
A Dinossaura que Guardava os Ovos dos Outros
Quando o vulcão acordou, todo mundo correu. Menos uma dinossaura, que ficou tomando conta de uma ninhada que nem era dela.
Na encosta do vulcão adormecido, uma dinossaura tomou uma decisão que ninguém entendeu
Zaza morava sozinha na parte baixa do vale, perto do riacho de água morna.
Era uma dinossaura de porte médio, casco duro nas costas, jeito calado. Não tinha companheiro, não tinha filhotes, não tinha bando. Passava os dias procurando raízes, tomando banho no riacho e cochilando ao sol.
De manhã descia até a água, que soltava um vaporzinho no frio, e ficava ali com metade do corpo dentro, ouvindo os sapos. De tarde cavava raiz na sombra das samambaias gigantes. De noite dormia encostada numa pedra grande que guardava o calor do dia inteiro.
Os outros achavam ela meio esquisita. Não por mal — é que no vale todo mundo andava em grupo, e Zaza simplesmente não andava.
Quando um bando passava perto do riacho, sempre tinha alguém que gritava:
— Bom dia, Zaza!
E ela respondia com um aceno de cabeça, sem parar de mastigar. Aquilo já era conversa suficiente para o dia inteiro.
O Ninho na Encosta
Num fim de tarde, subindo a encosta atrás de raiz, Zaza encontrou um ninho.
Era um ninho grande, feito de terra amontoada e folha seca, com sete ovos dentro. Ovos bonitos, esverdeados, do tamanho de melancia. Estavam arrumados em círculo, um encostado no outro, do jeito caprichado de quem levou tempo fazendo aquilo.
Ela olhou em volta.
Não havia ninguém.
Só o vento passando pelo capim alto e, lá longe, o barulho da água descendo a pedra.
Zaza esperou um tempo, achando que a mãe tinha ido buscar comida. Sentou-se a alguns passos do ninho, quietinha, do jeito que ela sabia ficar quieta. Esperou o sol encostar no morro. Esperou o céu ficar laranja, depois roxo. Esperou até escurecer. A mãe não voltou.

Antes de descer, Zaza fez uma coisa sem pensar muito: empurrou um pouco de folha seca para cima dos ovos, para o sereno da noite não pegar neles.
No dia seguinte, subiu de novo para conferir.
A folha estava exatamente como ela tinha deixado. Os ovos também.
Continuava vazio de gente e cheio de ovo.
Por Que Estavam Sozinhos
Ninguém nunca soube o que houve com os pais daquela ninhada. No vale, dizia-se muita coisa — que tinham migrado, que tinham se perdido na tempestade, que tinham sido apanhados na travessia do rio.
Zaza não perguntou. Ela não era de conversar.
Só começou a subir a encosta todo dia.
Subia de manhã cedo, com a grama ainda molhada, e de tanto ela passar sempre pelo mesmo lugar acabou ficando uma trilha marcada no capim. Ajeitava as folhas quando o vento bagunçava. Cobria os ovos nas noites frias. Espantava os bichos pequenos que rondavam com intenção duvidosa — bastava chegar perto e bater o casco no chão, uma vez só, que eles sumiam no mato.
Às vezes ficava ali um tempo à toa, sem fazer nada, só olhando aquele monte de casca esverdeada brilhando no sol da manhã.
Um dia encostou o ouvido devagarinho num dos ovos. Achou que tinha escutado alguma coisa lá dentro, um arranhãozinho, um baque. Ficou com aquilo na cabeça o resto do dia.
Não contou para ninguém. Se alguém perguntasse por que ela vivia subindo aquela encosta, ela dava de ombros e falava de raiz.
— Tem raiz boa lá em cima — dizia.
E era verdade. Só não era o motivo.

