
A Fada dos Sonhos e a Criança que Não Queria Dormir
Toda noite a Fada dos Sonhos visita as crianças que não querem dormir. Hoje ela tem uma missão especial — e um pó de sonhos novinho.
Todo sonho começa no momento em que os olhos se fecham e o coração se abre
Tomás tinha seis anos e um problema muito sério: ele não conseguia dormir. Não porque tivesse medo do escuro — ele tinha um abajur de leão que projetava estrelas douradas no teto e que era sua maior preciosidade. Não porque estivesse com fome ou com calor. O travesseiro estava fresco e o cobertor tinha cheiro bom de roupa lavada. O problema de Tomás era outro, e era só dele: sua cabeça não desligava.
Assim que deitava, as perguntas começavam. Por que o céu é azul de dia e preto de noite? Se você cavasse um buraco no centro da Terra, sairia na China? Os polvos sonham? Se os robôs tivessem sentimentos, como eles iam chorar? Cada pergunta levava a outra, e cada outra levava a mais três, e de repente eram onze da noite e Tomás estava de olhos arregalados no escuro estrelado do quarto, completamente desperto.
A mãe tentou leite quente na caneca de alça larga que era a preferida dele. Tentou músicas calmas, daquelas que parecem chuva devagar. Tentou histórias entediantes sobre contar ovelhas — uma, duas, três. Nenhuma funcionou, porque Tomás sempre acabava se perguntando como as ovelhas se sentiam sendo contadas. Será que alguma se escondia atrás das outras de propósito, só para bagunçar a conta?
— Tenta não pensar em nada — dizia a mãe, ajeitando o cobertor até o queixo dele.
— Eu tento — respondia Tomás. — Mas aí eu penso em como é não pensar em nada, e já era.
Ela ria bem baixinho, dava um beijo na testa dele e deixava a porta encostada, com um risco de luz do corredor no chão. E Tomás ficava ali, ouvindo o mundo inteiro dormir sem ele. Imaginava as crianças do quarteirão deitadas nas suas camas, quietinhas, com os sonhos flutuando por cima delas como aquarelas vivas, girando devagar no ar. Fechava os olhos e tentava se imaginar assim também: dormindo fundo, sorrindo, cercado de sonhos.

Não funcionava. Ele abria um olho, depois o outro. O leão do abajur continuava girando estrelas no teto, paciente — ele tinha a noite toda.
O Guardião dos Sonhos
Numa noite de terça-feira, quando Tomás já havia feito sete perguntas diferentes para o teto e o relógio marcava dez e meia, algo diferente aconteceu. Uma luz suave e azulada apareceu no canto do quarto, perto da estante — não brilhante o suficiente para assustar, mas distinta o suficiente para chamar a atenção. A luz tremeu e o ar encheu-se de um cheiro de papel velho e chuva.
Da luz, materializou-se uma figura pequena — do tamanho de um gato, com aparência de uma mistura de coruja e ser humano em miniatura, usando um casaco cinza e carregando um livro grosso debaixo do braço. Tinha óculos redondos e expressão paciente. Duas asas curtinhas, cor de neblina, se ajeitaram nas costas dela.
— Boa noite, Tomás — disse a figura com uma voz que soava como o barulho de páginas sendo viradas. — Meu nome é Morfeu. Sou o Guardião dos Sonhos do seu quarteirão.
Tomás piscou. Depois sentou na cama e abraçou os joelhos.
— Existe um Guardião dos Sonhos por quarteirão?
— Existem Guardiões dos Sonhos por bloco, por bairro, por cidade e por país — disse Morfeu, abrindo o livro grosso numa página marcada com uma fita azul. — Você está na minha lista há três semanas como caso de sono difícil. Finalmente resolvi vir pessoalmente.
— E o que está escrito aí sobre mim? — perguntou Tomás, esticando o pescoço.
Morfeu virou o livro para o lado dele. As páginas não tinham letras: eram feitas de luz, que se mexia devagar como água num copo.
— Está tudo — disse ele. — A noite em que você quis descobrir se o vento tem fim. A noite em que você quis saber onde ficam guardadas as músicas quando ninguém está cantando.
Tomás sorriu meio sem graça, do jeito de quem foi pego.
— Essa foi ontem.

