Contos para Dormir
Ilustração do conto O Mapa que Levava a Lugar Nenhum

O Mapa que Levava a Lugar Nenhum

Um papel cor de chá com um X bem apertado, dois amigos decididos a chegar lá — e um dia inteiro de rio, morro e mata pela frente.

Equipe Contos para Dormir ·

Um X no papel, um dia inteiro pela frente e dois amigos que não faziam ideia do que estavam procurando

O galpão da Vó Zilda era o lugar mais interessante da rua inteira.

Tinha cheiro de terra seca, de óleo de máquina e de papel guardado. Tinha uma bicicleta sem corrente pendurada num gancho. Tinha vidros de conserva cheios de parafuso, um rádio que não pegava mais nenhuma estação e uma pilha de caixas que ninguém abria desde antes de Bento nascer.

Mexer ali era proibido. Mas era proibido daquele jeito frouxo, meio de mentira, que na prática quer dizer "não quebre nada".

Naquele sábado de manhã, Bento e Nara estavam procurando uma caixa de anzol quando a caixa errada escorregou da prateleira.

Espalhou tudo no chão: botão, prego torto, uma chave sem fechadura, três fotografias desbotadas e um papel dobrado em quatro.

O papel era da cor de chá. Estava mole nas dobras, quase se soltando, e cheirava a poeira e a coisa esquecida.

Nara abriu com cuidado, do jeito que a gente segura uma borboleta.

Era um mapa.

Feito à mão, com caneta azul que o tempo tinha puxado para o cinza. Um risco comprido que só podia ser um rio, com um peixe desenhado em cima. Um morro com um chapéu. Três árvores bem juntinhas, com rabiscos no meio para avisar que ali era mato fechado.

E depois de tudo isso, lá embaixo, no cantinho do papel, um X.

Um X grande, apertado com força, de quem quis ter certeza de que ninguém ia deixar de ver.

Os dois ficaram olhando aquilo um tempo comprido, sem dizer nada.

— Bento — falou Nara. — Isso aqui é um mapa de tesouro.

— Isso aqui é um mapa de tesouro — repetiu Bento, porque tem coisa que precisa ser dita duas vezes para virar verdade.

Dois amigos ajoelhados no chão de um galpão, com um mapa antigo aberto entre eles

Embaixo do X, com letra pequena e caprichada, havia três frases:

Segue o rio. Sobe o morro. Atravessa a mata.

Sem nome. Sem data. Só aquilo.

O Combinado

Vó Zilda estava na varanda, descascando mexerica.

Bento entrou com o mapa escondido nas costas e fez a pergunta do jeito mais casual que conseguiu — que foi um jeito nada casual.

— Vó. A gente pode ir até o riacho hoje?

Vó Zilda descascou mais um pedaço.

— Pode. Com três combinados.

— Três?

— Três. Um: vocês vão juntos e voltam juntos. Ninguém anda sozinho, nem se for pra pegar uma coisa ali do lado.

— Tá.

— Dois: água. Cada um leva o seu cantil cheio, e cheio de verdade, não pela metade.

— Tá.

— Três — e aqui ela apontou o queixo para o morro, do outro lado do quintal —, quando o sol encostar naquele morro ali, vocês já estão voltando. Não é começando a voltar. É voltando.

— Tá!

— Repete pra mim.

— Juntos, cantil cheio, sol no morro — disse Nara, que decorava coisa na primeira vez.

Vó Zilda olhou para os dois com aquela cara de quem sabe mais do que está falando, e não falou.

Eles fizeram sanduíche de queijo com goiabada, embrulharam em pano de prato, encheram os cantis na torneira do tanque e puseram tudo na mochila de lona do Bento junto com uma corda, uma lanterna sem pilha e o mapa dobrado no bolso da frente.

Saíram pelo portão às sete e meia da manhã.

A estrada de terra vermelha estava fria ainda, com aquela neblina baixa que some assim que o sol se levanta direito. Um galo cantou atrasado. O mundo inteiro parecia ter acabado de acordar e ainda não ter decidido o que ia fazer do dia.