O Vulcão Acorda
Foi numa manhã de agosto que o chão começou a tremer.
Não foi um tremor de assustar logo de cara. Foi um arrepio no chão, parecido com o que se sente quando um bicho grande passa correndo por perto. A água do riacho fez círculos sozinha. Os bichos pequenos calaram a boca todos ao mesmo tempo, e foi esse silêncio, mais do que o tremor, que fez Zaza levantar a cabeça.
O vulcão que ficava no alto do vale, aquele que todo mundo garantia estar dormindo havia gerações, soltou uma coluna de fumaça escura que subiu tão alto que virou nuvem.
O cheiro chegou depois. Um cheiro de pedra queimada, meio azedo, daqueles que ficam no fundo do nariz e não saem.
O vale entrou em pânico.
Em poucas horas, todo bicho grande estava a caminho do desfiladeiro do sul, que era a saída. Os bandos se juntaram, os filhotes foram postos no meio, os velhos foram amparados. Uma fila enorme de dinossauros começou a atravessar o vale rumo à passagem.
Chamaram Zaza também. Um bando inteiro passou pelo riacho, alguém gritou o nome dela, e ela entrou na fila junto, porque era o que se fazia.
Zaza estava na fila.
Estava andando junto com todo mundo, no meio da poeira e do barulho, quando parou.
Parou do jeito que a gente para quando lembra de uma coisa.
A Volta
Um pescoçudo atrás dela quase trombou.
— Anda!
Zaza olhou para trás, na direção da encosta. Dali dava para ver a fumaça escorrendo devagar por cima do mato, como um cobertor sujo.

— Eu esqueci uma coisa.
— Esqueceu? Zaza, deixa! Depois você busca!
— Não dá para buscar depois.
— Você ficou maluca? Está saindo fumaça daquele lado!
Ela não respondeu. Não era birra: é que ela não tinha explicação que coubesse em palavra, e procurar uma ia tomar um tempo que ela não tinha.
Saiu da fila e começou a andar no sentido contrário, contra a correnteza de bichos apavorados, tomando esbarrão, sendo xingada, até conseguir sair do meio da multidão.
Quando enfim ficou sozinha no capim, o barulho da fila já estava longe, virando um zumbido. O vale inteiro ia para um lado. Ela ia para o outro.
Depois subiu a encosta.
Os Dias no Ninho
O vulcão não explodiu naquele dia. Nem no seguinte.
Ficou assim por quase duas semanas: roncando, tremendo, soltando fumaça e cuspindo cinza fina que caía sobre tudo como uma neve suja.
O vale ficou vazio. Só se ouvia o ronco lá do alto.
Era um barulho esquisito, o do vulcão. Parecia trovão, mas não acabava nunca, e vinha de baixo, pelo chão, subindo pelas patas de quem estivesse em cima dele.
E Zaza ficou no ninho.
Cobriu os ovos com folha para a cinza não encostar. Trocou a folha toda vez que ficava pesada demais. Foi buscar água no riacho morno, que agora estava quente demais para beber, e depois foi buscar mais longe, num veio que descia da mata e que ela levava meia manhã para alcançar.
Aprendeu a fazer tudo depressa. Descia, bebia, comia o que achasse pelo caminho e voltava quase correndo, porque não gostava de deixar o ninho sozinho por muito tempo.
À noite, deitava-se em volta do ninho, enroscada, e ficava ouvindo a montanha roncar.

