Contos para Dormir
Ilustração do conto O Time que Aprendeu a Perder

O Time que Aprendeu a Perder

Perderam de nove a um e voltaram para casa procurando um culpado. Cada um achou o seu — e nenhum era o certo.

Equipe Contos para Dormir ·

No campinho de terra do fim da rua, um time descobriu que a melhor parte do domingo começava na terça-feira

O campinho ficava no fim da Rua do Sol, logo depois da mercearia do Seu Nilo, num terreno que ninguém sabia de quem era.

Não tinha grama. Tinha terra batida — dura feito pedra no tempo seco, escorregadia feito sabão quando chovia. De um lado, duas traves de cano enterradas. Do outro, duas pilhas de chinelo. A linha lateral era onde o mato começava.

Era o campo mais feio do bairro inteiro.

E o time que jogava ali achava aquilo o melhor lugar do mundo.

O time se chamava Estrela do Beco. Eram sete crianças e um cachorro que ninguém tinha convidado.

Tinha a Nina, que era a goleira. Nove anos, dois coques no alto da cabeça, uma camisa amarela uns três números maior que ela e um par de luvas velhas com um remendo na palma da esquerda.

Tinha o Bruno, que corria mais que todo mundo e por isso achava que a bola devia ficar com ele o tempo inteiro.

Tinha a Dandara, que era zagueira e tirava bola com o pé, com a canela, com a testa.

Tinha o Serginho, o Léo e a Iara, que jogavam no meio e discutiam a semana toda quem tinha corrido mais.

E tinha o Téo, que tinha seis anos, entrava em campo com uma alegria do tamanho de um domingo e nunca reclamava de nada.

O cachorro se chamava Pipoca e jogava nos dois times ao mesmo tempo.

Treino de verdade eles não tinham. Chegavam, dividiam, jogavam até escurecer. Quando o Seu Nilo acendia a luz da mercearia, era hora de ir embora.

O Domingo do Nove a Um

No começo de março apareceu um convite.

O time da Vila Nova, do outro lado da avenida, queria jogar contra eles num domingo de manhã.

A Vila Nova tinha camisa igual para todo mundo. Tinha chuteira. Tinha até um senhor com apito.

A Estrela do Beco tinha o Pipoca.

— A gente vai? — perguntou a Iara.

— Claro que vai — disse o Bruno.

Foram.

E perderam de nove a um.

Não foi um nove a um daqueles que passa rápido. Foi devagar. Um gol, depois outro, depois mais um, o sol subindo na cabeça de todo mundo, e a bola voltando, e voltando, e voltando.

Menina goleira de camisa amarela grande e luvas remendadas parada dentro do gol, ombros caídos, olhando a bola entrar de novo

O único gol da Estrela do Beco saiu quase no fim, quando a bola bateu sem querer no joelho do Téo e entrou.

Téo comemorou como se fosse uma final.

Ninguém comemorou junto.

Quando o senhor do apito apitou pela última vez, Nina ficou sentada dentro do próprio gol, de costas na rede, olhando as luvas. Uma delas tinha um fio solto no remendo. Ela ficou puxando o fio.

Depois levantou, bateu a terra do calção e foi embora atrás dos outros.

A Volta para Casa

Foi na volta que começou.

Eram só dez minutos de caminhada. Deu tempo de sobra.

— Nove gols — disse o Bruno. — Nove.

— Não olha para mim — disse a Nina.

— Eu não falei nada.

— Você olhou.

— Se a zaga tivesse voltado, não entrava nem a metade — disse a Dandara.

— Se alguém passasse a bola, a zaga não precisava voltar — disse o Serginho.

— Eu passo! — disse o Bruno.

— Você passa para você mesmo.

— Isso nem faz sentido.

— Faz sim.

O Léo disse que o problema era o campo deles ser de terra e o da Vila Nova ser de grama. A Iara disse que o problema era o Léo. O Téo, que era o menor e ia atrás de todo mundo, disse que o problema era a bola, que estava careca.

Ninguém deu bola para o Téo.

Chegaram na esquina da mercearia falando todos ao mesmo tempo, cada um mais alto que o outro, e nenhum escutando nada.

Cada um tinha encontrado um culpado. E o engraçado é que era um culpado diferente para cada um.

Crianças voltando do jogo pela rua discutindo e apontando o dedo umas para as outras, a goleira calada no meio

O Seu Nilo estava na porta da mercearia, de braços cruzados, do jeito que ficava sempre.

Não perguntou o placar. Deu para ver na cara deles.

— Terça-feira, cinco horas — foi só o que ele disse.

— Terça o quê? — perguntou o Bruno.

— Treino.

E entrou.

A Terça que Ninguém Queria

Na terça, às cinco, apareceram quatro.

Nina, o Téo, a Dandara e o Pipoca.

O Seu Nilo olhou o campinho quase vazio, olhou os quatro e não falou nada sobre os que faltaram.