— Segue o rio — disse Nara.

— Sobe o morro — disse Bento.

— Atravessa a mata.

Dois amigos saindo pelo portão de casa numa estrada de terra vermelha ao amanhecer

O Riacho Pinga-Pouco

O riacho tinha nome de brincadeira: Pinga-Pouco. Chamavam assim porque no tempo da seca ele quase sumia, virava um fiapo de água escondido entre as pedras, pingando pouco.

Mas era novembro, depois das primeiras chuvas, e ele estava cheio e claro, fazendo aquele barulho contínuo que a gente esquece que está ouvindo até parar.

O peixe desenhado no mapa ficava logo depois de uma curva. Foi fácil achar a curva. Difícil foi achar como atravessar.

— Aqui — disse Nara.

Tinha uma fileira de pedras chatas atravessando de um lado ao outro, umas secas, outras escorregadias de limo verde.

— Você primeiro — disse Bento.

— Por quê?

— Porque foi você que achou.

— Essa lógica é péssima.

Mas ela foi. Pisou na primeira, na segunda, na terceira. Na quarta escorregou, gritou, se equilibrou de novo e chegou do outro lado com um pé molhado até o tornozelo e a cara de quem venceu uma guerra.

Bento começou a atravessar logo atrás, mais devagar, contando as pedras em voz alta.

Foi bem aí que aconteceu.

De trás de uma moita de taboa levantou uma garça branca.

Levantou perto, muito perto, aquele bicho comprido abrindo asas enormes de repente, e o barulho que ela fez no ar foi um barulho macio e grande ao mesmo tempo.

Os dois ficaram parados onde estavam, cada um numa ponta da fileira de pedras, olhando aquilo subir contra o céu ainda meio rosa.

— Que coisa mais linda — disse Nara, baixinho.

Ficaram olhando até a garça virar um ponto e depois nem ponto.

Aí Bento pisou as três últimas pedras e seguiram.

Duas crianças paradas em pedras no meio de um riacho enquanto uma garça branca levanta voo

O Morro do Chapéu

O morro do mapa era o Morro do Chapéu, e ele merecia o nome: tinha uma pedra chata bem no alto, atravessada, que de longe parecia mesmo uma aba.

A subida foi honesta. Não era perigosa, mas era comprida, e o capim raspava nas pernas o caminho inteiro.

No meio do caminho, Bento sentou numa pedra.

— Falta muito?

— Falta o suficiente — respondeu Nara.

Ela tinha inventado essa resposta na hora e achou tão boa que usou mais quatro vezes na subida.

Chegaram em cima quase às dez.

E aí o mundo abriu.

Dali de cima dava para ver tudo. A cidade inteira, que de perto era enorme e que de longe cabia entre dois dedos. O campinho de futebol. O telhado vermelho da escola. A torre da igreja com o galo em cima. A estrada de terra fazendo aquela curva boba antes de entrar na rua deles.

E, bem pequenininha lá embaixo, quase escondida atrás de uma mangueira, a casa da Vó Zilda.

— Aquilo ali é a minha janela — disse Bento.

— Não é não.

— É sim. Conta comigo: um, dois, três telhados depois da mangueira.

Contaram. Era.

Sentaram na pedra chata com as pernas balançando no ar e comeram um sanduíche cada um, mesmo não sendo hora de almoço, porque no alto de um morro qualquer hora é hora.

O vento lá em cima era outro vento. Era um vento que empurrava de leve, contínuo, e que fazia o capim inteiro do morro deitar todo para o mesmo lado, de uma vez, como se alguém tivesse passado a mão em cima.

Ficaram um tempão sem falar. Não porque não tivessem o que dizer. Porque não precisava.

Dois amigos sentados numa pedra no alto de um morro, olhando a cidade pequenina lá embaixo

A Mata do Angico

A parte das três árvores era a Mata do Angico, e ali a brincadeira ficou séria.

Não porque fosse assustadora. Era só fechada mesmo.

