Contos para Dormir
Ilustração do conto O Elefante que Tinha Vergonha das Orelhas Grandes

O Elefante que Tinha Vergonha das Orelhas Grandes

Dodó tem as maiores orelhas da savana e morre de vergonha delas. Até o dia em que descobre que ser diferente é um presente.

Equipe Contos para Dormir ·

Na savana quente, um elefantinho aprendeu que aquilo que ele queria esconder era justamente o seu maior presente

Na savana, onde o capim fica dourado no fim da tarde e o horizonte é tão largo que parece não acabar nunca, vivia um elefantinho chamado Dodó.

Dodó era igual a todos os outros elefantinhos da manada em quase tudo. Mesma tromba curiosa. Mesmos olhinhos espertos. Mesmo jeito desengonçado de correr.

Só que Dodó tinha uma coisa diferente: as orelhas.

Elas eram grandes. Muito grandes. Tão grandes que, quando ele corria, elas balançavam para os lados feito duas bandeiras num dia de vento. Tão grandes que, quando ele abaixava a cabeça para beber, a beirada delas encostava na água e fazia círculos.

Teria sido ótimo, tudo isso, se ele não morresse de vergonha delas.

O Jeito de Esconder

Dodó tinha inventado várias maneiras de disfarçar.

Quando a manada parava para beber água, ele ficava atrás de uma acácia, para que só a tromba aparecesse.

Quando os outros filhotes brincavam de corrida, ele dizia que estava sem vontade — porque correr fazia as orelhas voarem, e aí todo mundo via. Ficava sentado na beirada do campo, cutucando o chão com a tromba.

E, na hora de dormir, prendia as orelhas coladas na cabeça, bem apertadas, como quem fecha uma janela antes da chuva. Achava que, dormindo assim muitas noites seguidas, elas acabariam pegando o jeito de ficar pequenas.

Nunca pegaram.

E quando o Zeca, um elefantinho mais velho que achava graça em tudo, gritava do outro lado do campo:

— Ei, Dodó! Cuidado que hoje tem vento, você pode decolar!

Os outros riam. Não era uma risada de maldade. Era pior: era uma risada distraída, dessas que a gente dá sem pensar e esquece no minuto seguinte.

Dodó não esquecia.

Dodó ria junto. Ria porque era o que dava para fazer. Mas depois ia para perto da mãe e ficava quietinho, com as orelhas encostadas na cabeça, apertadinhas, para ficarem o menor possível.

— Filho — dizia a mãe. — Suas orelhas são lindas.

— Mãe fala isso porque é mãe.

— Falo porque é verdade.

— Então fala uma coisa verdadeira que não seja sobre orelha.

E a mãe não sabia o que responder, porque em parte era verdade mesmo. Então passava a tromba nas costas dele, bem devagarinho, e os dois ficavam vendo o sol descer atrás do capim.

O Dia Mais Quente do Ano

Veio então um dia de calor como ninguém se lembrava de ter visto.

O sol saiu cedo e não deu trégua. Ao meio-dia, o ar tremia em cima do capim, como se a savana inteira estivesse mal desenhada. Os pássaros pararam de cantar. O poço secou até virar uma poça de barro.

A manada se juntou debaixo do último grupo de árvores com sombra, mas a sombra era pouca e o calor entrava por baixo, subindo do chão feito de uma pedra no sol.

Foi a Vovó Elefanta, a mais velha de todas, que começou a passar mal primeiro. Deitou-se de lado, respirando devagar, e não quis mais levantar.

Todos se juntaram em volta dela. Abanavam com as trombas, mas tromba abana pouco vento. Ninguém sabia o que fazer — e, quando ninguém sabe o que fazer, todo mundo fala ao mesmo tempo.

Dodó ficou atrás de todos, como sempre. Olhou para a Vovó deitada no chão quente. Olhou para as trombas abanando de um jeito que não adiantava nada.

E aí Dodó fez uma coisa sem pensar.

Chegou perto da Vovó, plantou as patas no chão e começou a abanar as orelhas.

O Vento de Dodó

Dodó abana as orelhas para salvar a vovó do calor

Foi um vento de verdade.

As orelhas de Dodó, aquelas mesmas de que ele tinha tanta vergonha, moviam tanto ar que o capim em volta se deitava. A poeira levantava e saía rodando. E, no meio daquele calorão parado, chegou uma brisa fresca, dessas que vêm antes da chuva.