Tirou de uma sacola uns cones velhos de plástico, desses de obra, todos tortos de tanto serem pisados. Espalhou pela terra.

— Dois a dois — disse. — Passa e corre.

— Só isso? — perguntou a Dandara.

— Só isso.

Passaram uma hora fazendo só isso. Passa e corre. Passa e corre. A bola careca ia e voltava, ia e voltava, levantando poeira.

No começo foi chato. Foi muito chato. A Dandara perguntou umas quatro vezes quando é que ia ter jogo de verdade, e umas quatro vezes o Seu Nilo respondeu a mesma coisa:

— Domingo.

O Téo era o único que não achava chato. Téo achava tudo ótimo.

Na quinta apareceram cinco.

Na terça seguinte, seis.

O Bruno foi o último a voltar. Chegou atrasado, com a mochila num ombro só, e não falou com ninguém. Ficou fazendo embaixadinha sozinho no canto do campo, esperando alguém pedir para ele entrar.

Ninguém pediu.

Aí o Seu Nilo apontou o dedo para o meio do campo.

— Dois a dois.

Homem mais velho apontando para o meio do campinho de terra, cones tortos espalhados, a goleira em dupla com um menino

O Bruno ficou com a Nina.

Foi o treino mais silencioso da história do bairro. Uma hora inteira de passa e corre sem ninguém dizer nada além de "minha" e "sua".

Mas na hora de ir embora, já com a mochila no ombro, o Bruno falou:

— Sua mão esquerda é melhor que a direita.

Nina parou.

— Como você sabe?

— Eu reparo.

— E daí?

— E daí que você cai sempre para a direita. Cai para a esquerda.

Ele foi embora sem esperar resposta, como quem tinha decidido falar aquilo fazia uma semana e só estava esperando a coragem chegar.

Nina ficou pensando naquilo a noite inteira. Não na parte da mão esquerda. Na parte do "eu reparo".

Terça e Quinta

E aí a temporada passou.

Foi assim: terça e quinta, cinco horas, chovesse ou não chovesse.

Passa e corre. Dois a dois. Bola na trave, bola no cone, bola no muro. O Seu Nilo inventava um exercício novo por semana, e todos precisavam de duas pessoas para funcionar. Não tinha um só que desse para fazer sozinho.

Ninguém reparou nisso na hora.

Quando chovia, o campinho virava um lamaçal, e o Seu Nilo não cancelava. Dizia que bola na chuva anda mais rápido e que era bom se acostumar.

Eles voltavam para casa com lama até a orelha, escorregando de propósito nos últimos metros, rindo tanto que dava para ouvir da esquina.

Crianças treinando na chuva num campo de terra virado lamaçal, a goleira rindo com lama até o joelho

O Seu Nilo falava pouco. Falava sempre as mesmas três coisas, e falava tantas vezes que aquilo virou música dentro da cabeça deles:

— Bola no chão. Cabeça erguida. Mais um passe.

Domingo tinha jogo.

Jogaram contra os Leões da Praça e perderam de quatro a dois. Jogaram contra o time da escola municipal e perderam de três a um. Jogaram contra a turma da padaria do Zé e empataram — e o empate foi comemorado ali no meio do campo como se fosse taça.

Depois de cada derrota, na volta para casa, alguém sempre começava:

— De quem foi?

E aí era briga a caminhada inteira, até a esquina.

Só que as brigas foram ficando menores. Dez minutos. Oito. Cinco.

Ninguém percebeu isso acontecendo. Essas coisas não avisam. Vão diminuindo do mesmo jeito que o dia diminui no inverno, um tiquinho por vez, até alguém olhar pela janela e falar: nossa, já escureceu.

O Dia em que Ninguém Perguntou

Em julho aconteceu uma coisa que a Nina levou um tempão para entender.

Era um jogo qualquer, num sábado de vento. A bola veio alta, ela saiu do gol para pegar, calculou errado, e a bola passou por cima da luva e entrou mansinha.

Gol bobo. Gol feio. Gol dela.

Nina já sabia como ia ser. Alguém ia bater a mão na perna. Alguém ia falar alguma coisa. E depois ainda tinha a volta para casa.

Mas a Dandara só pegou a bola no fundo da rede, colocou embaixo do braço e disse:

— Bola no chão. Vamos.

O Serginho bateu palma duas vezes.

O Bruno passou correndo do lado do gol e falou sem nem virar a cabeça:

— Cai para a esquerda!

E o jogo continuou.

Ninguém perguntou de quem foi.

Zagueira com a bola embaixo do braço falando com a goleira dentro do gol, um menino passando correndo ao lado

Nina ficou parada meio segundo, com uma sensação esquisita no peito. Não era alívio. Era outra coisa, mais quente, que ela não sabia o nome.

Depois voltou para o jogo.

Perderam de dois a um.

