Contos para Dormir
Ilustração do conto Os Vaga-lumes que Acenderam a Noite

Os Vaga-lumes que Acenderam a Noite

Sozinho, o vaga-lume achava a própria luz pequena demais para servir de alguma coisa. Até a noite em que todos acenderam juntos.

Equipe Contos para Dormir ·

Uma luz pequena não ilumina o campo. Mas ilumina o próximo passo

Pipo era um vaga-lume.

Ele morava no capim alto que fica atrás do açude, junto com um monte de outros vaga-lumes.

Todo fim de tarde eles acordavam, esticavam as asinhas e começavam a acender.

Acende, apaga.

Acende, apaga.

Cada um no seu ritmo.

Pipo achava aquilo tudo muito bonito. O problema era quando ele olhava para a própria luz.

Um vaga-lume pequeno pousado numa folha de capim, com a luzinha acesa na noite azul

A Luz Pequena

— A minha luz não serve para nada — disse Pipo, uma noite.

A vaga-lume mais velha do capim, que se chamava Dona Vilma, virou a cabeça.

— Como assim não serve?

— Olha ali.

Pipo apontou com a asa para o céu.

— A lua. Aquilo é uma luz. Ela ilumina o açude inteiro, o campo inteiro, o telhado da casa. Dá para ver o caminho da estrada com a luz da lua.

Ele acendeu a própria barriguinha.

— E a minha ilumina o quê? Meia folha de capim. Se muito.

Dona Vilma não respondeu na hora. Ela ficou acendendo e apagando devagar, do jeito que ela fazia quando estava pensando.

— Meia folha de capim é pouco? — ela perguntou.

— É quase nada.

— Depende de quem está em cima da folha.

Pipo não entendeu, e Dona Vilma não explicou.

Vaga-lume velho é assim.

Naquela noite Pipo tentou uma coisa.

Ele voou o mais alto que conseguiu, bem acima do capim, e acendeu com toda a força.

Acendeu, acendeu, acendeu — até a barriguinha esquentar.

Depois olhou para baixo, para ver o quanto tinha iluminado.

Nada.

O campo continuava do mesmo jeito. O açude continuava escuro. O telhado da casa continuava invisível.

Ele desceu de volta para a folha, cansado, e ficou quieto.

— Viu? — ele disse. — Nada.

A Noite Escura

Naquela noite, aconteceu uma coisa.

O céu encheu de nuvem — daquela nuvem grossa, sem chuva, que só cobre.

A lua sumiu atrás dela.

E o campo, que sempre tinha pelo menos uma luzinha prateada em cima, ficou de um escuro que ninguém estava acostumado.

Escuro de não enxergar a própria pata.

Foi então que eles ouviram.

Era um choro fininho, vindo da beira do açude.

Pipo voou naquela direção e encontrou um filhote de codorna, pequenininho, todo encolhido no meio do mato.

— Eu me perdi — disse o filhote. — Eu estava indo atrás da minha mãe e agora não sei onde é o ninho, e está escuro, e eu não consigo ver nada.

Pipo olhou em volta.

Ele também não via nada.

— Espera aqui — ele disse. — Eu vou chamar ajuda.

— Não vai embora! — o filhote se agarrou nele. — Por favor. Se você for embora fica tudo escuro de novo.

E foi aí que Pipo entendeu uma coisa.

O filhote estava enxergando. Estava enxergando o rostinho dele, ali pertinho.

Por causa da luz que ele achava que não servia para nada.

Um vaga-lume iluminando um filhote de codorna encolhido no mato escuro

Todos Juntos

— Então eu fico — disse Pipo.

Ele pousou na frente do filhote e acendeu.

A luz dele iluminava um pedacinho de chão do tamanho de duas folhas.

— Dá um passo — disse Pipo.

O filhote deu.

Pipo voou um pouquinho para a frente e acendeu de novo. Mais duas folhas de chão apareceram.

— Mais um.

O filhote deu mais um.

E foi assim, um passo por vez, cada passo do tamanho da luz de um vaga-lume só.

Mas era devagar. E o filhote estava com frio.

Foi então que Dona Vilma chegou.

E atrás dela veio o capim inteiro.

Vieram dezenas. Depois centenas.

Eles se espalharam pelo caminho todo, de um lado e de outro, e começaram a acender.

No começo cada um no seu ritmo, bagunçado.

Mas aí foi acontecendo uma coisa que vaga-lume faz e ninguém sabe direito explicar: eles começaram a acender juntos.

Acendeu tudo.

Apagou tudo.

Acendeu tudo.

E o campo inteiro pulsava, claro e depois escuro, claro e depois escuro, como um coração enorme.

Dava para ver o caminho inteiro até o ninho.

O filhote correu, encontrou a mãe e se enfiou embaixo da asa dela, quentinho, sem dizer mais nada.

E lá em cima, atrás da nuvem, a lua continuou escondida a noite toda.

Ninguém sentiu falta.

Boa noite. 🌙

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Qual é a coisa pequena que você faz e que ajuda alguém?
  2. Por que será que um passo iluminado já é suficiente?
  3. O que ajuda você quando está escuro demais?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. Os vaga-lumes acendem e apagam de verdade em ritmo próprio, e em algumas espécies chegam a piscar em conjunto — o comportamento que aparece no fim da história existe na natureza e se chama sincronia.

Perguntas frequentes sobre Os Vaga-lumes que Acenderam a Noite

Esta história é assustadora?

Não. O escuro aparece como uma dificuldade, não como uma ameaça: não há vilão, nada de ruim acontece e o filhote perdido é encontrado rapidinho. A história é feita justamente para deixar o escuro menos assustador.

Serve para criança com medo do escuro?

Serve muito bem. Em vez de dizer que não há nada a temer, a história mostra que o escuro fica bem menor quando existe uma luzinha por perto — nem que seja uma bem pequena. Muitas crianças gostam de ler isso com um abajur fraco aceso.

Para que idade é indicada?

Dos 3 aos 7 anos. As frases são curtas, os personagens são fáceis de guardar e o tema aparece justamente na idade em que o medo do escuro é mais comum.

Quanto tempo leva para ler esta história?

Cerca de 6 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site, boa para as noites em que já passou da hora.

Que tal a história de amanhã?