Pular para o conteúdo
Contos para Dormir
Ilustração do conto O Dragão que Não Soltava Fogo

O Dragão que Não Soltava Fogo

No Vale das Chamas Eternas, todo dragão precisa dominar sua chama. Brasa só conseguia soltar faíscas — e ninguém imaginava o que elas escondiam.

Equipe Contos para Dormir ·

Compartilhar no WhatsApp

Brasa era o menor dos dragões, mas guardava um talento que nenhum outro tinha

No Vale das Chamas Eternas, onde os dragões viviam há milhares de anos, havia uma lei que todos conheciam e respeitavam: cada dragão devia dominar sua chama antes do Dia da Maioridade, quando completava duzentos anos. Um dragão sem chama era como um pássaro sem asas — biologicamente possível, mas socialmente invisível.

O vale cheirava a pedra quente o dia inteiro. De manhã, quando o sol batia nos paredões, dava para ouvir o estalinho das rochas se aquecendo, como pipoca começando a estourar bem devagar. No fim da tarde, os dragões voltavam da caça soltando labaredas por puro contentamento, e o céu ficava riscado de laranja de uma ponta à outra. Era assim havia mil gerações. Era assim que todo mundo sabia que estava tudo bem.

Brasa nasceu pequeno. Não apenas pequeno para um dragão recém-nascido — pequeno de verdade, com a metade do tamanho do irmão mais novo, escamas de um laranja opaco em vez do vermelho brilhante que era sinal de boa saúde, e asas que pareciam grandes demais para o corpo, dando-lhe a aparência de um filhote de morcego que tentava se passar por dragão.

Ninguém comentava isso na frente dele, é claro. Mas os dragões têm um jeito muito próprio de dizer as coisas sem dizer: um olhar rápido de um adulto para o outro, um silêncio meio comprido quando ele entrava na caverna, a mesma pergunta repetida por todos os tios em todas as visitas — "e a chama, como é que vai?".

Mas o que mais preocupava a família de Brasa era a chama. Todos os outros filhotes de sua geração já soltavam labaredas decentes aos cinquenta anos — o irmão mais velho, Vulcão, conseguia derreter pedra desde os quarenta e sete. Brasa, aos setenta e três anos, conseguia soprar… faíscas. Coloridas e bonitas, mas faíscas. Não chamas.

As Faíscas que Ninguém Queria

Brasa pequeno entre os dragões de fogo

— Tente de novo — dizia o pai, com aquela paciência de quem já tentou muitas vezes. — Respira fundo, concentra o calor no centro do peito, e solta tudo de uma vez.

Brasa respirava, concentrava, soltava. E saíam faíscas. Verdes, azuis, douradas, roxas — dependendo do dia, as faíscas mudavam de cor como fogos de artifício em miniatura. Eram lindas, de certa forma. Mas ninguém na família de Brasa parecia ver a beleza nisso.

Naquele verão, tentaram de tudo. O pai mandou Brasa subir correndo até o alto do morro para esquentar a máquina. Mandou mastigar três pedrinhas de carvão antes de dormir. Mandou encher o peito até ele ficar redondo feito um sapo e segurar o ar enquanto contava até vinte.

— E agora? — perguntava, cheio de esperança.

— Agora — respondia Brasa, soltando o ar devagar — saiu azul.

— Azul — repetia o pai, olhando para o chão. — Bonito, filho. Muito bonito.

Era pior quando ele dizia que era bonito.

— Faíscas não cozinham comida — disse a mãe uma vez, sem maldade, apenas cansada. — Faíscas não defendem território. No dia da Maioridade, os anciões vão pedir que você demonstre sua chama. O que você vai mostrar?

Brasa não tinha resposta para isso. Passou seus dias treinando com afinco, tentando transformar as faíscas em algo maior, mas quanto mais tentava forçar, menos saía. Às vezes não saía nada — só fumaça e frustração, e uma garganta arranhada que ainda doía no dia seguinte.

De noite, quando todos já dormiam, ele tentava mais um pouquinho escondido atrás da caverna, onde ninguém pudesse ver. As faíscas saíam miudinhas e caíam na pedra como confete molhado. Brasa apagava uma por uma com a pata e voltava para dentro sem fazer barulho.

