Contos para Dormir
Ilustração do conto A Bela Adormecida

A Bela Adormecida

Um feitiço, um sono de cem anos e um castelo coberto de rosas. A história da princesa que o tempo inteiro esperou — e do amor que a acordou.

Equipe Contos para Dormir ·

No coração de uma floresta encantada, havia um castelo guardado por uma fada malvada

Era uma vez, num reino muito distante, um rei e uma rainha que esperavam ansiosamente o nascimento de sua filha. Esperavam havia tantos anos que já tinham perdido a conta das primaveras, e todo mundo no castelo já tinha aprendido a não perguntar mais nada. Quando a pequena princesa Aurora finalmente veio ao mundo, numa manhã de sol, era tão linda quanto as rosas do jardim real — com bochechas cor-de-rosa, olhinhos azuis e um sorriso que iluminava qualquer ambiente. A rainha a segurou no colo e chorou baixinho de tanta alegria. O rei riu alto pela primeira vez em muito tempo, e o riso dele atravessou os corredores até chegar à cozinha. Naquela noite, os sinos da torre tocaram até tarde, e ninguém no reino reclamou do barulho.

O rei, radiante de alegria, organizou um grande banquete para apresentar a princesinha ao reino e convidou as sete fadas boas da floresta para serem suas madrinhas. As mesas estavam decoradas com flores e velas de ouro, e músicos tocavam melodias suaves enquanto os convidados celebravam com bolos de mel e copinhos de suco de framboesa. O salão inteiro cheirava a cera quente, a mel e a rosas recém-cortadas do jardim. Quando as sete fadas entraram, com vestidos leves como pétalas, todo mundo se calou para vê-las passar até o berço dourado. Vinham da floresta e traziam nos cabelos o cheiro bom do mato depois da chuva.

O príncipe atravessa a floresta de espinhos que floresce em rosas

A Maldição da Fada Malvada

Uma a uma, as sete fadas boas se aproximaram do berço de Aurora para lhe oferecer seus dons mágicos. A primeira fada tocou levemente a testa da bebê e sussurrou: — Que você seja bondosa de coração. A segunda disse: — Que você seja sábia e inteligente. A terceira murmurou: — Que a música sempre te alegre. A cada dom, uma faísca dourada descia sobre o berço e sumia, como um floco de neve na mão. A quarta desejou que Aurora dançasse com leveza; a quinta, que cantasse com a voz mais doce do reino; e a sexta prometeu que os animais da floresta seriam amigos dela para sempre. A rainha apertava a mão do rei a cada palavra. Mas quando a sexta fada acabou de falar, algo terrível aconteceu: a porta do salão se abriu com um estrondo, todas as velas se apagaram e uma nuvem escura de fumaça tomou conta do ambiente. Era Malévola, a fada malvada, que não havia sido convidada para a festa e estava furiosa da cabeça aos pés.

Também tenho um presente para a princesa! — gritou Malévola com voz rouca, apontando seu cajado negro para o berço. — Ao completar dezesseis anos, Aurora vai furar o dedo num fuso de roca de fiar… e cairá morta! Dito isso, ela desapareceu numa explosão de fumaça roxa, deixando todos gelados de pavor. Por um tempo ninguém no salão conseguiu falar nada. O rei abraçou a rainha, que chorava desesperada, e as fadas se olharam sem saber o que fazer.

Uma fada pequenina se inclina sobre o berço da princesa recém-nascida e derrama uma luz dourada

Mas a sétima fada boa, que ainda não havia dado seu dom, se aproximou delicadamente do berço. Era a menorzinha de todas e falava tão baixo que era preciso prestar muita atenção para ouvi-la. — Não posso desfazer a maldição completamente, — disse ela com voz gentil, — mas posso transformá-la: Aurora não morrerá. Apenas cairá num sono profundo, e só o beijo do verdadeiro amor poderá despertá-la. Uma luz morna encheu o salão de novo, e a rainha respirou fundo pela primeira vez desde o estrondo da porta. O rei, mesmo aliviado, mandou imediatamente destruir todos os fusos de roca de fiar do reino. Durante semanas, carroças subiram e desceram as estradas recolhendo rocas de todas as casas, e ninguém no reino voltou a fiar lã perto de uma janela aberta.