O sol entrava em riscos finos, atravessado, e o chão era todo folha seca que estalava a cada passo. O ar ficou mais fresco de repente, quase frio.

E o cheiro mudou: virou terra molhada, folha velha, mato se desmanchando devagar. Um cheiro bom, desses que ainda assim dão um arrepiozinho.

Uma juriti gemia em algum lugar, sempre longe, sempre no mesmo tom.

Depois de uns quinze minutos ali dentro, Bento parou.

— Nara.

— Oi.

— A gente veio de que lado?

Nara girou nos calcanhares. Olhou para as árvores. Olhou de novo. Todas as árvores da Mata do Angico se pareciam muito, muito mesmo, com todas as outras árvores da Mata do Angico.

O coração dos dois bateu meio errado.

Então Nara respirou fundo, se abaixou e encostou a mão no chão.

— Escuta. A subida ficou pra trás, então o morro é pra lá. Se a gente descer, a gente sai. Não tem como não sair.

— Tem certeza?

— Tenho — disse ela, e tinha uns setenta por cento de certeza, o que numa hora dessas é bastante.

Deram as mãos um para o outro, coisa que nenhum dos dois faria em público, e foram descendo devagar.

Foi Bento quem viu as pitangas.

Um pé carregado, vermelho de tão maduro, bem na beirada de uma clareirinha. Comeram até a boca ficar vermelha. Uma pitanga muito verde entrou no meio e fez os dois cuspirem ao mesmo tempo, e isso arrancou uma risada tão alta que a juriti calou.

Cinco minutos depois a mata clareou.

E acabou.

Duas crianças de mãos dadas dentro de uma mata verde e fechada, com raios de sol atravessando as folhas

O Lugar Nenhum

Do outro lado da mata havia um descampado.

Só isso.

Um descampado grande, de capim alto até a cintura, com uma árvore sozinha mais ou menos no meio e nada, absolutamente nada, em volta.

Bento tirou o mapa do bolso. Conferiu o rio. Conferiu o morro. Conferiu as três árvores. Conferiu o X.

Era ali.

— Cadê? — perguntou ele.

— Cadê o quê?

— O tesouro. A caverna. A porta. Alguma coisa.

Nara andou até o meio do descampado, girando devagar, procurando com os olhos qualquer coisa que fosse diferente de capim.

Não tinha.

Não tinha ruína, não tinha baú, não tinha nem uma cerca velha. Tinha capim, uma árvore e um bando de pardais que levantou e pousou mais adiante.

Bento sentou no chão com o mapa nas mãos.

— A gente andou o dia inteiro — falou por fim.

Nara sentou do lado dele. O sol já estava alaranjado.

Ficaram assim um tempo, sem pressa nenhuma de ir embora.

Depois Nara levantou e foi olhar a árvore de perto, mais por teimosia do que por esperança.

E aí percebeu uma coisa.

O chão em volta do tronco era diferente. Não era capim como o resto: era uma mancha de terra mais fofa e mais escura, do tamanho de uma bacia.

— Bento. Vem cá.

Cavaram com as mãos. Depois com um graveto. Depois com as mãos de novo.

Vinte centímetros abaixo, o graveto bateu em alguma coisa dura.

Era uma lata de goiabada. Enferrujada, amassada de um lado, com a tampa presa por dois elásticos que se desfizeram em pó no primeiro toque.

Dentro da lata havia um papel dobrado em quatro.

A Lata de Goiabada

Nara desdobrou o papel com o mesmo cuidado do galpão.

Era a mesma letra do mapa. A mesma caneta azul virada cinza.

Pra quem chegou até aqui:

Aqui não tem nada. A gente procurou o dia inteiro e não tem mesmo.

Mas hoje foi o melhor dia.

Se você quiser, o mapa é seu.

E embaixo, com capricho:

Zilda e Marieta

Bento leu duas vezes. Leu uma terceira.

— Zilda — disse ele.

