando o mundo lavado, verde e brilhando de molhado.

O Arco-Íris

Foi aí que apareceu no céu uma coisa que ninguém tinha visto antes.

Uma faixa curva, enorme, atravessando o céu de ponta a ponta, com todas as cores que existem — vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil, violeta —, uma encostada na outra sem nenhuma emenda.

As crianças apontaram. Os adultos ficaram sem palavra.

E Noé entendeu que aquilo era uma promessa: que a terra não seria mais destruída daquele jeito. Que dali em diante, toda vez que chovesse forte e alguém batesse o olho naquele arco no céu, ia lembrar.

Dizem que ele plantou uma vinha naquela montanha e viveu ali o resto da vida.

E dizem que, até bem velhinho, toda vez que passava uma chuva de tarde e o sol voltava, Noé largava o que estivesse fazendo e ia até a porta de casa olhar o céu.

Só para conferir.

Estava sempre lá.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Todo mundo riu do Noé enquanto ele construía. O que você acha que ele sentia?
  2. Se você tivesse que cuidar dos bichos na arca, de qual cuidaria primeiro?
  3. Por que você acha que a pomba voltou com um raminho verde?

Sobre esta história

Recontagem infantil da narrativa do dilúvio, que aparece no livro de Gênesis e é uma das histórias mais antigas já registradas por escrito — versões parecidas existem em textos da Mesopotâmia com milhares de anos. O texto desta página é nosso, escrito em linguagem simples para leitura em voz alta.

Perguntas frequentes sobre Noé e a Arca dos Animais

Qual é a moral da história de Noé e a arca?

Que vale seguir fazendo o que se acredita ser certo mesmo quando ninguém entende, e que cuidar de quem depende de nós é uma responsabilidade que não se abandona no meio do caminho. O arco-íris fecha a história como sinal de recomeço.

Esta história é assustadora para crianças?

Nossa versão foca na construção da arca, na chegada dos bichos e na espera dentro do barco. A tempestade aparece, mas sem descrições pesadas: o centro da história é o cuidado com os animais e o alívio do fim.

Para que idade é indicada?

Dos 4 aos 8 anos. Os menores adoram a parte dos animais entrando em fila; os maiores costumam se interessar pela espera e pela paciência de Noé.

Que tal a história de amanhã?