O Velho Dragão da Montanha

Um dragãozinho laranja voando sozinho acima das nuvens rumo ao cume de uma montanha alta

Um dia, fugindo das gozações dos irmãos e do olhar preocupado dos pais, Brasa voou mais longe do que nunca. Passou por cima do rio de lava que atravessa o vale, por cima das cavernas onde os primos brincavam de queimar galhos, por cima da última fileira de rochedos que os filhotes tinham permissão de cruzar. O ar foi ficando fino e gelado. E aconteceu uma coisa curiosa: as asas grandes demais, que atrapalhavam tanto no chão, ali em cima seguravam Brasa no vento sem que ele precisasse bater quase nada.

Pousou no cume de uma montanha que ficava na borda do vale. Ali vivia um dragão antiquíssimo chamado Cinza — tão velho que suas escamas haviam esbranquiçado, e tão respeitado que os outros dragões raramente subiam para visitá-lo, como se a sabedoria fosse algo que pudesse desgastar o caminho.

Cinza estava deitado numa pedra plana, olhando para o horizonte, quando Brasa pousou com um baque desajeitado alguns metros à frente.

— Desculpe a intromissão — disse Brasa, envergonhado.

— Não foi intromissão — disse Cinza sem se mover. — Eu sabia que você viria um dia. Sente-se.

Brasa sentou-se na pedra ao lado do ancião e ficou em silêncio por um momento. Dali de cima dava para ver o vale inteiro, pequenininho, com os pontinhos de fogo dos dragões indo e vindo entre as cavernas. O vento assobiava fino nas fendas da rocha. Então contou tudo: as faíscas, os treinos fracassados, o Dia da Maioridade que se aproximava, o medo de decepcionar a família.

O dragãozinho sentado numa pedra ao lado de um dragão ancião de escamas brancas, os dois olhando o vale lá embaixo

Cinza ouviu tudo sem interromper. Não disse "calma", não disse "isso passa", não balançou a cabeça — só ouviu, do jeito que quase ninguém ouve. Quando Brasa terminou, o velho dragão fez uma pergunta que parecia não ter nada a ver com o problema:

— As suas faíscas mudam de cor. Você já tentou controlar a cor?

Brasa franziu o cenho — os dragões conseguem franzir o cenho, embora poucos humanos saibam disso. — Não. Nunca pensei nisso. Por que isso importa?

— Porque — disse Cinza devagar — uma chama que faz tudo que as outras chamas fazem não é um dom. É uma competência. Mas uma chama que faz algo que nenhuma outra chama jamais fez… isso é raro. Isso é valioso.

Brasa ficou olhando para ele, sem saber se aquilo era um elogio ou um enigma.

— Mas ninguém no vale acha as minhas faíscas valiosas — disse.

— Ninguém no vale viu ainda — respondeu o ancião. — Tem diferença.

E, depois de um silêncio bem comprido, acrescentou:

— Volte aqui quando tiver inventado uma cor que ainda não tenha nome.

Aprendendo a Ser Diferente

Brasa voltou para casa diferente. Não com uma chama maior — ainda eram faíscas. Mas com uma pergunta diferente na cabeça: não como faço para ser como os outros, mas o que consigo fazer que os outros não conseguem?

Passaram-se semanas de experimentação. Brasa descobriu que podia controlar a cor das faíscas com a emoção que sentia enquanto as soltava: tristeza produzia azul, alegria produzia dourado, curiosidade produzia verde, amor produzia rosa. E com prática, conseguiu misturar as emoções e criar cores que não tinham nome ainda.

Faíscas coloridas sopradas pelo dragãozinho formam a silhueta de um pássaro em voo numa clareira à noite

Treinava numa clareira de pedras lisas atrás da caverna, sempre depois do jantar. Lembrava do cheiro de chuva no primeiro dia de inverno, e saía um azul quase branco. Lembrava da mãe cantarolando enquanto arrumava o ninho, e saía um dourado morno. Lembrava do dia em que riram dele na frente de todo mundo, e saía uma cor esquisita, meio roxa, meio cinza, que no começo ele achou feia e depois começou a achar bonita — porque era dele e de mais ninguém.

Mais do que isso: descobriu que podia direcionar as faíscas. Não apenas soltá-las em jatos aleatórios, mas guiá-las com precisão, formando formas e padrões no ar. Um pássaro em voo. Uma flor se abrindo. O rosto de sua mãe, feito de luz colorida, que durava dez segundos antes de se dissolver em estrelas.

No começo errava muito. O pássaro virava borrão, a flor desmanchava antes de abrir, e uma vez as faíscas fizeram uma coisa tão torta que ele mesmo riu sozinho no escuro. Mas errar tinha ficado divertido, o que era uma novidade completa na vida de Brasa.