O mundo dos sonhos era mais vasto e colorido do que Tomás havia imaginado
A Biblioteca dos Sonhos Não Sonhados
— O problema — disse Morfeu, sentando-se na beira da cama com o livro aberto no colo — é que você tem mais sonhos do que consegue sonhar numa noite. Seu estoque está cheio. Cada pergunta que você faz de dia gera um sonho potencial, e você tem acumulado perguntas sem sonhar o suficiente para liberar espaço.
— Então minha cabeça está cheia demais para dormir porque estou com sono de mais? — perguntou Tomás, que tinha o jeito de uma criança que sempre precisava entender a lógica de tudo antes de aceitar.
— Exatamente — disse Morfeu, e as peninhas da cabeça dele se levantaram um pouco, satisfeitas.
— Quer ver?
— Ver como?
— Assim.
Morfeu encostou a mão no livro e o quarto de Tomás desapareceu. Não sumiu de repente: foi devagar, como quando a gente entra num rio e a água vai subindo pelas pernas. Eles estavam agora numa biblioteca enorme — não uma biblioteca normal, mas uma que parecia não ter teto, com prateleiras se estendendo para o alto até onde a vista alcançava, e em cada prateleira, ao invés de livros, havia bolhas de luz colorida. Cada bolha continha uma imagem pequena, como um filme em miniatura.
Era silencioso ali, mas não era um silêncio vazio. Era o silêncio macio das manhãs de neblina, com um zumbido baixinho ao fundo, parecido com o de uma lâmpada antiga. O chão era morno debaixo dos pés descalços. E cheirava a laranja descascada e a livro novo.
— Estes são seus sonhos não sonhados — disse Morfeu. — Veja.

Tomás pegou uma bolha azul com as duas mãos. Pesava menos que uma bolha de sabão e não estourou. Dentro dela, viu-se a si mesmo num submarino de vidro transparente, descendo ao fundo do oceano enquanto polvos gigantes dançavam ao redor. Pegou uma bolha dourada: ele estava voando sobre uma cidade de nuvens, com asas feitas de mapas antigos. Pegou uma bolha verde: ele descobria que as árvores se comunicavam por vibrações no chão e aprendia a língua delas.
— E aquela ali? — perguntou, apontando uma bolha cor-de-rosa bem no alto, que girava mais devagar que as outras.
Morfeu ajeitou os óculos.
— Dessa eu não conto. Se eu contar, ela não serve mais. Sonho contado antes da hora vira só história.
— São todos para mim? — perguntou Tomás, olhando para as prateleiras que iam até o infinito.
— São todos gerados pelas suas perguntas — disse Morfeu. — Cada vez que você se pergunta algo com genuína curiosidade, seu cérebro cria um sonho potencial. O problema é que você não está dormindo o suficiente para sonhá-los todos.
Tomás levantou a cabeça. As prateleiras subiam, subiam e sumiam num brilho distante, e ele sentiu uma coisa esquisita e boa no peito, um cansaço que não era ruim. Era a primeira vez na vida que ele tinha vontade de dormir.
— E se eu nunca sonhar todos?
— Aí eles esperam — disse Morfeu, sem nenhum drama. — Sonho é paciente. Mas seria uma pena deixar tanta coisa bonita guardada no escuro, você não acha?

O Truque do Guardião
— Então como eu faço para dormir? — perguntou Tomás, de volta ao quarto real, com Morfeu sentado na beira da cama de novo e o leão do abajur girando suas estrelas no teto. — Se eu tento parar de pensar, fico pensando em como parar de pensar.
— Você está tentando fazer a coisa errada — disse Morfeu. — Não tente parar de pensar. Escolha um pensamento e vai fundo nele.
— Como assim?
— Em vez de pular de pergunta em pergunta, fica numa só. Escolhe a que você mais gosta agora mesmo e vai explorando ela devagar. Imagine os detalhes. Os cheiros. As cores. Deixa a pergunta te levar para dentro dela. É assim que os sonhos começam — não quando a cabeça para, mas quando ela fica tão fundo num pensamento que não percebe mais onde a vigília termina e o sonho começa.
— E se eu escolher a pergunta errada?
— Não existe pergunta errada — disse Morfeu, fechando o livro com um baque macio. — Existe pergunta de que você gosta mais e pergunta de que você gosta menos. E respira devagarinho, como se estivesse cheirando uma flor bem grande.
Tomás deitou de novo e ficou quieto pensando nisso. Então escolheu a pergunta dos polvos — se os polvos sonhavam. E foi entrando nela devagar: como seria o mundo de um polvo? Oito braços, cada um com vontade própria. Ver as cores com a pele em vez dos olhos. Morar no fundo do mar onde a luz não chega direito e tudo é azul e silencioso…
— Isso — disse a voz de Morfeu, que já parecia vir de longe, do outro lado do corredor. — Assim mesmo. Sem pressa nenhuma.

