
A Princesa e a Ervilha
Uma noite de tempestade, uma visitante misteriosa e vinte colchões empilhados. Será que uma simples ervilha pode revelar uma princesa de verdade?
Foi numa noite de tempestade que tudo mudou no reino
Era uma vez um príncipe que viajou o mundo inteiro em busca de uma princesa de verdade. Ele visitou reinos distantes, atravessou montanhas nevadas e cruzou mares bravos. Em cada lugar encontrava moças lindas que diziam ser princesas, mas havia sempre algo que não parecia completamente certo — um gesto pouco delicado, uma palavra fora de lugar, um sorriso que soava ensaiado. Numa cidade de telhados azuis, uma moça o recebeu com trinta reverências seguidas e não perguntou nenhuma vez de onde ele vinha nem se estava cansado da estrada. Em outro reino, à beira de um lago, uma jovem recitou de cor o nome de todos os seus bisavós e esqueceu o nome do próprio cavalo. O príncipe voltou para casa triste e abatido, sem ter encontrado o que procurava. Seu coração estava tão pesado que mal conseguia sorrir.
O rei e a rainha ficaram preocupados com o filho, mas não sabiam como ajudá-lo. — Talvez princesas de verdade não existam mais, — disse o príncipe numa tarde cinzenta, com o queixo apoiado na mão. — Ou talvez você ainda não saiba onde olhar, — respondeu a rainha, girando devagar o anel no dedo, como fazia sempre que guardava uma ideia para mais tarde.
A Noite da Tempestade
Numa noite de tempestade terrível, o vento uivava tanto que as janelas do castelo tremiam. Chuva grossa açoitava as pedras e relâmpagos rasgavam o céu escuro. O castelo inteiro cheirava a terra molhada e a fumaça de lareira, e a água nas calhas fazia o barulho de um rio correndo por cima do telhado. Em meio ao barulho da ventania, alguém bateu à porta do castelo — três batidas miudinhas, quase engolidas pelo trovão. O rei foi abrir pessoalmente, pois os servos estavam com medo. Lá fora, toda encharcada da cabeça aos pés, estava uma jovem. A água escorria pelo seu cabelo, seus sapatos estavam cheios de lama e ela estava tremendo de frio. Ainda assim, ela se apresentou com dignidade: — Boa noite. Sou uma princesa e preciso de abrigo para essa noite.
O rei a fez entrar rapidamente e mandou buscar uma manta seca e uma caneca de leite quente. Mas a rainha, que estava observando da escada, franziu o cenho. Ela já havia recebido muitas jovens que diziam ser princesas e não eram: chegavam em carruagens douradas, falavam muito alto e iam embora sem agradecer a ninguém. A rainha tinha um jeito de descobrir a verdade — um método antigo, aprendido com a própria mãe, que nunca havia falhado. Enquanto os servos preparavam o quarto da hóspede, ela subiu a escada com passos rápidos e decididos, protegendo a chama da vela com a mão em concha. Entrou no quarto mais bonito do castelo, ergueu os colchões um a um e, no fundo do último colchão, embaixo de tudo, colocou uma única ervilha verde — pequena como uma conta de colar. Em seguida, mandou empilhar vinte colchões macios por cima, e mais vinte edredons de penas por cima dos colchões. A cama ficou tão alta que precisou de uma escadinha para subir. — Durma bem, minha querida, — murmurou a rainha, alisando a ponta do último edredom. — Amanhã a gente conversa.

Vinte colchões e vinte edredons — mas a ervilha lá embaixo guardava um segredo
A Prova da Ervilha
A jovem tomou banho quente, trocou de roupa seca e desceu para jantar com a família real. Na mesa havia sopa de abóbora, pão saído do forno e maçãs assadas com canela, e o cheiro doce se espalhava pela sala como um abraço. Ela agradeceu ao cozinheiro chamando-o pelo nome, pediu desculpas pela poça que havia deixado no corredor de entrada e riu de si mesma ao contar que perdera um sapato na lama da estrada.
— E o que a senhorita fazia na estrada numa noite dessas? — perguntou o rei.
— Confiando demais no céu limpo da tarde, — respondeu ela, e todo mundo riu junto.
O príncipe a olhava com discrição pela mesa de jantar. Ela tinha um jeito sereno e gentil, ria com leveza e escolhia as palavras com cuidado, sem nunca falar mais alto que os outros. Quando um trovão estourou tão perto que a chama das velas se deitou, ela não gritou: apenas esticou o braço e pousou a mão sobre a mão da rainha, do outro lado da mesa, como quem diz "estamos todos aqui, está tudo bem". Mas o príncipe não queria se iludir de novo. Já havia acreditado tantas vezes, em tantos salões, e voltado para casa de mãos vazias. Comeu quase em silêncio, respondeu com meias palavras e foi dormir com o coração cheio de esperança e dúvida ao mesmo tempo, ouvindo a chuva bater na janela do seu quarto.