A Vovó Elefanta abriu os olhos.

— Ah — suspirou ela. — Isso é bom.

Ninguém falou nada. Não era um silêncio de susto: era aquele silêncio de quando uma coisa está dando certo e ninguém quer atrapalhar.

— Mais um pouquinho, filho — pediu a mãe de Dodó, bem baixinho.

Dodó não parou.

Foi aprendendo o jeito enquanto abanava: rápido, o vento ficava curto e morria logo ali na frente; devagar e fundo, abrindo bem as orelhas na ida e recolhendo na volta, ele ia longe e passava pela Vovó inteira.

A Tarde Inteira

Abanou durante a tarde inteira.

Abanou quando o sol bateu bem em cima e o chão ficou branco de tanta luz.

Abanou quando os braços — quer dizer, as orelhas — começaram a doer. Doeu primeiro no pescoço, depois nas costas, depois num lugar dentro da cabeça que ele nem sabia que existia.

— Deixa que eu abano um pouco — ofereceu a mãe.

— Deixa comigo — respondeu Dodó.

E ele mesmo se espantou com a firmeza com que disse aquilo.

Os filhotes da manada foram chegando perto, um por um, para ficar na brisa. Primeiro um pequenininho, que se sentou bem na frente de Dodó, de olhos fechados, deixando o vento bater na cara. Depois a irmã dele. Depois os primos.

Vieram também dois passarinhos, que pousaram no galho mais baixo e ficaram com as penas arrepiadas para trás, e um bando de suricatos, que se ajeitou em fila, um do lado do outro, como quem espera alguma coisa começar.

Abanou quando o sol foi baixando e a Vovó já estava melhor, sentada, bebendo água que os outros traziam na tromba.

Filhotes de elefante, passarinhos e suricatos sentados em fila aproveitando a brisa

O Pedido de Desculpa

E aí, no fim da fila, apareceu o Zeca.

O Zeca chegou meio de lado, arrastando as patas, como quem entra num lugar sem saber se pode. Ficou um tempinho ali, calado, sentindo o vento no rosto.

Depois falou, sem olhar direito para Dodó:

— Desculpa aí. Pelas piadas.

Dodó continuou abanando.

— Tá bom — disse ele.

E era tudo o que precisava ser dito.

O Zeca não foi embora. Ficou por ali, pisando de uma pata na outra.

— Você não vai parar? — perguntou.

— Não dá — disse Dodó. — A Vovó ainda está quente.

Então o Zeca foi até a poça, juntou na tromba o pouquinho de água que tinha sobrado e voltou. Levantou a tromba na frente de Dodó, para ele beber sem precisar parar de abanar. A água estava morna e tinha gosto de terra, e foi a melhor água da vida dele.

Depois o Zeca tentou abanar as próprias orelhas, para ajudar. Elas eram pequenas, e fizeram um ventinho tão sem graça que nem a poeira se mexeu.

— É — admitiu o Zeca. — Não é a mesma coisa.

— Não é — concordou Dodó.

E os dois riram. Dessa vez juntos, ao mesmo tempo e da mesma coisa, que é um jeito bem diferente de rir.

O elefantinho mais velho parado em silêncio, sentindo a brisa no rosto

O Que a Vovó Contou

Quando o sol finalmente se pôs e o calor cedeu, a Vovó Elefanta chamou Dodó para perto.

— Senta aqui.

Ele sentou. As orelhas ardiam, pesadas.

— Você sabe para que servem as orelhas de elefante?

— Para ouvir?

— Também. Mas não é o principal.

A Vovó ergueu uma das dela contra o resto de luz do céu. Era enorme, e a luz atravessou de leve, mostrando as veias marcadas por dentro, riscadas feito os rios de um mapa.

— Elas são o nosso jeito de não ferver. O sangue passa por dentro delas, o vento bate, e a gente inteira esfria. Elefante sem orelha grande não sobrevive num dia como o de hoje.

Dodó olhou para as próprias orelhas. Foi a primeira vez na vida que olhou sem apertar os olhos.

— Então elas não são um defeito.

— Defeito? — a Vovó riu, e o riso dela era um trovão bem baixinho. — Menino, elas são a coisa mais bem-feita que existe em você.

— Porque salvaram a senhora do calor?

— Não. — Ela encostou a ponta da tromba na testa dele. — Porque são suas. Isso já bastava, mesmo que hoje não tivesse acontecido nada.