E na volta para casa falaram de outro assunto o caminho inteiro.

O Último Domingo

O último jogo do ano foi em setembro. Contra a Vila Nova.

Os mesmos. Camisa igual, chuteira, senhor com apito, campo de grama de verdade.

Quando entraram, o Téo segurou a barra da camisa amarela da Nina.

— É esse time — sussurrou.

— É esse time — disse ela.

O jogo começou. E aconteceu uma coisa que nenhum deles esperava: a bola ficou com eles.

Não porque tivessem virado craques de repente. Não tinham. Foi porque, quando a bola chegava no pé de um, tinha sempre um outro chegando por perto para receber.

Um passe. Dois passes. Três.

O Bruno recebeu na frente, olhou para o gol — e passou para a Iara, que estava melhor colocada. A Iara chutou de primeira. Entrou.

A Vila Nova empatou. Depois virou.

No segundo tempo, a Dandara subiu num escanteio e cabeceou no canto. Dois a dois.

Faltando pouco para o fim, veio um chute forte, rasteiro, no canto esquerdo.

Nina caiu para a esquerda. Para a esquerda, como o Bruno tinha dito lá atrás, numa terça-feira silenciosa de março.

Espalmou.

A bola sobrou para o Serginho. Serginho tocou para o Bruno. Bruno olhou para o gol de novo — e passou para o Téo.

Téo, seis anos, meião até o joelho, empurrou a bola para dentro com a canela.

Três a dois.

Dessa vez todo mundo comemorou junto. Até o Pipoca, que entrou em campo latindo e não deixou o jogo recomeçar por um minuto inteiro.

Time de crianças comemorando abraçado no campo, a goleira de camisa amarela no meio, cachorro correndo em volta

Depois do Jogo

Voltaram andando devagar, porque ninguém tinha pressa de chegar em lugar nenhum.

O Seu Nilo abriu a mercearia só para eles, tirou umas garrafas de guaraná da geladeira e sentou no degrau da porta, que era o lugar dele.

Ficaram ali sentados na calçada até o sol descer.

Falaram do jogo por uns dez minutos. Depois começaram a falar de outras coisas: do dia em que o Pipoca roubou a bola e correu três quarteirões, da vez que o Léo escorregou na lama e ficou com a cara inteira de barro, do treino em que choveu tanto que o Seu Nilo teve que gritar três vezes cada frase para alguém escutar.

E foi engraçado. Ninguém lembrava mais direito o placar dos outros jogos do ano.

Lembravam das terças. Lembravam das quintas.

Quando escureceu, o Seu Nilo acendeu a luz da mercearia — que era o jeito dele de dizer que estava na hora.

Cada um foi para o seu lado da rua, arrastando o chinelo. Dava para ouvir o Téo contando o gol dele de novo para a mãe, lá longe, no meio do quarteirão.

Nina foi para casa com as luvas embaixo do braço. Tomou banho, jantou, deitou.

Ficou um tempo acordada olhando o teto, ouvindo o barulho da rua ir ficando fininho, ir ficando quase nada.

Pensou no gol do Téo. Pensou na bola que ela espalmou para a esquerda.

Mas o que ficou mesmo na cabeça dela, bem na hora em que o sono chegou, foi uma terça-feira qualquer de junho, com chuva, lama até o joelho e a voz do Seu Nilo atravessando o campo do outro lado:

— Bola no chão. Cabeça erguida. Mais um passe.

E ela dormiu.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Na volta para casa, cada um culpou uma pessoa diferente. Por que será que é tão fácil achar culpado?
  2. O que mudou no time entre o primeiro jogo contra a Vila Nova e o último?
  3. Se você fosse a Nina, o que ia querer ouvir depois de tomar um gol bobo?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. Não é reconto de nenhum conto clássico: o campinho de terra, o Estrela do Beco e o Seu Nilo foram inventados para este texto. O futebol que aparece aqui é o de qualquer rua brasileira — trave de cano, pilha de chinelo marcando o gol e cachorro correndo dentro do campo. Nenhum clube, time ou jogador real é citado.

Perguntas frequentes sobre O Time que Aprendeu a Perder

Qual é a moral desta história?

Que apontar culpado não faz um time jogar melhor, e treinar junto faz. A história mostra isso ao longo de uma temporada inteira, sem parar para explicar: as brigas na volta para casa vão ficando mais curtas até sumirem sozinhas.

É uma boa história para criança que perde e fica chateada?

Sim, é uma das razões de ela existir. O time perde várias vezes no meio do caminho e nada de terrível acontece — eles continuam se gostando e continuam voltando na terça. A vitória do fim aparece de propósito como a parte menos importante.

Para que idade é indicada?

Dos 6 aos 10 anos. É a idade em que a criança começa a jogar em time, a fazer trabalho em grupo e a lidar com derrota de verdade, então os diálogos costumam soar bem familiares.

Que tal a história de amanhã?