
Noé e a Arca dos Animais
Um barco enorme, dois de cada bicho e quarenta dias de chuva. E, no fim de tudo, um arco-íris no céu.
Muito tempo atrás, um homem começou a construir um barco enorme num lugar onde não havia mar nenhum
Noé era um homem simples que morava com a esposa e os três filhos numa terra seca, longe de qualquer rio grande.
Era uma terra de poeira e pedra. O vento chegava toda tarde levantando areia, as cabras andavam soltas entre as casas de barro e o som mais comum do dia era o rangido da corda do poço, subindo e descendo, subindo e descendo. Ali ninguém desperdiçava água. Ali quase ninguém sabia direito o que era um rio grande.
Um dia ele começou a construir um barco.
Não um barquinho de pescar. Um barco gigantesco, do tamanho de um quarteirão, com três andares e uma porta enorme na lateral. E começou a construir no meio do nada, onde a água mais próxima era um poço.
Os vizinhos vinham ver. No começo por curiosidade, depois de propósito, como quem sai de casa para assistir a um espetáculo.
— Noé, para que isso?
— Vai vir uma chuva grande.
— Chuva? — riam eles. — Aqui não chove faz três anos.
— Eu sei.
— E você já reparou que aqui não tem mar?
— Já reparei — dizia Noé, e voltava para a serra.
Alguns traziam as crianças para ver. Outros traziam banquinho. Um homem chegou a levar um punhado de tâmaras para comer enquanto olhava, do jeito que a gente come alguma coisa assistindo a uma coisa engraçada acontecer.
Noé não discutia. Continuava serrando madeira.

Os Anos de Trabalho
Levou muito tempo. Não semanas nem meses: anos.
Anos de acordar antes do sol para aproveitar o fresco. Anos de subir e descer andaime com tábua no ombro. Anos de serra, martelo, medida, e serra de novo porque a medida tinha saído errada.
Os filhos de Noé cresceram serrando e martelando ao lado do pai. Quando a obra começou, o caçula mal conseguia levantar um balde de pregos. Quando terminou, era ele quem carregava as vigas mais pesadas, uma em cada ombro, sem reclamar.
A esposa dele cozinhava para todos e vedava as frestas com piche, que era um trabalho fedorento e ninguém gostava. O cheiro grudava na roupa, no cabelo e até no pão. À noite ela esfregava as mãos com areia, e o cheiro continuava lá.
E os vizinhos continuavam passando e rindo.
— Já acabou, Noé?
— Ainda não.
— Avisa quando molhar o pé.
Noé nunca respondia com raiva. Só ficava mais quieto, e batia o martelo um pouquinho mais forte.
Teve dia em que ele sentou na sombra da própria obra, olhou aquele casco enorme de madeira parado na terra seca e pensou se não estava mesmo ficando maluco. Um barco. Ali. Sem uma gota de água até onde a vista alcançava.
Ficou um tempo comprido sentado, com o martelo pendurado na mão, ouvindo o vento bater na madeira.
— Pai — chamou o filho do meio, lá de cima. — Esta tábua é da fileira de baixo ou da de cima?
Noé olhou para o filho. Olhou para a tábua.
— Da de baixo — disse.
E levantou.
No dia seguinte acordou cedo e voltou a trabalhar. E no outro. E no outro.