Dodó ficou quieto, pensando. Era uma ideia grande demais para caber de uma vez só.

— E se amanhã eu quiser de novo que elas sejam menores?

— Aí você lembra do dia de hoje — disse a Vovó — e espera a vontade passar.

A vovó elefanta erguendo a orelha enorme contra o pôr do sol enquanto conversa com o elefantinho

A Primeira Noite

À noite, a savana esfriou de uma vez, como sempre faz.

A manada se ajeitou toda encostada, um bicho no outro, embaixo de um céu tão cheio de estrelas que parecia salpicado. Cheirava a terra esfriando e a capim pisado.

Antes de dormir, ficaram conversando um tempo, do jeito que se conversa quando o dia foi grande demais. Falaram do calor, do poço seco, da Vovó. Duas vezes alguém disse o nome de Dodó, e ele fingiu que não ouviu — mas ouviu.

Dodó deitou ao lado da mãe. As orelhas doíam de um jeito bom, desses que doem depois de correr muito.

— Mãe.

— Oi.

— Fala de novo aquilo.

— Aquilo o quê?

— Aquilo das orelhas.

A mãe demorou um tiquinho para responder, porque estava sorrindo e não queria que ele ouvisse o sorriso na voz.

— Suas orelhas são lindas.

— É — disse Dodó. — Acho que são mesmo.

Ele estava tão cansado que dormiu no meio do bocejo seguinte.

E, pela primeira vez em muito tempo, esqueceu de prender as orelhas. Elas ficaram lá, abertas e soltas no chão, do jeito delas. A mãe reparou. Não falou nada: só chegou mais perto.

O elefantinho dormindo encostado na mãe sob um céu estrelado, com as orelhas soltas e abertas

Depois Daquele Dia

Dodó não virou outro elefante da noite para o dia. Continuou tímido. Continuou preferindo ficar mais na sombra que no sol. Continuou sendo o último a falar quando a manada se juntava para resolver alguma coisa.

Mas parou de se esconder atrás das acácias.

Passou a beber de frente, feito todo mundo, sem ligar para os círculos que a beirada das orelhas fazia na água.

Quando os filhotes chamavam para a corrida, ele ia. Chegava em último quase sempre, porque orelha grande atrapalha um bocadinho na largada, e depois ria mais alto que todos os outros.

E, nos dias de calor, aquele canto de sombra virou uma espécie de ponto de encontro. Bastava Dodó começar a abanar que a savana aparecia: os primos, os suricatos em fila, os dois passarinhos de sempre. Uma vez apareceu até um filhote de zebra que ninguém tinha convidado — e que ficou.

Mas a parte de que ele mais gostava não era essa. Era de manhã cedinho, quando o vento passa frio e cheirando a terra molhada: aí Dodó abria as orelhas de propósito, bem devagar, só para sentir o vento passar por dentro. Ficava assim um tempão, de olhos fechados.

O elefantinho de olhos fechados abrindo as orelhas ao vento da manhã, com a acácia vazia atrás dele

E, quando a manada saía correndo pelo capim dourado no fim da tarde, ele corria junto — bem no meio de todo mundo, com as orelhas abertas, batendo no ar feito duas bandeiras.

Dizem que os outros filhotes começaram a correr atrás dele de propósito.

Era onde ficava a brisa.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Dodó tentava esconder as orelhas atrás das árvores. Você já quis esconder alguma coisa em você?
  2. O que você acha que fez ele parar de ter vergonha?
  3. Que coisa em você é diferente da dos seus amigos?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para a fase em que a criança começa a se comparar com os colegas e a reparar no que tem de diferente.

Perguntas frequentes sobre O Elefante que Tinha Vergonha das Orelhas Grandes

Qual é a moral desta história?

Que aquilo que nos faz diferentes costuma ser o que temos de melhor. Dodó não muda: ele descobre o valor do que já tinha, e para de tentar esconder.

Esta história serve para falar sobre bullying ou apelidos?

Serve bem. Dodó é motivo de piada por uma característica física, e a história mostra tanto o lado de quem sofre quanto o momento em que os outros mudam de ideia — o que ajuda a criança a se colocar nos dois lugares.

Para que idade é indicada?

Dos 3 aos 7 anos. O enredo é simples, os personagens são bichos conhecidos e a lição aparece de forma bem concreta.

Que tal a história de amanhã?