
A Dinossaura que Guardava os Ovos dos Outros
Quando o vulcão acordou, todo mundo correu. Menos uma dinossaura, que ficou tomando conta de uma ninhada que nem era dela.
Na encosta do vulcão adormecido, uma dinossaura tomou uma decisão que ninguém entendeu
Zaza morava sozinha na parte baixa do vale, perto do riacho de água morna.
Era uma dinossaura de porte médio, casco duro nas costas, jeito calado. Não tinha companheiro, não tinha filhotes, não tinha bando. Passava os dias procurando raízes, tomando banho no riacho e cochilando ao sol.
Os outros achavam ela meio esquisita. Não por mal — é que no vale todo mundo andava em grupo, e Zaza simplesmente não andava.
O Ninho na Encosta
Num fim de tarde, subindo a encosta atrás de raiz, Zaza encontrou um ninho.
Era um ninho grande, feito de terra amontoada e folha seca, com sete ovos dentro. Ovos bonitos, esverdeados, do tamanho de melancia.
Ela olhou em volta.
Não havia ninguém.
Zaza esperou um tempo, achando que a mãe tinha ido buscar comida. Esperou até escurecer. A mãe não voltou.
No dia seguinte, subiu de novo para conferir.
Continuava vazio de gente e cheio de ovo.
Por Que Estavam Sozinhos
Ninguém nunca soube o que houve com os pais daquela ninhada. No vale, dizia-se muita coisa — que tinham migrado, que tinham se perdido na tempestade, que tinham sido apanhados na travessia do rio.
Zaza não perguntou. Ela não era de conversar.
Só começou a subir a encosta todo dia.
Ajeitava as folhas quando o vento bagunçava. Cobria os ovos nas noites frias. Espantava os bichos pequenos que rondavam com intenção duvidosa.
Não contou para ninguém. Se alguém perguntasse por que ela vivia subindo aquela encosta, ela dava de ombros e falava de raiz.
O Vulcão Acorda
Foi numa manhã de agosto que o chão começou a tremer.
O vulcão que ficava no alto do vale, aquele que todo mundo garantia estar dormindo havia gerações, soltou uma coluna de fumaça escura que subiu tão alto que virou nuvem.
O vale entrou em pânico.
Em poucas horas, todo bicho grande estava a caminho do desfiladeiro do sul, que era a saída. Os bandos se juntaram, os filhotes foram postos no meio, os velhos foram amparados. Uma fila enorme de dinossauros começou a atravessar o vale rumo à passagem.
Zaza estava na fila.
Estava andando junto com todo mundo, no meio da poeira e do barulho, quando parou.
A Volta
Um pescoçudo atrás dela quase trombou.
— Anda!
Zaza olhou para trás, na direção da encosta.
— Eu esqueci uma coisa.
— Você ficou maluca? Está saindo fumaça daquele lado!
Ela não respondeu. Saiu da fila e começou a andar no sentido contrário, contra a correnteza de bichos apavorados, tomando esbarrão, sendo xingada, até conseguir sair do meio da multidão.
Depois subiu a encosta.
Os Dias no Ninho

O vulcão não explodiu naquele dia. Nem no seguinte.
Ficou assim por quase duas semanas: roncando, tremendo, soltando fumaça e cuspindo cinza fina que caía sobre tudo como uma neve suja.
O vale ficou vazio. Só se ouvia o ronco lá do alto.
E Zaza ficou no ninho.
Cobriu os ovos com folha para a cinza não encostar. Trocou a folha toda vez que ficava pesada demais. Foi buscar água no riacho morno, que agora estava quente demais, e depois foi buscar mais longe.
À noite, deitava-se em volta do ninho, enroscada, e ficava ouvindo a montanha roncar.
Ela tinha medo. Ela tinha muito medo.
Mas quem sai da fila e volta não desiste no terceiro dia.
As Rachaduras
Na décima primeira noite, Zaza ouviu um barulho diferente do vulcão.
Um barulhinho seco. Perto.
Ela abriu os olhos.
Um dos ovos tinha uma rachadura.
Zaza se levantou tão rápido que assustou a si mesma. Ficou olhando aquela rachadura crescer, virar duas, virar uma teia, até que um pedaço da casca caiu e apareceu um focinho miudinho, molhado, de olhos fechados.
O bichinho piou.
Ela não sabia o que fazer, então fez a única coisa que lhe ocorreu: encostou o focinho nele com muito cuidado.
O filhote se aninhou ali.
Nos dois dias seguintes, os outros seis vieram.
A Descida
O vulcão foi se acalmando, como às vezes acontece — roncou menos, fumegou menos, e por fim voltou a dormir, deixando o vale cinzento e estranho, mas inteiro.
Quando os bandos começaram a voltar pelo desfiladeiro do sul, encontraram uma cena que ninguém esperava.
Descendo a encosta, devagar, vinha Zaza.
E atrás dela, em fila torta, tropeçando uns nos outros e piando sem parar, vinham sete filhotes.
O vale ficou em silêncio.
Um dos velhos do bando maior deu um passo à frente.
— Zaza. Você ficou.
— Fiquei.
— Por quê? Nem são seus.
Zaza pensou um pouco. Ela nunca tinha sido boa com palavras.
— São agora — disse ela.
Depois
Dizem que os sete cresceram grandes, maiores que ela, e que nenhum deles saiu do lado dela enquanto ela viveu.
Dizem que o riacho de água morna virou o lugar mais movimentado do vale, porque onde tem sete filhotes brincando junta gente.
E dizem que, no Vale do Vulcão Adormecido, ficou um costume que não existia antes: quando alguém precisa se ausentar e deixar um ninho, não pede favor a parente nenhum.
Procura quem cuida.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- A Zaza podia ter ido embora com todo mundo. Por que você acha que ela ficou?
- O que é ser família: nascer junto ou cuidar um do outro?
- Você já cuidou de alguma coisa pequena? Como foi?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. Fósseis já revelaram dinossauros encontrados sobre seus próprios ninhos, o que sugere que alguns deles chocavam e protegiam os ovos — a história parte dessa ideia e inventa o resto.
Perguntas frequentes sobre A Dinossaura que Guardava os Ovos dos Outros
Qual é a moral desta história?
Que cuidar de quem precisa não depende de laço de sangue. A protagonista fica por escolha, não por obrigação, e é isso que dá o peso da história.
Dinossauros cuidavam mesmo dos ovos?
Há fortes indícios de que sim. Foram encontrados fósseis de dinossauros posicionados sobre ninhos, de um jeito parecido com o das aves atuais, o que sugere que alguns deles chocavam e protegiam a ninhada.
Esta história é assustadora por causa do vulcão?
O vulcão cria tensão, mas nossa versão não descreve destruição nem ferimentos, e termina em segurança. É adequada a partir dos 4 anos.