A Fila dos Bichos
Numa manhã, os vizinhos acordaram com um barulho estranho.
Era um barulho de mugido, de grunhido, de pio, de zumbido — tudo junto, chegando de longe, como se o horizonte inteiro estivesse conversando ao mesmo tempo.
As pessoas saíram de casa ainda de camisola. Subiram nos telhados. Puseram a mão na testa para fazer sombra.
Vindo do horizonte, em direção à arca, havia uma fila.
Uma fila de bichos.
Vinham elefantes com passo pesado, levantando poeira. Vinham girafas com o pescoço balançando devagar, como se estivessem dizendo que sim o tempo todo. Vinham cavalos, camelos, ovelhas, cabras, cachorros, gatos, coelhos, ratos. Vinham em duplas — um de cada lado —, sem se atacar, sem correr, sem sair da fila.
Vinham aranhas caminhando pelo chão e formigas em duas colunas certinhas, que era a coisa mais bem organizada que alguém já tinha visto.
Vinham pássaros de todas as cores pousando no telhado da arca até não caber mais, e então pousando uns nos outros.
Ninguém em lugar nenhum jamais tinha visto uma coisa daquelas. O homem das tâmaras deixou as tâmaras caírem no chão.
E aí ninguém riu mais.
Noé abriu a porta grande da lateral, e os bichos foram entrando.
Ele ficou ao lado da porta o dia todo, contando baixinho, mostrando o caminho com a mão, dando bom-dia para cada bicho como se cada um fosse visita chegando para o jantar.
— Por aqui. Isso. Cuidado com o degrau.
Os filhos corriam por dentro, abrindo baias, empilhando feno, arrumando lugar para bicho que ninguém sabia o nome. A esposa de Noé ia atrás com um pote de água, oferecendo a quem chegava com a língua de fora.
Levou o dia inteiro. E, quando o sol começou a baixar, ainda tinha fila.

A Chuva
À noite, quando o último casal de tartarugas terminou de entrar — devagarinho, porque tartaruga não tem pressa —, a família de Noé entrou também.
E a porta se fechou.
Por um instante ficou tudo em silêncio lá dentro. Dava para ouvir a respiração dos bichos e a madeira estalando, do jeito que madeira nova estala.
Foi então que caiu a primeira gota.
Fez um toc no telhado. Um som pequeno, quase bobo, depois de tantos anos de espera.
Depois a segunda. Depois não dava mais para contar.
Choveu daquele jeito que a gente acha que vai parar a qualquer momento e não para. Choveu de dia e de noite. Choveu enquanto todo mundo dormia e continuava chovendo quando todo mundo acordava.
Lá fora, os vizinhos correram para dentro de casa. Depois correram para cima das casas. Depois correram para o alto do morro, e de lá ficaram olhando aquele barco enorme de que tinham rido por tantos anos.
A terra seca virou barro, o barro virou poça, as poças viraram um lago, e o lago foi subindo até que a arca, que estava parada na terra havia anos, deu um solavanco e boiou.
Dentro do barco, os animais fizeram um barulho enorme naquele momento. Os cachorros latiram, os macacos gritaram, os pássaros bateram as asas todos ao mesmo tempo.
Noé pôs a mão na parede de madeira, sentiu a arca balançar e ficou quieto.
Depois foram se acalmando, um por um, do jeito que criança se acalma depois de um susto: primeiro os grandes, depois os pequenos, e por último os que fazem mais barulho.

Quarenta Dias
A parte que quase ninguém conta é a parte chata.
Foram quarenta dias de chuva. E depois muito mais tempo boiando, sem terra à vista, sem saber para onde estavam indo.
Dentro da arca havia trabalho de sobra. Alimentar todo mundo, que não era pouca boca. Limpar tudo — e você pode imaginar o tamanho dessa tarefa com aquele tanto de bicho. Separar os que brigavam. Acalmar os que tinham medo de trovão.
Havia um cheiro forte de palha molhada, de bicho e de piche, e depois de um tempo ninguém sentia mais.
Os filhos de Noé revezavam turnos. Um dormia, dois trabalhavam, e assim o dia inteiro e a noite inteira, porque dentro da arca dia e noite eram quase a mesma coisa.
A nora mais nova descobriu que os camelos ficavam calmos se alguém cantasse, então cantava. Cantava andando pelos corredores com um balde em cada mão, e os camelos iam abaixando o pescoço conforme ela passava.
O caçula passava as noites com os cachorros, que não gostavam do balanço. Deitava no chão de tábua no meio deles e dormia assim, com um cachorro em cima do pé.
A esposa de Noé fazia marquinhas na parede para não perderem a conta dos dias. Quando a parede ficou cheia, começou outra.
E, todos os dias, Noé subia até a janelinha do teto e olhava para fora.
Água. Só água, em todas as direções.
Descia sem dizer nada, comia com a família e voltava ao trabalho.
A Pomba
Depois de muito tempo, a chuva parou.
O silêncio chegou tão de repente que acordou todo mundo.
Noé esperou mais uns dias e soltou um corvo pela janelinha. O corvo voou, voou, sumiu de vista e voltou, porque não tinha onde pousar.