Quando a hóspede subiu para dormir, uma criada foi na frente iluminando o caminho com um lampião. A porta do quarto se abriu e lá estava ela: a cama mais alta que a jovem já vira na vida. Vinte colchões macios — uns listrados, uns bordados, uns cor de damasco — empilhados como um bolo de muitos andares. Por cima, vinte edredons de penas, gordos e brancos como nuvens de domingo. E, encostada na beirada, uma escadinha de madeira com sete degraus. O lampião da criada iluminava só até o quinto; o resto da pilha sumia na penumbra do teto alto.
— Precisa de mais alguma coisa? — perguntou a criada.
— Só de coragem para subir, — respondeu a jovem, e as duas riram baixinho.
Ela poderia ter reclamado. Poderia ter dito que aquilo parecia mais uma montanha do que uma cama, ou perguntado se não havia um quarto mais simples em algum canto do castelo. Mas quem chega molhado à casa dos outros no meio da noite não reclama do lugar que lhe oferecem — e, além disso, ela achou a pilha francamente engraçada. Vestiu a camisola branca que haviam deixado dobrada na cadeira, prendeu o cabelo com sua fita de veludo azul, apagou a vela e subiu os sete degraus segurando o castiçal. Lá de cima, o chão parecia longe e o teto parecia perto. Ela se ajeitou no meio de todos aqueles edredons, fechou os olhos e agradeceu em pensamento pela sorte enorme de não estar mais na estrada. Lá fora, a tempestade começava a se cansar.

Foi então que ela sentiu.
Alguma coisa. Pequena. Dura. Bem no meio das costas.
Ela virou para o lado direito. A coisinha continuava lá. Virou para o lado esquerdo. Continuava. Deitou de barriga para cima, de barriga para baixo, encolhida como um caramujo, esticada como uma estrela do mar. Nada resolvia. Era como dormir em cima de um caroço de azeitona — só que o caroço estava a vinte colchões de distância, o que não fazia o menor sentido.
— Deve ser o cansaço da viagem, — disse ela para o escuro.
Mas não era o cansaço da viagem. Ela tentou contar carneirinhos e chegou a duzentos e trinta. Tentou pensar em coisas macias: musgo, pão quente, orelha de coelho. Pensou em descer e dormir no tapete, que parecia tão convidativo lá embaixo, mas achou que seria falta de educação com quem a havia acolhido, e continuou onde estava. A lua apareceu entre as nuvens rasgadas e desenhou um retângulo azul no chão do quarto. Uma coruja pousou no parapeito da janela, olhou para ela com aquela cara séria de coruja e foi embora sem dizer nada. O relógio do salão bateu duas, bateu três, bateu quatro. A chuva parou de vez em algum momento, e o silêncio que ficou no lugar dela era tão grande que dava para escutar a própria respiração.
Quando o céu finalmente clareou, a jovem já tinha visto o quarto inteiro passar do preto ao cinza, e do cinza ao dourado. Levantou-se com o corpo dolorido, como se tivesse passado a noite deitada em cima de uma pedra de rio.

