
A Lua que Apagava as Luzes
Toda noite a Lua faz a mesma ronda pela cidade, apagando uma luzinha de cada vez — e sempre deixa a última para o fim.
Todo mundo dorme depois que alguém apaga a luz — até a cidade
Quando o sol vai embora, a Lua começa a trabalhar.
Ninguém vê. É um trabalho quieto.
A Lua sobe devagarinho por trás dos telhados, se ajeita no céu e olha a cidade inteira lá de cima, cheia de janelinhas acesas.
Cada janela acesa é alguém que ainda está acordado.
E o trabalho da Lua é esse: apagar uma de cada vez.

A Ronda da Lua
A primeira luz é sempre a da padaria.
O padeiro trabalha de madrugada, então ele dorme cedo. A Lua chega pertinho da janela, sopra bem de leve, e a luz da padaria se apaga.
O padeiro nem percebe. Ele já estava de olho fechado.
Depois vem a luz da casa amarela, onde mora a senhora do cachorro.
A Lua sopra. A luz apaga. O cachorro dá uma volta na almofada, se enrola e encosta o focinho no rabo.
Depois a luz do posto de gasolina.
Depois a luz da rua do mercado.
Depois as luzes de um prédio inteiro, uma atrás da outra, de cima para baixo, como se fossem degraus.
A Lua não tem pressa. Ela apaga uma, espera, e apaga a próxima.
Um sopro de cada vez.
Depois do prédio vem a rua das casinhas baixas.
Nessa rua as luzes são amareladas e ficam bem pertinho umas das outras. A Lua apaga da esquina para o meio: a primeira, a segunda, a terceira.
Na quarta casa mora uma família grande, e lá as luzes são muitas. Tem luz na cozinha, luz na sala, luz no corredor e luz nos dois quartos.
A Lua começa pela cozinha, que é onde já lavaram tudo. Depois a sala. Depois o corredor.
Nos quartos ela vai com jeitinho, porque ainda tem gente conversando baixo lá dentro.
As Luzes Teimosas
Tem luz que apaga fácil.
E tem luz teimosa.
A luz do escritório do seu Antônio é teimosa. Ele fica lá até tarde, mexendo em papel, e a Lua precisa soprar três, quatro vezes.
Sopra uma vez: ele boceja.
Sopra de novo: ele esfrega os olhos.
Sopra mais uma: ele guarda os papéis, se espreguiça bem grande, e apaga a luz sozinho.
Pronto.
A luz da casa da esquina também é teimosa, mas por outro motivo.
Lá mora um menino que está lendo um livro muito bom, escondido embaixo do cobertor, com uma lanterna.
A Lua sopra uma vez. Nada.
Sopra de novo. Nada.
Aí ela entende: aquela luz não é de trabalho, é de história. E história boa a gente não interrompe.
Então a Lua espera. Fica ali na janela, esperando o menino chegar no fim do capítulo.
Quando ele chega, fecha o livro devagar, apaga a lanterna sozinho e se enrola no cobertor.
A Lua também sopra na luz do hospital, mas essa nunca apaga inteira. Sempre fica uma acesa, num corredor, porque alguém precisa ficar acordado tomando conta.
A Lua sabe disso. Ela deixa aquela quietinha, sem soprar, e segue.
Tem ainda a luzinha do orelhão da praça, que fica acesa a noite toda, e a lâmpada vermelha lá em cima da antena, que pisca sem parar para os aviões enxergarem.
Essas duas a Lua nem tenta. Elas têm serviço para fazer.

A Última Janela
No fim da ronda, sobra sempre uma janela.
É a última da rua, no segundo andar, com cortina de bolinha.
A Lua guarda essa para o fim. Todo dia.
Ela chega bem devagar, encosta na vidraça e espia.
Lá dentro tem uma criança na cama, com o cobertor até o queixo, escutando uma história.
O quarto já está quase todo escuro. Só o abajur está aceso, e ele faz uma luzinha laranja fraca, do tamanho de um prato.
Tem um copo de água na mesinha, pela metade.
Tem um bicho de pelúcia caído no chão, que daqui a pouco alguém vai levantar e devolver para a cama.
Tem uma sombra comprida no teto, no formato do abajur, que a criança já conhece de cor e não acha mais graça nenhuma.
A Lua espera.
Espera a história acabar.
Espera o beijo na testa.
Espera o abraço.
E só então, quando os olhos já estão pesados e a respiração já ficou compridinha, ela sopra pela última vez.
A luz do abajur pisca uma vez e se apaga.
A cidade inteira fica escura.
Mas não fica sozinha — porque a Lua continua ali, redonda e acesa, cuidando de tudo até o sol voltar.
Boa noite. 🌙
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Se a Lua passasse na nossa rua hoje, qual luz ela apagaria por último?
- Por que será que ela deixa a janela da criança para o fim?
- Que barulhos a gente escuta quando a casa fica quietinha?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para ser lida bem devagar. O texto foi feito com frases curtas e repetições de propósito: a repetição funciona como um balanço, e ajuda a criança pequena a ir soltando o corpo enquanto escuta.
Perguntas frequentes sobre A Lua que Apagava as Luzes
Quanto tempo leva para ler esta história?
Cerca de 6 minutos em voz alta, num ritmo calmo. É uma das histórias curtas do site, pensada justamente para as noites em que já passou da hora e ninguém aguenta um conto comprido.
Para que idade é indicada?
Dos 2 aos 5 anos. As frases são curtas, não há conflito nenhum na história e o vocabulário é simples, então funciona bem até com quem ainda fala pouco.
Esta história é assustadora?
Não. Não existe vilão, susto nem problema a ser resolvido. É uma história de rotina: a Lua faz a ronda dela, as luzes vão se apagando e a noite chega inteira. O escuro aparece como uma coisa boa e conhecida.
Serve para criança com medo do escuro?
Serve, sim. A história trata o apagar das luzes como um cuidado, não como uma perda: a Lua fica acesa lá fora o tempo todo, tomando conta. Para crianças com medo maior, o site tem histórias feitas só sobre isso.