O irmão mais velho, Vulcão, o viu praticando e ficou quieto por muito tempo. — Isso é impressionante — disse ele finalmente, com uma honestidade que surpreendeu os dois. — Eu nunca consigo fazer isso. Minha chama vai em linha reta e pronto.

— A sua derrete pedra — disse Brasa.

— Derrete — concordou Vulcão. — Mas pedra derretida é sempre igual.

E sentou-se na beirada da clareira, dobrou as asas e ficou ali até o fim do treino, olhando as cores subirem. Não disse mais nada. Não precisava.

O Dia da Maioridade

Dragões adultos reunidos em volta de uma arena de pedra ao amanhecer, com o dragãozinho na borda

O Dia da Maioridade chegou num amanhecer frio e claro. Os dragões do vale se reuniram na Arena das Chamas, uma bacia natural de pedra onde as demonstrações eram feitas. Um por um, os jovens dragões da geração de Brasa subiram e soltaram suas chamas: largas, altas, quentes o suficiente para fazer os anciões assentir com aprovação.

A filha da caverna vizinha soltou uma labareda tão comprida que esquentou o ar até a última fileira. O primo de Brasa fez uma coluna de fogo reta como um tronco. Cada chama deixava no ar o mesmo cheiro de fumaça doce, e a plateia batia as asas de leve, educadamente, igualzinho para todos.

Quando chegou a vez de Brasa, houve um murmúrio de expectativa — ou talvez de preocupação — entre os presentes. A família estava na primeira fila, os pais com aquela expressão misturada de esperança e medo que os pais têm quando não sabem o que vai acontecer mas sabem que é importante.

Brasa voou até o centro da arena. Olhou para os anciões. Olhou para a família. Lá no alto da bacia de pedra, bem no fim de tudo, havia uma mancha branca e antiga que só podia ser Cinza. Respirou fundo.

E então soltou tudo.

Não uma chama. Uma tapeçaria de faíscas — milhares delas, em todas as cores que existiam e algumas que ninguém havia visto antes, organizadas numa dança que contava uma história: o vale há mil anos, as montanhas ao redor, o céu estrelado que os dragões olhavam toda noite, e no centro de tudo, uma chama pequena e colorida que era diferente de todas as outras mas brilhava do seu próprio jeito.

O dragãozinho no centro da arena solta uma tapeçaria de faíscas que desenha montanhas e estrelas

O silêncio que se seguiu durou quase um minuto inteiro.

Então o ancião mais velho — mais velho até do que Cinza — bateu as asas três vezes, que era o sinal de aprovação máxima. E os outros dragões fizeram o mesmo, até a arena ecoar com o som de centenas de asas batendo juntas. Vulcão batia mais forte que todo mundo.

Brasa pousou, com as pernas tremendo um pouco. As últimas faíscas ainda desciam devagarinho em volta dele, roxas e douradas, e se apagavam antes de tocar a pedra. Lá no alto da bacia, a mancha branca e antiga bateu as asas uma vez só, bem devagar, e sumiu montanha acima — e Brasa entendeu que aquilo também era um jeito de dizer parabéns.

A mãe veio primeiro, encostando o focinho no dele — o abraço dos dragões. — Era isso que estava dentro de você o tempo todo — ela disse. — E eu quase fiz você desistir disso para ser como os outros.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Todo mundo queria que o Brasa fosse igual aos outros dragões. Por que isso o deixava triste?
  2. Você tem alguma coisa que faz de um jeito diferente dos seus amigos?
  3. A mãe dele quase o fez desistir de ser quem era. O que ela poderia ter dito no lugar?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para ser lida em voz alta na hora de dormir. Não é uma adaptação de conto tradicional: os personagens e o enredo são nossos.

Perguntas frequentes sobre O Dragão que Não Soltava Fogo

Qual é a moral desta história?

Que talento não é ser bom no que esperam de você, e sim descobrir o que só você faz. É uma história sobre autoestima e sobre resistir à pressão de ser igual a todo mundo.

Esta história serve para falar sobre bullying?

Serve bem. O protagonista é comparado o tempo todo com os irmãos e colegas, e a virada não vem de ele se tornar igual, mas de o valor dele ser finalmente reconhecido.

Para que idade esta história é indicada?

A faixa indicada é de 5 a 9 anos. As crianças menores acompanham sem dificuldade as faíscas coloridas e a cena final na arena; a partir dos 7 anos já percebem a pressão que Brasa sente para ser igual aos irmãos. Não há violência nem cenas de susto, então funciona bem na hora de dormir.

Que tal a história de amanhã?