
O Urso que Queria Ver o Amanhecer
Ursos dormem o inverno inteiro, mas Bruno tem um sonho: ver o nascer do sol pelo menos uma vez. Esta noite ele vai tentar.
Na montanha coberta de neve, um urso descobriu que algumas coisas não se conquistam à força
Bruno era um urso pardo que morava numa toca no alto da montanha, entre pinheiros tão altos que a copa se perdia na neblina.
A toca era boa. Ficava atrás de uma raiz grossa e retorcida, tinha o chão forrado de folha seca e, lá no fundo, era escura de um jeito confortável — daqueles que dão sono só de entrar. Quando ventava forte, o vento virava um assobio distante, como se estivesse acontecendo em outra montanha, bem longe dali.
Ele gostava de quase tudo na vida de urso. Gostava do rio no verão, das amoras no fim da tarde, do cheiro de terra molhada depois da chuva. Gostava do mel, que dava trabalho, mas valia a pena.
Gostava até de algumas coisas chatas: de ficar parado na água gelada esperando o peixe passar, de coçar as costas no tronco áspero do pinheiro velho, de escutar a floresta acordar barulhenta bem na hora em que ele já estava indo dormir.
Só tinha uma coisa que o incomodava.
Bruno nunca havia visto o sol nascer.
Por Que Nenhum Urso Vê
O problema é simples de explicar.
No verão, o sol nasce muito cedo. E Bruno, como todo urso, passava a noite dentro do rio caçando peixe e só voltava para casa quando as patas já estavam pesadas de cansaço. Quando abria os olhos de novo, o dia estava alto, quente, cheio de mosquitos — e o amanhecer tinha ido embora fazia horas.
No inverno era pior.
No inverno, o amanhecer chega devagar, sem pressa nenhuma, e a luz bate na neve de um jeito que os pássaros diziam ser a coisa mais bonita do mundo. Só que, no inverno, os ursos estão dormindo.
Não um cochilo. Um sono de meses.

Um tordo já tinha tentado explicar como era.
— É rosa — disse o tordo.
— Rosa igual amora?
— Rosa igual... — o tordo virou a cabecinha de lado. — Rosa igual quando a neve fica rosa.
— Isso não explica nada — resmungou Bruno.
— Pois é. Não explica mesmo. Tem que ver.
Bruno foi dormir com aquela frase entalada. E naquela noite perguntou:
— Mãe, como é o sol nascendo na neve?
A mãe de Bruno, que já era velha e tinha o pelo grisalho no focinho, pensou um tempo antes de responder. Ela sempre pensava antes de responder.
— Não sei, filho. Ninguém da nossa família viu.
— Nunca?
— Nunca. Nem o meu avô, que viveu muito e viu quase tudo.
— Mas por quê?
— Urso não vê isso. É assim desde sempre.
Bruno achou aquilo a coisa mais injusta que já tinha ouvido.
A Primeira Tentativa
No primeiro inverno em que decidiu tentar, Bruno se preparou como quem se prepara para uma viagem longa.
Comeu muito no outono, como manda a natureza: peixe, amora, raiz, mel, mais peixe. Ficou tão redondo que andava balançando. Arrumou a toca, tirou as pedrinhas do chão, empurrou a folha seca para os cantos.
— Vou ficar acordado — avisou para a mãe.
— Vai — disse ela, sem discutir.
— Você acha que eu não consigo.
— Eu acho que você vai tentar.
Quando a primeira neve caiu, mansinha, sem barulho nenhum, Bruno se deitou de barriga para cima, cruzou as patas em cima do peito e ficou de olhos bem abertos, decidido a não dormir.