Aurora cresceu numa casa na floresta, protegida pelas três fadas boas

A Princesa na Floresta

Para proteger Aurora da maldição, as três fadas boas — Flora, Fauna e Primavera — levaram a bebê para morar numa casinha escondida no meio da floresta, longe do castelo. Partiram numa noite de lua cheia, com a princesinha enrolada num xale, e prometeram uma à outra não usar magia nenhuma até que os dezesseis anos passassem. A casinha tinha telhado de palha, uma chaminé torta e uma porta baixa demais para gente grande. Lá, Aurora cresceu acreditando que era simplesmente a filha das três senhoras bondosas que cuidavam dela, sem saber nada sobre sua verdadeira identidade de princesa. As fadas a chamavam de Briar Rose.

A menina estende a mão para um passarinho numa clareira cheia de animais da floresta

Os dias corriam alegres, entre pássaros cantando, esquilos brincalhões e flores coloridas. De manhã cedo a floresta cheirava a terra molhada e a mel silvestre; ao entardecer, a lenha queimando na chaminé torta. Aurora tinha um dom especial: todos os animais da floresta a adoravam. Ela conversava com eles como se fossem velhos amigos, e eles a seguiam por onde ela ia, curiosos e carinhosos. — Bom dia, senhor esquilo, — dizia ela ao abrir a janela, e o esquilo respondia balançando o rabo no galho. Os pássaros aprenderam a acompanhar suas canções, cada um entrando na hora certa, num coral pequeno e desafinado que ela achava perfeito.

No dia em que Aurora completou dezesseis anos, as fadas queriam fazer uma festa surpresa. Enquanto tentavam assar um bolo e costurar um vestido novo sem usar magia — afinal tinham prometido não usar poderes —, a cozinha virou uma bagunça de farinha e o bolo entortou para um lado. — Vá colher amoras, querida, mas volte antes de o sol baixar, — pediu Flora, escondendo as agulhas atrás das costas. Aurora percebeu que as três estavam aprontando alguma coisa, mas fingiu que não, deu um beijo em cada uma e saiu para passear pela floresta.

Foi então que ela ouviu uma voz masculina cantando entre as árvores. Aurora parou com o cesto no braço e, sem pensar, respondeu cantando também. A voz foi chegando mais perto. Os galhos de uma roseira brava se abriram soltando pétalas no ar, e dali saiu um rapaz de capa marrom, com folhas presas no cabelo e um sorriso meio envergonhado. Era Felipe, um jovem príncipe que também caminhava pelo bosque naquele dia. Os dois se encontraram numa clareira coberta de flores silvestres e ficaram um instante em silêncio, olhando um para o outro, enquanto os pássaros esperavam lá de cima.

A jovem e o príncipe se encontram numa clareira coberta de flores silvestres

Sem saber que o outro era da realeza, passaram horas conversando e rindo. Felipe contou dos lugares por onde tinha andado: pontes de pedra, montanhas com neve no alto, um mar azul demais para ser verdade. Aurora contou da casinha de telhado de palha, das três senhoras que cuidavam dela e do coral desafinado dos pássaros. Quando o sol atravessou a clareira de lado e deixou tudo dourado, ela ficou séria de repente. — É estranho, — disse Aurora com os olhos brilhando, — parece que já te conheço há muito tempo. Felipe concordou com um sorriso caloroso. — Volta amanhã, na mesma hora? — pediu ele. Aurora prometeu que sim e voltou correndo para casa, com o cesto quase vazio de amoras e o coração cheio.

Quando as fadas encontraram Aurora ao entardecer e revelaram que ela era na verdade uma princesa, seu coração ficou partido: ela precisava voltar ao castelo e se despedir de tudo o que conhecia. Guardou uma pétala seca no bolso do vestido, olhou a casinha uma última vez e não conseguiu dizer adeus em voz alta.

O fuso encantado esperava silencioso na torre mais alta do castelo

O Sono Encantado

De volta ao castelo, Aurora foi apresentada ao rei e à rainha, que choraram de alegria ao ver sua filha depois de tanto tempo. A rainha reconheceu as bochechas cor-de-rosa na mesma hora. Mas Malévola observava tudo de longe, e aquela noite era a última chance de realizar sua maldição. A fada malvada usou sua magia sombria para criar um fuso de roca encantado na torre mais alta do castelo, envolto numa luz brilhante que atraía qualquer pessoa que se aproximasse. Aurora, hipnotizada pela luz misteriosa, subiu os degraus da torre sem nem perceber o que estava fazendo. Os degraus eram frios e giravam sem fim, e lá em cima a luz pulsava devagar. As fadas tentaram alcançá-la, gritando seu nome, mas era tarde demais: Aurora estendeu o dedo e tocou a ponta afiada do fuso. Um segundo depois, ela caiu adormecida no chão, suave como uma pluma.

