Contos para Dormir
Ilustração do conto A Loja dos Sons Perdidos

A Loja dos Sons Perdidos

Numa ruazinha que só aparece quando chove, Olívia encontra uma loja que guarda todos os sons perdidos do mundo — inclusive um que ela conhece muito bem.

Equipe Contos para Dormir ·

Tem uma rua na cidade que só aparece quando chove. No fim dela, uma loja guarda o que o mundo perdeu

Existe, em toda cidade, uma rua que ninguém repara. Uma rua fininha, espremida entre duas ruas famosas, que só aparece direito quando chove.

Foi numa tarde de chuva miúda que Olívia entrou nela pela primeira vez.

Ela voltava da escola com o guarda-chuva amarelo do pai, contando poças no caminho — era um jogo que só ela conhecia — quando ouviu um som estranho vindo da ruazinha. Não era buzina, não era gente falando, não era chuva.

Era o som de uma risada. Mas uma risada conhecida.

Olívia parou. Aquela risada... ela conhecia de algum lugar. Grave no comecinho, com um soluço engraçado no final, hihihi-hic!

Era a risada da avó dela. Da avó Alba, que tinha virado saudade quando Olívia tinha cinco anos.

O coração de Olívia bateu forte. Ela entrou na ruazinha.

No fim da rua, apertada entre um muro e uma figueira, havia uma loja que ela nunca tinha visto. A fachada era de madeira azul-escura, e na vitrine não havia brinquedos, nem bolos, nem roupas — havia vidrinhos. Centenas de vidrinhos de todos os tamanhos, cada um com uma etiqueta escrita à mão.

Na porta, uma placa dizia:

CASA DO SILVO — Sons Perdidos & Achados Aberta somente quando chove.

Olívia empurrou a porta. Um sininho tocou — mas não fez trim, fez o som de uma onda quebrando na praia.

— Boa tarde — disse uma voz lá do fundo. — Cuidado onde pisa. Derrubei uma caixa de trovões ontem e ainda não achei todos.

O dono da loja apareceu por trás de uma estante. Era um senhor pequenininho, de cabelo branco arrepiado como se tivesse tomado um susto muitos anos atrás e nunca mais se penteado. Usava um avental cheio de bolsos, e de cada bolso saía um fiapo de som: um tique-taque, um miado, um pedacinho de música.

— Eu... eu ouvi uma risada — disse Olívia. — Lá da rua. Uma risada que eu conheço.

O velhinho ajeitou os óculos e olhou bem para ela.

— Ah. Você deve ser da família da dona Alba.

— Ela era minha avó! Mas... como o senhor...?

— Eu sou o Silvo — disse ele, fazendo uma pequena reverência. — Colecionador de sons perdidos. Quando um som muito querido some do mundo, ele não desaparece, sabia? Ele vem parar aqui. Chega pela chaminé, geralmente. Os mais teimosos entram pela janela do banheiro.

Ele foi andando entre as estantes, e Olívia foi atrás, de olhos arregalados. As etiquetas dos vidrinhos diziam coisas assim:

O rangido do portão da casa da rua Piratininga, 44.

A campainha da bicicleta do Tonho, o padeiro.

O barulho da chuva no telhado de zinco da escola velha.

O ronronar da gata Filomena, aos domingos.

— As pessoas acham que guardam as coisas em fotos — disse Silvo. — Mas os sons, ah... os sons são a alma da memória. Ninguém tira retrato de uma risada.

Ele parou diante de uma estante alta, subiu numa escadinha de rodas, nhec-nhec, e desceu segurando um vidrinho azul, pequeno como um vaga-lume. A etiqueta dizia:

Risada de Alba, com soluço no final. Rara. Preciosa.

— Chegou aqui faz uns três anos — disse ele, baixinho. — De vez em quando ela escapa do vidro e vai dar uma voltinha na rua. Acho que ela estava te esperando.

— Posso... posso ouvir? — pediu Olívia, quase sem voz.

Silvo abriu a tampa com todo o cuidado do mundo.

Hihihi-hic!

A risada da avó Alba encheu a loja inteirinha. E junto com ela, como se estivessem guardadas dentro do mesmo vidro, vieram as lembranças: o colo quentinho, o cheiro de bolo de milho, a novela baixinha na televisão, o "benza Deus, minha netinha" antes de dormir.