No começo foi fácil. Ele olhava o teto de terra da toca e ia contando as raízes. Uma, duas, três, aquela torta que parecia um nariz.
Depois o silêncio começou a pesar. A neve lá fora abafava todos os sons do mundo, e não sobrava nada para escutar além da própria respiração, que era funda, lenta e quentinha.
Ele piscou. Só um pisco, desses de molhar o olho.
Durou até o fim da tarde.
Acordou em março, com a água do degelo pingando na entrada da toca e a sensação absurda de que tinha piscado agora mesmo.
— Já? — disse ele para a toca vazia.
Já.
A Segunda Tentativa
No inverno seguinte, foi mais esperto. Ou pelo menos achou que era.
Passou o outono inteiro juntando pinhas — pinha grande, pinha pequena, pinha meio comida por esquilo — e fez uma montanha delas bem no meio da toca. O plano era simples: empilhar uma por uma, devagar, para manter as patas e a cabeça ocupadas.
Deu certo por um tempo bom.
Empilhou pinha até a pilha ficar da altura do ombro dele. Depois a pilha caiu, o que foi ótimo, porque assim tinha o que fazer de novo.
Cantou todas as músicas que sabia, inclusive as que não sabia direito e teve que inventar o meio.
Contou os pelos da própria pata dianteira, que era uma tarefa longa. Chegou a duzentos e alguma coisa, perdeu a conta, começou de novo, chegou mais longe.
Lá fora, o vento passava pela boca da toca e fazia um som de flauta.
Bruno chegou até a primeira noite.

Lembra de ter visto as estrelas pela boca da toca, muito nítidas no céu limpo de inverno, tão perto que dava vontade de esticar a pata. Lembra do frio bom que entrava junto com aquela luz. E lembra de ter pensado, com o queixo apoiado na pata:
falta pouco.
Não faltava.
Acordou em março de novo, com uma pinha grudada na orelha.
A Terceira Tentativa
No terceiro inverno, Bruno ficou bravo. E urso bravo tem ideia ruim.
Primeiro, encheu a toca de neve, para ficar frio e desconfortável e ninguém conseguir dormir num lugar daqueles. Conseguiu deixar tudo gelado. Dormiu igual.
Depois, tentou prender os olhos abertos com dois graveti— não, isso não funcionou, e doeu, e é melhor nem falar mais nisso.
Por último, combinou com um esquilo.
— Você vem aqui de hora em hora — explicou Bruno. — E me cutuca. Com força.
— De hora em hora — repetiu o esquilo, muito sério.
— A noite inteira.
— A noite inteira.
— Promete?
— Prometo — disse o esquilo, que já estava pensando em outra coisa, porque esquilo é assim.
O esquilo esqueceu.
Bruno acordou em março, saiu da toca resmungando, com a neve derretida escorrendo pelo pelo, e sentou-se na entrada com o queixo apoiado nas patas. Lá embaixo, no vale, o gelo do rio já estava se quebrando em placas.
Foi ali que a mãe o encontrou.
— Três anos — disse ele. — Eu me esforcei muito, mãe. Muito mesmo. Eu fiz tudo.
Ela se sentou ao lado dele, sem pressa nenhuma.

— Eu sei que você fez.
— E não adiantou nada.
— Filho, você está brigando com a hora errada.
Bruno olhou para ela sem entender.
— Você quer ver o sol nascer no meio do inverno, que é justamente a única época em que o seu corpo não deixa — disse a mãe. — Mas o sol não nasce só no inverno. O sol nasce todo dia, Bruno. Todo dia, o ano inteiro.
— Mas no verão eu durmo até tarde.
— E de quem é a culpa disso? — perguntou a mãe, e havia um sorrisinho na voz dela.
Bruno abriu a boca. Fechou de novo. Não tinha resposta.
A Noite Certa
Bruno passou o resto do dia pensando naquilo. Pensou enquanto comia. Pensou dentro do rio, com o peixe passando entre as patas sem ele nem perceber.
A primavera foi chegando. A neve escorreu montanha abaixo, o cheiro de terra molhada voltou, e os pinheiros começaram a soltar aquele perfume forte de resina que gruda no focinho.
E foi assim que, no fim daquela primavera, numa noite morna em que o rio corria cheio e barulhento lá embaixo, ele não foi caçar.
Comeu cedo, ainda com sol. Deitou-se cedo, o que é uma das coisas mais difíceis que existem quando a gente está animado. E, antes de dormir, procurou o mesmo esquilo.
— De novo? — disse o esquilo.
— De novo. Mas agora é uma vez só. Quando o céu começar a ficar cinza, você me acorda.
O esquilo endireitou o corpinho e prometeu com muita seriedade.
— Uma vez só eu consigo.
E conseguiu.