Esperou mais uma semana e soltou uma pomba. A pomba deu uma volta grande, sumiu atrás das nuvens e voltou também, cansada, e pousou na mão dele.
— Tudo bem — disse Noé, fazendo carinho na cabeça dela. — A gente espera mais um pouco.
Esperou mais sete dias e soltou a pomba de novo.
Dessa vez ela demorou.
A família ficou embaixo da janelinha a tarde inteira, olhando para cima, quase sem falar.
Quando voltou, ao entardecer, trazia no bico um raminho verde de oliveira.
Noé segurou aquele raminho na palma da mão por um tempo bem longo, sem falar nada, com a família toda em volta esperando.
Um raminho verde só podia significar uma coisa: em algum lugar, a água tinha baixado o bastante para uma árvore aparecer.
A Porta Se Abre
Ainda demorou mais um pouco. Água não some de uma hora para outra.
Mas veio a manhã em que a arca encostou em terra firme, numa montanha, com um raspar de madeira que fez todo mundo se olhar em silêncio.
Ficaram parados esperando o barco balançar de novo. Ele não balançou.
Noé respirou fundo e abriu a porta grande.
E entrou luz.
Os bichos saíram do jeito que tinham entrado, mas com pressa: os cavalos disparando, os pássaros explodindo para o céu todos ao mesmo tempo, os elefantes descendo devagar e as tartarugas, de novo, por último.
A família saiu e ficou parada ali no alto, olhando o mundo lavado, verde e brilhando de molhado.
O Arco-Íris
Foi aí que apareceu no céu uma coisa que ninguém tinha visto antes.
Uma faixa curva, enorme, atravessando o céu de ponta a ponta, com todas as cores que existem — vermelho, laranja, amarelo, verde, azul, anil, violeta —, uma encostada na outra sem nenhuma emenda.

As crianças apontaram. Os adultos ficaram sem palavra.
E Noé entendeu que aquilo era uma promessa: que a terra não seria mais destruída daquele jeito. Que dali em diante, toda vez que chovesse forte e alguém batesse o olho naquele arco no céu, ia lembrar.
Dizem que ele plantou uma vinha naquela montanha e viveu ali o resto da vida, vendo o mato crescer de novo, os bichos se espalharem pelos vales e o mundo ficar cheio outra vez.
E dizem que, até bem velhinho, toda vez que passava uma chuva de tarde e o sol voltava, Noé largava o que estivesse fazendo e ia até a porta de casa olhar o céu.
Só para conferir.
Estava sempre lá.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Todo mundo riu do Noé enquanto ele construía. O que você acha que ele sentia?
- Se você tivesse que cuidar dos bichos na arca, de qual cuidaria primeiro?
- Por que você acha que a pomba voltou com um raminho verde?
Sobre esta história
Recontagem infantil da narrativa do dilúvio, que aparece no livro de Gênesis e é uma das histórias mais antigas já registradas por escrito — versões parecidas existem em textos da Mesopotâmia com milhares de anos. O texto desta página é nosso, escrito em linguagem simples para leitura em voz alta.
Perguntas frequentes sobre Noé e a Arca dos Animais
Qual é a moral da história de Noé e a arca?
Que vale seguir fazendo o que se acredita ser certo mesmo quando ninguém entende, e que cuidar de quem depende de nós é uma responsabilidade que não se abandona no meio do caminho. O arco-íris fecha a história como sinal de recomeço.
Esta história é assustadora para crianças?
Nossa versão foca na construção da arca, na chegada dos bichos e na espera dentro do barco. A tempestade aparece, mas sem descrições pesadas: o centro da história é o cuidado com os animais e o alívio do fim.
Para que idade é indicada?
Dos 4 aos 8 anos. Os menores adoram a parte dos animais entrando em fila; os maiores costumam se interessar pela espera e pela paciência de Noé.


