Contos para Dormir
Ilustração do conto A Princesa que Preferia as Estrelas

A Princesa que Preferia as Estrelas

Bailes e coroas não encantam esta princesa: ela prefere telescópios e constelações. Uma história para quem sonha alto.

Equipe Contos para Dormir ·

No alto da torre mais antiga do castelo, uma princesa passava as noites olhando para cima

O reino inteiro sabia que a princesa Estelar era estranha.

Não estranha de ser antipática — ela cumprimentava todo mundo, sabia o nome dos cavalariços e uma vez passou a tarde ajudando a cozinheira a descascar mandioca só porque achou divertido. Sabia também o nome dos cavalos e o da gata malhada que dormia atrás do forno achando que ninguém via.

Estranha de outro jeito.

Enquanto as outras moças da corte falavam de vestidos e de bailes, Estelar falava de coisas que ninguém entendia: que a estrela do canto tinha mudado de lugar desde março, que a lua estava minguando mais devagar do que no mês passado, que havia uma mancha esbranquiçada atravessando o céu inteiro e que ninguém, ninguém mesmo, prestava atenção nela.

As moças eram educadas. Diziam "ah, que interessante", trocavam um olhar rápido entre elas e voltavam a falar de fitas.

Estelar aprendeu depressa a reconhecer aquele "que interessante". Era o mesmo que dizer "chega".

Então ela parou de contar. Guardou o céu para si, como quem guarda uma bala no bolso.

A Torre Velha

Estelar tinha um esconderijo.

Era a torre mais antiga do castelo, aquela que ninguém usava porque a escada rangia e o telhado tinha um buraco. O buraco era justamente a graça: por ele dava para ver um pedaço do céu sem precisar sair.

Lá em cima cheirava a pedra molhada e a poeira antiga. Os degraus rangiam em três tons diferentes, e ela sabia de cor qual era qual: o rangido fino do quinto, o rangido gordo do nono, o estalo seco do último.

Ali ela guardava um telescópio de latão, comprado de um viajante com três anos de mesada, e um caderno grosso onde anotava tudo.

Que noite. Que hora. O que viu.

Já eram quatro cadernos.

Uma vez, numa noite bonita demais, ela pensou em chamar o pai para ver. Chegou até a porta. Depois imaginou a cara que ele faria, achou que ele ia rir, e voltou sozinha para o banquinho.

O rei e Estelar observam as estrelas juntos

O Problema do Rei

O pai de Estelar, o rei Adalberto, era um bom homem e um pai preocupado.

Era bom rei também, do jeito dele: ouvia queixa de camponês até o fim, mandava consertar ponte antes de a ponte cair e chorava escondido em casamento dos outros.

E o que preocupava o rei Adalberto era simples: a filha não ia a baile nenhum.

— Tem o baile de primavera na semana que vem — dizia ele no jantar.

— Vou estar ocupada.

— Ocupada com o quê, Estelar?

— Vai ter uma conjunção.

— Uma o quê?

E aí a conversa acabava, porque nenhum dos dois sabia como continuar.

O jantar seguia no barulho dos talheres. Estelar ficava fazendo pontinhos na toalha com a ponta do garfo e ligando um no outro, e o rei olhava aquilo de longe sem perguntar o que era.

Era esse o problema dos dois. Ela achava que ele não ia entender; ele achava que ela não queria contar. Cada um estava um pouquinho certo e completamente errado.

O rei achava que aquilo era uma fase. Depois achou que era teimosia. Por fim, começou a achar uma coisa que doía mais: que a filha não gostava de estar com ele nem com ninguém.

Chegou a perguntar à cozinheira se a menina andava triste. A cozinheira, que era sábia e tinha mais o que fazer, respondeu que a menina andava era ocupada, e que triste mesmo estava ele. O rei fingiu que não tinha ouvido e saiu da cozinha com as mãos nas costas.

O rei tenta puxar conversa no jantar enquanto a filha liga pontinhos na toalha com o garfo

A Noite da Discussão

Numa noite de agosto, o rei subiu a escada que rangia.

Subiu devagar, parando em cada volta para tomar fôlego. Tinha ensaiado três discursos durante o dia e esqueceu os três no meio do caminho.

Encontrou Estelar de olho no telescópio, com um cobertor nos ombros e o caderno aberto no colo.

A vela estava quase no fim. Fazia frio de verdade ali em cima, daquele frio de agosto que entra pela manga e não sai mais.

— Chega — disse ele, e a voz saiu mais dura do que ele queria. — Amanhã tem baile e você vai. Ponto final.