Ela tinha medo. Ela tinha muito medo.
Teve noite em que pensou em ir embora. Pensou de verdade, com o queixo apoiado no chão, calculando quantos dias levaria até o desfiladeiro se saísse antes de o sol nascer. Chegou a se levantar uma vez.
Depois olhou para os sete ali, todos juntinhos debaixo da folha, e deitou de novo.
Mas quem sai da fila e volta não desiste no terceiro dia.
As Rachaduras
Na décima primeira noite, Zaza ouviu um barulho diferente do vulcão.
Um barulhinho seco. Perto.
Ela abriu os olhos.
Um dos ovos tinha uma rachadura.
Zaza se levantou tão rápido que assustou a si mesma. Ficou olhando aquela rachadura crescer, virar duas, virar uma teia, até que um pedaço da casca caiu e apareceu um focinho miudinho, molhado, de olhos fechados.
O bichinho piou.
Foi um pio fininho, do tamanho do bicho que o soltou, e mesmo assim conseguiu ser, para Zaza, mais alto do que o vulcão inteiro.
Ela não sabia o que fazer, então fez a única coisa que lhe ocorreu: encostou o focinho nele com muito cuidado.
O filhote se aninhou ali.
Ficou um tempo tremendo, encaixado no calor dela, até parar de tremer e dormir.
Nos dois dias seguintes, os outros seis vieram.
Vieram um de cada vez, quase sempre de madrugada, sempre com aquele barulhinho seco antes. E Zaza, que a vida inteira quase não tinha falado com ninguém, se pegou conversando baixinho com casca de ovo:
— Devagar. Devagar, que eu estou aqui.

A Descida
O vulcão foi se acalmando, como às vezes acontece — roncou menos, fumegou menos, e por fim voltou a dormir, deixando o vale cinzento e estranho, mas inteiro.
Depois veio uma chuva grossa que lavou boa parte da cinza. Debaixo dela o capim continuava verde, meio amassado, como quem acaba de acordar.
Quando os bandos começaram a voltar pelo desfiladeiro do sul, encontraram uma cena que ninguém esperava.
Descendo a encosta, devagar, vinha Zaza.
E atrás dela, em fila torta, tropeçando uns nos outros e piando sem parar, vinham sete filhotes.
Ela descia devagar de propósito. A cada tantos passos parava, olhava para trás e contava — um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete —, e só depois de contar seguia em frente.
Os que voltavam foram parando no caminho, um depois do outro, sem saber direito o que estavam vendo. Alguns tinham certeza de que Zaza tinha ido embora com algum bando pelo outro lado. Outros nem tinham reparado que ela não estava na travessia.
O vale ficou em silêncio.
Um dos velhos do bando maior deu um passo à frente.
— Zaza. Você ficou.
— Fiquei.
— Por quê? Nem são seus.
Zaza pensou um pouco. Ela nunca tinha sido boa com palavras.
— São agora — disse ela.
O velho não achou o que responder. Olhou para os filhotes, contou também, do jeito dele, e abaixou a cabeça devagar.
E, como quem já falou o suficiente para o ano todo, tocou em frente rumo ao riacho, com os sete atrás dela, piando.

Depois
Dizem que os sete cresceram grandes, maiores que ela, e que nenhum deles saiu do lado dela enquanto ela viveu.
Dizem que o riacho de água morna virou o lugar mais movimentado do vale, porque onde tem sete filhotes brincando junta gente.
E dizem que, no Vale do Vulcão Adormecido, ficou um costume que não existia antes: quando alguém precisa se ausentar e deixar um ninho, não pede favor a parente nenhum.
Procura quem cuida.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- A Zaza podia ter ido embora com todo mundo. Por que você acha que ela ficou?
- O que é ser família: nascer junto ou cuidar um do outro?
- Você já cuidou de alguma coisa pequena? Como foi?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. Fósseis já revelaram dinossauros encontrados sobre seus próprios ninhos, o que sugere que alguns deles chocavam e protegiam os ovos — a história parte dessa ideia e inventa o resto.
Perguntas frequentes sobre A Dinossaura que Guardava os Ovos dos Outros
Qual é a moral desta história?
Que cuidar de quem precisa não depende de laço de sangue. A protagonista fica por escolha, não por obrigação, e é isso que dá o peso da história.
Dinossauros cuidavam mesmo dos ovos?
Há fortes indícios de que sim. Foram encontrados fósseis de dinossauros posicionados sobre ninhos, de um jeito parecido com o das aves atuais, o que sugere que alguns deles chocavam e protegiam a ninhada.
Esta história é assustadora por causa do vulcão?
O vulcão cria tensão, mas nossa versão não descreve destruição nem ferimentos, e termina em segurança. É adequada a partir dos 4 anos.