Finalmente Tomás dormiu, mergulhando num sonho mais bonito do que qualquer pensamento acordado
O Primeiro Sono Verdadeiro
Tomás não percebeu o momento em que adormeceu. Foi exatamente como Morfeu havia descrito: ele foi entrando na pergunta dos polvos tão fundo que quando olhou ao redor, estava num oceano azul-profundo, e havia um polvo ao seu lado do tamanho de uma mesa, com olhos dourados e curiosos. A água era morna como água de banho. Passavam cardumes de peixinhos prateados, todos virando ao mesmo tempo, como moedas jogadas para o alto.
— Você também sonha, né? — perguntou Tomás no sonho.
— Todo ser que pensa sonha — respondeu o polvo, cada braço se mexendo independentemente como uma dança. — A questão é: com o quê?
— Com o quê você sonha? — perguntou Tomás.
— Com a superfície — disse o polvo. — Com aquele lugar onde a água termina e o ar começa. Nunca fui lá, mas imagino que seja belo.
— É — disse Tomás. — É bonito mesmo. Tem gaivota, tem sol quente e tem o barulho da onda quebrando na areia.
O polvo enrolou e desenrolou um braço bem devagar, do jeito de quem guarda uma coisa boa num lugar seguro.
— Então agora eu já vi um pedacinho — disse ele.
E Tomás não teve nenhuma vontade de perguntar mais nada, o que era uma novidade enorme para ele. Ficaram os dois ali, boiando devagarinho, olhando a luz da lua chegar rachada lá de cima, em pedacinhos que balançavam.

De manhã, quando a mãe de Tomás abriu a porta do quarto às sete e meia, ele estava dormindo fundo, com um sorriso nos lábios e os braços esticados como se estivesse nadando. Ela ficou olhando para ele por um momento — aquela alegria silenciosa que as mães sentem quando um filho dorme bem —, e fechou a porta com cuidado para não acordá-lo.
Tomás acordou às nove, com a cabeça cheia de oceano e polvos e a certeza absoluta de que sim, os polvos sonham. Só não sabia de onde havia tirado essa certeza. Mas algumas coisas são assim — você simplesmente sabe, sem precisar explicar de onde veio o conhecimento.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O Tomás tinha a cabeça cheia de perguntas na hora de dormir. Isso acontece com você?
- Qual coisa bonita você escolheria para pensar antes de fechar os olhos hoje?
- Por que você acha que o corpo precisa dormir para guardar o que aprendeu?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para ser lida em voz alta na hora de dormir. Não é uma adaptação de conto tradicional: os personagens e o enredo são nossos.
Perguntas frequentes sobre A Fada dos Sonhos e a Criança que Não Queria Dormir
Esta história ajuda a criança a dormir?
Foi escrita para isso. O ritmo é lento de propósito e o personagem ensina uma técnica simples de acalmar a cabeça — escolher uma imagem boa e ficar com ela — que dá para usar na vida real logo depois da leitura.
Qual é a moral desta história?
Que ter a cabeça cheia de perguntas é ótimo, mas que o descanso faz parte de aprender. Dormir não é o oposto de ser curioso: é o que permite guardar o que se descobriu.
Para que idade esta história é indicada?
Dos 2 aos 6 anos. O enredo tem só dois personagens e uma virada — o menino que não dorme e o Guardião que aparece para ajudar —, e o ritmo vai desacelerando até o mergulho final no oceano. Crianças que fazem muita pergunta na hora de deitar costumam se reconhecer no Tomás.