Nara já estava rindo. Rindo daquele jeito que começa no nariz e vai crescendo até dobrar a pessoa no meio.

— A sua avó — ela conseguiu falar. — A sua avó enterrou isso aqui!

E aí Bento entendeu por que Vó Zilda tinha dado três combinados sem fazer nenhuma pergunta.

Duas crianças ajoelhadas ao pé de uma árvore lendo um bilhete antigo, com uma lata enferrujada aberta ao lado

A Volta para Casa

Voltaram com o sol encostando no morro, exatamente como tinha sido combinado, mas voltaram devagar, porque tem cansaço que a gente não quer que acabe.

Vó Zilda estava na varanda de novo, no mesmo lugar, como se não tivesse saído dali o dia inteiro.

Nara entregou o bilhete sem falar nada.

A avó tirou os óculos, aproximou o papel dos olhos, afastou, aproximou de novo. Ficou lendo. Ficou quieta um tempo bem maior do que o papel precisava.

— A Marieta morava naquela casa de esquina — disse ela por fim. — A gente tinha nove anos. Passamos um dia inteiro procurando um tesouro que a gente mesmo tinha inventado, e voltamos com o pé molhado e a boca vermelha de pitanga.

— E por que vocês enterraram um bilhete? — perguntou Bento.

— Ah. Porque um dia ia ter mais alguém.

Ela dobrou o papel de volta em quatro, com cuidado, e devolveu para a Nara.

Naquela noite tomaram banho, comeram sopa e ficaram na mesa da cozinha com uma folha de caderno e uma caneta azul, escrevendo o bilhete deles. Levou um tempo, porque Bento queria escrever um monte e Nara achava que quanto menos, melhor.

Ficou assim:

A gente também chegou aqui. Também não tinha nada. Valeu a pena do mesmo jeito.

Guardaram na mesma lata. No sábado seguinte iam enterrar de novo, no mesmo lugar, debaixo da mesma árvore.

O mapa voltou dobrado em quatro para o bolso de fora da mochila, e a mochila voltou para o galpão, no gancho ao lado da bicicleta sem corrente.

O galpão ficou escuro e quieto, com cheiro de terra seca e de papel guardado.

E o X continuou lá longe, no meio do capim alto, debaixo da árvore sozinha, esperando sem nenhuma pressa — do jeito calmo que as coisas boas sabem esperar.

Bento adormeceu ainda vendo a garça abrir as asas.

Nara adormeceu no vento do alto do morro.

E os dois dormiram do jeito que a gente só dorme depois de um dia comprido: fundo, pesado e muito, muito bem.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Se você achasse um mapa antigo com um X, iria atrás? Levaria quem junto?
  2. Qual foi a melhor parte do caminho deles, na sua opinião?
  3. Já aconteceu de você esperar uma coisa e ganhar outra bem diferente?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para este site. Não é reconto de nenhum conto antigo: o mapa, o riacho Pinga-Pouco, o Morro do Chapéu e a Mata do Angico foram inventados aqui. A ideia de que a caçada ao tesouro vale mais que o tesouro é antiga na literatura de aventura, mas os personagens e o enredo são nossos.

Perguntas frequentes sobre O Mapa que Levava a Lugar Nenhum

Qual é a moral de O Mapa que Levava a Lugar Nenhum?

Que o valor de uma aventura está no caminho, e não no prêmio do fim. Bento e Nara não encontram nenhum tesouro no X do mapa, mas voltam para casa com um dia inteiro de descobertas e uma amizade mais firme do que quando saíram.

Esta história é assustadora para crianças pequenas?

Não. Tem um trecho de mata fechada em que os dois ficam meio perdidos, mas nada de ruim acontece e a tensão dura pouco. O final é tranquilo, dentro de casa, e serve bem para ler na hora de dormir.

Para que idade é indicada?

Dos 5 aos 10 anos. Crianças a partir dos 5 acompanham bem a aventura, e as maiores costumam gostar da virada do fim, quando descobrem quem escreveu o bilhete enterrado.

Que tal a história de amanhã?