Bruno sentiu a patinha cutucando a orelha dele no escuro e abriu os olhos com o corpo descansado pela primeira vez em três anos: nada de sono pesado puxando para baixo, nada de pálpebra caindo sozinha.
Saiu da toca sem fazer barulho e subiu devagarinho pela trilha até a pedra grande, aquela de onde se via o vale inteiro.
Sentou-se ali.
E esperou.
O Que Ele Viu
Primeiro o céu ficou menos preto. Só isso: menos preto.
Depois, lá na linha onde as montanhas encostavam no céu, apareceu um risco cinzento, fininho, como se alguém tivesse arranhado o escuro. O risco foi ficando azul. O azul foi ficando lilás.
Um passarinho cantou. Depois outro. Depois muitos ao mesmo tempo, como se alguém tivesse aberto uma porta.
O lilás virou rosa — e Bruno lembrou do tordo, e teve vontade de rir, porque era mesmo rosa e não dava para explicar de outro jeito.
O rosa virou laranja. A neblina que dormia no fundo do vale começou a se levantar em fiapos, e a luz atravessava esses fiapos como se estivesse procurando alguma coisa.
E aí o sol apareceu.
Não de uma vez. Devagar, um pedacinho, depois mais, empurrando a montanha para baixo até ficar inteiro em cima dela.
A luz atravessou o vale, passou por cima do rio, subiu pela encosta e chegou até a pedra onde Bruno estava sentado. Ele sentiu o calor no focinho, primeiro morno, depois bom, e teve que fechar os olhos.
E mesmo de olhos fechados ainda era dourado por dentro.
Ficou ali um tempo bem longo, sem pensar em nada.

De Volta para Casa
Quando desceu, a mãe estava esperando na entrada da toca, como se soubesse a hora exata.
— E então?
Bruno abriu a boca para responder, e descobriu que não tinha palavra que servisse. Tentou "bonito", e era pouco. Tentou "dourado", e era pouco também.
— Foi bonito? — insistiu ela.
— Foi — disse ele. E depois de um tempo, olhando para a própria pata: — Mãe, você quer ver amanhã?
A mãe olhou para o filho com aquela cara que as mães fazem quando estão orgulhosas e não querem que percebam.
— Que horas você me chama?
Dizem que, desde então, todo fim de primavera, os ursos daquela montanha acordam cedo por alguns dias.
Sentam-se na pedra grande, todos juntos, os filhotes no colo dos grandes, e ficam quietos, olhando o céu trocar de cor.
E ninguém mais na floresta acha estranho.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Bruno tentou três vezes e não conseguiu. Por que você acha que ele não desistiu?
- O que a mãe dele quis dizer com 'você está brigando com a hora errada'?
- Tem alguma coisa que você quer muito e ainda não chegou a hora?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. A hibernação dos ursos é real: em regiões muito frias eles passam meses em sono profundo, vivendo da gordura acumulada no outono — e é justamente por isso que um urso dificilmente veria o sol nascer no auge do inverno.
Perguntas frequentes sobre O Urso que Queria Ver o Amanhecer
Qual é a moral desta história?
Que alguns sonhos não dependem de esforço, e sim de paciência. Bruno não consegue vencer o próprio corpo à força, mas consegue esperar a estação certa — e é a espera, não a insistência, que o leva lá.
Ursos hibernam de verdade?
Sim. Em lugares de inverno rigoroso, os ursos entram num sono muito profundo que pode durar meses, vivendo da gordura acumulada durante o outono. É um sono diferente do nosso: a respiração e os batimentos ficam bem mais lentos.
Esta história é boa para a hora de dormir?
É. Boa parte dela se passa numa toca quentinha com um urso lutando contra o sono — o que costuma dar sono em quem ouve. E termina numa cena calma, ao amanhecer.