Olívia riu e chorou ao mesmo tempo — que é uma coisa que acontece quando o coração fica cheio demais.

— Quanto custa? — perguntou ela, mexendo no bolso, onde só havia uma moeda de cinquenta centavos e um clipe de papel.

Silvo balançou a cabeça.

— Sons perdidos não se vendem. Se devolvem. — Ele fechou o vidrinho e colocou nas mãos dela. — Mas tem uma regra, mocinha. Sons queridos não podem ficar presos em vidro para sempre. Eles precisam morar num lugar vivo. Você sabe onde é?

Olívia pensou. Olhou o vidrinho, olhou o velhinho.

— Na memória?

Na memória de quem conta. — Silvo sorriu. — Um som guardado num vidro é só um som. Um som contado para alguém vira história. E história, minha cara, não se perde nunca mais. Leve a risada para casa, ouça bem, e depois... conte. Conte da sua avó para o seu pai, para os seus amigos, para os seus filhos um dia. Enquanto você contar, a risada dela nunca mais vai ser um som perdido.

Olívia guardou o vidrinho no bolso da capa de chuva como quem guarda um tesouro.

Na porta, ela ainda se virou:

— Seu Silvo... e quando a chuva parar? Se eu quiser voltar?

— Ah — disse ele, ajeitando um vidrinho de sino de igreja na vitrine. — É só fazer silêncio de vez em quando. Quem faz silêncio de verdade sempre acaba ouvindo o caminho de volta.

Naquela noite, na hora de dormir, Olívia chamou o pai.

— Pai... como era a risada da vovó Alba?

O pai parou, surpreso. Sorriu devagar, daquele jeito de quem abre uma gaveta antiga.

— Era assim, ó: grave no começo... e com um soluço engraçado no final. Hihihi-hic! — e ele imitou tão bem, mas tão bem, que os dois caíram na gargalhada juntos, e por um instante a risada da avó Alba estava ali no quarto, viva, morando na risada dos dois.

Lá longe, na ruazinha fininha, o velho Silvo pegou um vidrinho azul vazio na vitrine e escreveu uma etiqueta nova:

Devolvido. Virou história.

E do lado de fora, bem devagarinho, a chuva parou.

Agora escute só um instante o silêncio do seu quarto... Está ouvindo? Todo som querido que você guardar hoje — uma risada, uma canção, um "boa noite" — vai morar para sempre na sua memória, prontinho para virar história.

Feche os olhos. Bons sonhos, colecionador de sons.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Se você pudesse guardar um som num vidrinho para sempre, qual seria?
  2. Que som da nossa casa você acha que iria parar na loja do Silvo se um dia sumisse?
  3. Vamos fazer como a Olívia? Me pergunte sobre um som da minha infância, que eu conto a história dele para você.

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. A perda da avó não é o centro da trama — o centro é a memória viva. Por isso a saudade aparece pela porta mais concreta que existe para uma criança: um som. O final, em que pai e filha riem a risada da avó juntos, é o próprio mecanismo da história acontecendo na frente do leitor.

Perguntas frequentes sobre A Loja dos Sons Perdidos

Este conto fala sobre a morte de um ente querido?

Fala de saudade, com delicadeza. A avó de Olívia já não está mais aqui, mas a história não se demora na perda: mostra como a lembrança dela permanece viva quando é contada. É uma boa porta de entrada para conversar sobre o assunto com crianças.

Para que idade é indicada?

Dos 6 aos 9 anos. A trama pede fôlego para acompanhar um mistério, e o tema da memória rende conversas mais fundas com crianças maiores — muitos adultos também se pegam engolindo seco no final.

Quanto tempo leva para ler?

Cerca de 12 minutos em voz alta. Para noites mais curtas, dá para dividir em duas partes: a pausa natural é quando Silvo entrega o vidrinho a Olívia.

Como aproveitar melhor a leitura?

Respondendo à terceira pergunta de verdade: conte à criança um som da sua própria infância — a campainha da sua casa, a voz de alguém querido. É o gesto que transforma o conto numa memória afetiva da família.

Que tal a história de amanhã?