Na manhã seguinte, todos se reuniram para o café da manhã. Havia bules fumegantes, mel, manteiga e um cesto de pãezinhos ainda quentes; pela janela aberta entrava aquele cheiro limpo que fica no ar depois da chuva. A rainha olhava para a jovem com olhos atentos, sem perder um único movimento — nem o jeito de segurar a xícara, nem as olheiras que a noite tinha deixado.
— Como você dormiu, minha querida? — perguntou ela com voz adocicada.
O rei parou com a xícara no meio do caminho, entre a mesa e a boca. O príncipe fingiu mexer o chá que já estava bem mexido e sentiu o coração acelerar. A jovem hesitou um momento, como se não quisesse ser indelicada. Olhou para a toalha da mesa, respirou fundo e pensou em dizer "muito bem, obrigada", que é o que sempre se diz nessas horas. Só que não era verdade, e ela nunca havia aprendido a dizer coisas que não eram verdade.
Depois, com um sorriso envergonhado, disse: — Peço desculpas, mas… dormi muito mal. Há algo na cama que me incomodou a noite toda. Pequeno como fosse, estava lá. Fiquei me virando e me revirando e amanheci cheia de hematomas. Sei que parece impossível, mas senti como se houvesse uma pedra embaixo de todos aqueles colchões.
Fez-se um silêncio na sala, do tamanho de três batidas de coração. A rainha soltou um longo suspiro de satisfação e sorriu de orelha a orelha. O rei abriu os olhos bem grandes e quase deixou a xícara cair no pires.

Uma única ervilha verde foi o segredo que revelou a princesa verdadeira
A Princesa Verdadeira
E o príncipe? O príncipe levantou de sua cadeira, foi até a jovem e tomou sua mão com delicadeza. — Só uma princesa verdadeira teria uma sensibilidade tão refinada, — ele disse com os olhos brilhando. — Posso perguntar seu nome?
— Meu nome é Isadora, — respondeu ela com uma reverência graciosa.
Foi então que a rainha contou tudo: a ervilha, os vinte colchões, os vinte edredons de penas. Isadora ouviu de boca aberta e, quando entendeu, caiu na gargalhada.
— Uma ervilha! — repetia ela, secando os olhos. — Passei a noite inteira brigando com uma ervilha!
Ela contou também que havia chegado àquele reino durante a tempestade porque sua carruagem quebrara uma roda na estrada e seus acompanhantes tinham ido buscar ajuda, mas ela não quis esperar sozinha na escuridão. O príncipe escutou cada palavra com atenção crescente. Eles conversaram a manhã inteira no jardim do castelo, caminhando entre as roseiras e os canteiros de lavanda ainda molhados, enquanto as abelhas voltavam ao trabalho e o sol secava as poças do caminho. A rainha observava da janela com um sorriso de satisfação — ela raramente errava em seu julgamento.
Nos dias seguintes, Isadora ficou no castelo enquanto esperavam sua carruagem ser consertada. E nesses dias o príncipe descobriu que ela era exatamente o que havia procurado o mundo inteiro: genuína, bondosa, sensível, inteligente e capaz de rir das próprias dificuldades. Quando chegou o momento de ela partir, o príncipe se ajoelhou no jardim cheio de flores e lhe pediu que ficasse para sempre.

— Viajei por muitos reinos e encontrei muitas princesas, — disse ele segurando a mão dela, — mas nenhuma chegou molhada pela chuva na minha porta, honesta o suficiente para dizer que havia dormido mal.
Isadora riu — um riso real, espontâneo e alegre. E ficou.
A ervilha foi colocada numa vitrina de cristal no salão principal do castelo, onde permaneceu por muitos anos como lembrança de que a verdade, por menor que seja, sempre se faz notar.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Uma ervilha embaixo de vinte colchões — isso é possível de verdade?
- Por que você acha que a rainha inventou esse teste em vez de simplesmente perguntar?
- Qual seria um bom jeito de descobrir se alguém está falando a verdade?
Sobre esta história
A Princesa e a Ervilha é um conto muito curto de Hans Christian Andersen, publicado em 1835. Chama atenção justamente pelo tamanho: em pouquíssimas páginas, o autor faz uma brincadeira com a ideia de nobreza e com a mania de querer provar quem é quem.
Perguntas frequentes sobre A Princesa e a Ervilha
Qual é a moral de A Princesa e a Ervilha?
Que quem você é aparece nas coisas pequenas, e que testes complicados costumam dizer mais sobre quem os inventa do que sobre quem é testado. É também uma história bem-humorada sobre não fingir ser o que não se é.
Quanto tempo leva para ler A Princesa e a Ervilha?
É um dos contos mais curtos do acervo: cerca de 14 minutos em voz alta. Boa escolha para as noites em que o sono já está chegando.
Quem escreveu A Princesa e a Ervilha?
Hans Christian Andersen, em 1835, na Dinamarca.