Estelar se endireitou devagar. Fechou o caderno com o dedo marcando a página, do jeito de quem pretende voltar.

— Não vou.

— Por quê? Me explica. Eu quero entender.

— Porque eu não gosto — disse ela. — Eu tento gostar, pai. Eu já fui em cinco. Fico contando as horas para poder subir aqui.

— Cinco bailes e nenhum prestou?

— A música presta. O resto é gente falando alto sobre nada.

— E o que tem aqui em cima que não tem lá embaixo? — o rei abriu os braços, exasperado. — É escuro! É frio! Não tem nada!

Estelar olhou para o chão, para o telescópio, para o pai. Pensou em três respostas e não gostou de nenhuma, porque as três eram respostas de brigar, e ela não queria brigar com ele.

Ficou quieta por um instante.

O vento entrou pelo buraco do telhado e fez a chama da vela deitar de lado. Lá fora, um cachorro do vilarejo latiu longe e parou.

Depois falou, muito baixinho:

— O senhor nunca olhou.

Estelar enrolada no cobertor responde ao pai à luz de vela no alto da torre

O Que o Rei Viu

O rei Adalberto abriu a boca para responder, e não respondeu.

Porque era verdade. Ele nunca tinha olhado.

Tinha vivido a vida inteira debaixo daquele céu sem nunca parar para conferir o que havia lá. Céu, para ele, era o lugar de onde vinha ou não vinha chuva.

Estelar se levantou, ajustou o telescópio, deu uma volta no parafuso do lado e recuou um passo.

— Olha aqui. Fecha o outro olho.

O rei suspirou, se abaixou desconfortavelmente — porque era alto e o telescópio era baixo — e encostou o olho no latão frio.

E ficou quieto por muito tempo.

Tanto tempo que Estelar chegou a achar que ele tinha detestado. Ficou de pé ali atrás, com o cobertor apertado no peito, esperando.

— O que é isso? — perguntou finalmente, e a voz estava diferente.

— Saturno.

— Ele tem... um anel.

— Tem. Sete, na verdade. Daqui a gente só vê como se fosse um.

— Sete — repetiu o rei, do jeito de quem confere uma conta.

O rei não tirou o olho do telescópio.

— Estelar. Isso está ali agora? Neste momento?

— Está ali há mais tempo do que este castelo. Há mais tempo do que este reino. Há mais tempo do que gente.

Ele se endireitou devagarinho, com a mão nas costas, e olhou para o céu sem o telescópio — daquele jeito que a gente olha quando acabou de entender uma coisa e precisa conferir se o mundo continua o mesmo.

— Faz quanto tempo que você sabe disso?

— Uns quatro anos.

— E eu nunca subi aqui.

— Nunca.

Ele não pediu desculpa, porque não era homem de pedir. Puxou o banquinho, sentou nele — que era pequeno demais e rangeu de susto — e falou:

— Me mostra o resto.

O rei sentado no banquinho pequeno espia o céu ao lado da filha e do telescópio de latão

O Céu do Reino

Estelar puxou o pai pela manga e mostrou o resto.

Mostrou o Cruzeiro do Sul, e ensinou o truque de esticar quatro vezes e meia o braço maior para achar o sul, o que fez o rei dizer que aquilo era mais útil do que metade dos conselheiros dele.

— Metade não — corrigiu ele, pensando melhor. — Todos.

Mostrou as Três Marias, alinhadas certinho, e explicou que quase toda cultura do mundo reparou naquelas três e inventou uma história para elas.

— E a nossa qual é?

— Depende de quem conta. Eu gosto de uma que a cozinheira sabe.

— Então eu vou perguntar amanhã para a cozinheira — disse o rei, muito digno.

Mostrou também a estrela do canto, a que tinha mudado de lugar desde março. O rei quis saber como é que ela podia ter certeza de uma coisa dessas, e Estelar abriu o caderno número dois, achou o desenho de março, e pôs ao lado o desenho de agosto, com a data e a hora anotadas na margem de cada um.

O rei ficou olhando aquilo mais tempo do que olhou para Saturno.

— Isso é trabalho — disse.

— É.

— Trabalho de verdade, Estelar.

— É, pai.

E mostrou a mancha esbranquiçada que atravessava o céu de ponta a ponta — aquela que ninguém prestava atenção.

— O que é? — perguntou o rei.

— É a nossa galáxia vista de dentro. A gente mora ali, pai. Aquilo é o resto da nossa casa.

O rei Adalberto ficou olhando aquela faixa de leite derramado no céu, no alto de uma torre fria, ao lado da filha enrolada num cobertor.

E o baile de primavera pareceu, de repente, uma coisa muito pequena.