A jovem sobe a escada em caracol da torre atraída por uma luz dourada

O castelo inteiro ficou envolto num silêncio profundo. As fadas, com o coração partido, fizeram toda a corte dormir também — os soldados, os cozinheiros, os cavalos no estábulo, até os gatinhos que dormiam perto da lareira. O pão ficou pela metade na mesa e a fonte parou no meio de um respingo. Ninguém acordaria antes de Aurora. As fadas colocaram a princesa adormecida num belo leito coberto de rosas vermelhas e brancas e fecharam as cortinas do castelo. Com o passar dos anos, uma floresta de espinhos cresceu ao redor do palácio, tão densa que nenhum viajante conseguia atravessá-la. O povo do reino sabia da lenda da Bela Adormecida, e muitos príncipes corajosos tentaram romper a barreira de espinhos, mas nenhum conseguiu.

O beijo do verdadeiro amor traria a luz de volta ao castelo adormecido

O Beijo do Verdadeiro Amor

Muitos anos se passaram. O príncipe Felipe, que nunca esqueceu o encontro na floresta, descobriu que a jovem com quem tinha dançado e conversado era a própria Bela Adormecida. Com o coração cheio de esperança, ele cavalgou até o castelo coberto de espinhos. Malévola tentou detê-lo de todas as formas — transformou-se num dragão enorme que cuspia chamas, sacudiu a terra e rugiu tão alto que as pedras do castelo tremeram. Mas Felipe, com as três fadas ao seu lado, brandiu sua espada com coragem e, num golpe certeiro, derrotou Malévola. A fumaça se desfez, o chão parou de tremer e um silêncio novo tomou conta da floresta. Os espinhos que cercavam o castelo começaram a murchar um a um, e as rosas coloridas floresceram no lugar deles.

O príncipe atravessa o corredor do castelo onde a corte inteira dorme

Felipe entrou no castelo silencioso, passou pelos corredores onde os soldados dormiam de pé, pelos salões onde as damas de companhia dormiam sentadas, até chegar ao quarto de Aurora. A poeira dourada girava nos raios de sol que entravam pelas frestas, e o único barulho era o dos passos dele. Ela estava tão linda quanto o dia em que adormeceu — com as bochechas rosadas e os lábios levemente entreabertos. Felipe se ajoelhou ao lado dela, tomou sua mão delicadamente e a beijou com ternura. Por um instante, nada aconteceu. Depois, as pestanas de Aurora fremiram, seus dedos apertaram levemente a mão de Felipe, e ela abriu os olhos — dois olhos azuis como o céu de primavera. — Você veio, — ela sussurrou com um sorriso. Em todo o castelo, um a um, todos foram acordando: os soldados bocejaram, os cozinheiros mexeram as panelas, os cavalos relincharam e a fonte terminou o respingo que tinha deixado pela metade. O rei e a rainha correram e abraçaram os dois jovens entre lágrimas de alegria. O amor havia vencido a maldição, e o reino celebrou com a festa mais bonita que o mundo já havia visto.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Os pais da princesa tentaram esconder todas as agulhas do reino. Dá para proteger alguém de tudo?
  2. O castelo inteiro dormiu junto com ela. Como você acha que foi acordar cem anos depois?
  3. Se você pudesse receber um presente de uma fada, qual você pediria?

Sobre esta história

A Bela Adormecida aparece pela primeira vez impressa com Giambattista Basile (Itália, 1634), ganha a forma mais conhecida com Charles Perrault (França, 1697) e depois com os Irmãos Grimm (1812), sob o título Rosinha de Espinho. É de Perrault que vêm as fadas convidadas para o batizado e a fada esquecida que lança a maldição.

Perguntas frequentes sobre A Bela Adormecida

Qual é a moral da Bela Adormecida?

Que não é possível proteger alguém de tudo o que existe no mundo, e que algumas coisas só se resolvem com tempo. A história também fala sobre esperança: mesmo cem anos depois, a vida recomeça.

Por que a princesa dorme cem anos?

A fada que não foi convidada para o batizado lança uma maldição de morte, e outra fada, que ainda não tinha dado seu presente, consegue abrandá-la: em vez de morrer, a princesa dormiria por cem anos. É esse abrandamento que dá o nome à história.

Para que idade a Bela Adormecida é indicada?

A partir dos 5 anos. A maldição e o castelo adormecido costumam encantar mais do que assustar, e o ritmo lento da história combina bem com a hora de dormir.

Que tal a história de amanhã?