Estelar aponta para o alto e mostra ao pai a faixa esbranquiçada da Via Láctea

O Acordo

Desceram quase de madrugada.

O céu já estava clareando na beirada e os galos do vilarejo começavam a errar a hora.

— Eu não vou parar de te chamar para os bailes — disse o rei na escada. — Faz parte, você é princesa.

— Eu sei.

— Mas eu paro de brigar. E você me explica uma coisa por semana. Uma só, porque eu sou velho e a cabeça não é mais a mesma.

Estelar riu.

— Fechado.

— Uma coisa por semana — repetiu ele, para deixar registrado. — E eu posso perguntar besteira.

— Pode.

— Besteira muito grande, dessas de dar vergonha?

— Principalmente essa, pai.

— E se eu perguntar a mesma besteira duas vezes?

— Aí eu explico duas vezes.

O rei achou aquilo justíssimo e desceu mais três degraus muito satisfeito consigo mesmo.

Pararam no quinto degrau, o do rangido fino, e ficaram os dois calados um instante, sem saber direito como se despede uma pessoa depois de uma noite daquelas. A escada cheirava a pedra fria e a fumaça de vela apagada. Do lado de fora, o castelo inteiro ainda dormia, sem fazer ideia do que tinha acontecido lá em cima.

O rei resolveu do jeito dele: deu um beijo no alto da cabeça dela e mandou que fosse dormir, que já era quase dia.

— O senhor também.

— Eu sou rei. Rei não dorme, rei descansa os olhos.

Na porta do quarto, ainda virou uma última vez.

— Estelar.

— Oi.

— Aquilo dos anéis. Sete mesmo?

— Sete.

— Pois é — disse o rei.

E foi dormir pensando naquilo.

Pai e filha descem juntos a escada de pedra da torre no fim da noite, cada um com seu cobertor

Depois

Dizem que o rei Adalberto mandou consertar o telhado da torre velha — não o buraco, que ficou como estava, mas todo o resto, para não entrar chuva nos cadernos.

Dizem que mandou fazer um segundo banquinho, do tamanho dele.

Dizem que mandou pôr um corrimão na escada, que reclamou do preço do corrimão durante três semanas, e que proibiu terminantemente que consertassem o rangido do quinto degrau.

Dizem que aprendeu a achar o sul com o braço esticado e passou a fazer isso em toda reunião de conselho, quisessem os conselheiros ou não.

Dizem que a primeira coisa que ele anunciou ao conselho, muito sério, de pé e de mãos para trás, foi que Saturno tem sete anéis — e que nenhum conselheiro teve coragem de perguntar o que aquilo tinha a ver com o imposto do trigo.

Dizem que, na semana seguinte, ele subiu com a pergunta da semana escrita num papelzinho, para não esquecer no meio da escada. A pergunta era: "de onde vem o buraco na lua?". Estelar levou a noite inteira respondendo. O rei achou pouco e quis a continuação no sábado.

E dizem que, anos depois, quando Estelar já era famosa em reinos distantes pelos mapas do céu que desenhava, ainda havia uma noite por semana em que dois vultos subiam a escada que rangia, levando um cobertor cada um.

O baile de primavera continuou acontecendo todo ano.

Ela ia, dançava duas músicas por educação, e às onze horas sumia.

Todo mundo já sabia para onde.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. O pai queria o melhor para ela, mas do jeito dele. Isso já aconteceu com você?
  2. Por que você acha que ele mudou de ideia só quando olhou pelo telescópio?
  3. Se você pudesse dar nome a uma estrela, que nome daria?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. As constelações citadas existem de verdade e podem ser encontradas no céu do Brasil — o Cruzeiro do Sul, as Três Marias e a mancha esbranquiçada da Via Láctea são visíveis a olho nu em noites sem lua e longe das luzes da cidade.

Perguntas frequentes sobre A Princesa que Preferia as Estrelas

Qual é a moral desta história?

Que se pode ser fiel ao que se ama sem romper com a família. A princesa não foge nem obedece calada: ela encontra um jeito de fazer o pai entender, e é isso que resolve.

Esta história tem conteúdo de astronomia de verdade?

Tem. O Cruzeiro do Sul, as Três Marias e a Via Láctea aparecem como são vistos daqui do hemisfério sul. Serve bem como porta de entrada para uma criança curiosa sobre o céu.

Para que idade é indicada?

Dos 5 aos 9 anos. Crianças menores gostam da parte do castelo e das estrelas; as maiores costumam se identificar com o conflito de gostar de algo que os adultos não levam a sério.

Que tal a história de amanhã?