Contos para Dormir
Ilustração do conto O Pequeno Alfaiate Valente

O Pequeno Alfaiate Valente

Ele pegou sete de um golpe e bordou isso no cinto. O problema é que o mundo inteiro entendeu outra coisa — e resolveu testar.

Equipe Contos para Dormir ·

Num quarto pequeno, em cima de uma mesa pequena, começou uma história do tamanho do mundo

Nico era alfaiate.

Morava num quarto em cima da chapelaria, num vilarejo de ruas tortas, e trabalhava sentado de pernas cruzadas em cima da própria mesa, que era o jeito antigo de costurar. Da janela dele dava para ver o telhado do vizinho, um pedaço de céu e mais nada.

Nico era miúdo. Tão miúdo que os meninos da rua juravam que ele cabia duas vezes dentro do próprio casaco. Mas tinha dedo rápido, olho bom e uma paciência que não acabava nunca.

Numa manhã de sol, uma mulher passou embaixo da janela cantando o que tinha para vender.

— Geleia de amora! Geleia boa!

Nico se debruçou no parapeito.

— Sobe aqui!

Comprou o tanto que cabia numa colher, que era o tanto que o bolso dele dava, passou tudo numa fatia de pão e deixou o prato em cima da mesa.

— Primeiro eu acabo o casaco — disse para si mesmo. — Depois eu como.

Foi só voltar para a costura e o cheiro doce tomar conta do quarto.

As moscas vieram.

Veio uma. Vieram duas. Veio uma nuvenzinha delas, e em pouco tempo o pão estava mais coberto de mosca do que de amora.

— Ei! — disse Nico. — Quem chamou vocês?

As moscas não responderam, porque moscas não respondem.

Então Nico fez o que um alfaiate faz quando precisa resolver alguma coisa: pegou um retalho de pano. Segurou o pano bem aberto entre as duas mãos, ficou paradinho, esperou o zumbido baixar e — pluf! — jogou o pano por cima do pão inteiro.

Levantou uma pontinha e espiou.

— Uma, duas, três, quatro, cinco, seis… sete.

Sete moscas, todas de uma vez.

Nico juntou as quatro pontas do pano, foi até a janela e sacudiu. As sete saíram voando tontas para cima do telhado do vizinho, sem entender direito o que tinha acontecido com a manhã delas.

Ele ficou olhando para a mão vazia.

— Sete de um golpe — falou baixinho.

Depois falou de novo, mais alto, só para ouvir como soava.

— Sete de um golpe!

O alfaiate espia por baixo de um retalho de pano jogado sobre uma fatia de pão com geleia, contando as moscas presas

Sete de um Golpe

Foi ali que a ideia pegou.

Nico achou que uma coisa daquelas não podia ficar só entre ele e o pão. Largou o casaco pela metade, pegou um cinto de couro claro que estava guardado na gaveta e bordou nele, com linha vermelha, sete pontinhos redondos, um do lado do outro. Um para cada mosca.

Amarrou o cinto na cintura. Olhou para o quarto: a mesa, o telhado do vizinho, o pedaço de céu.

— Este vilarejo é pequeno demais para mim — disse.

Na cozinha achou um queijo fresquinho, branco e mole, desses que ainda soltam água quando a gente aperta. Enfiou no bolso.

Na saída do vilarejo, viu um passarinho preso numa cerca viva. Abriu os galhos com cuidado, do jeito de quem desembaraça uma linha, e o bicho ficou quietinho na mão dele, meio zonzo. Botou no outro bolso, para soltar mais adiante.

E foi embora pela estrada, com um queijo num bolso, um passarinho no outro e sete pontinhos vermelhos na cintura.

Não tinha andado meia légua quando ouviu um barulho de passo que fazia as pedrinhas da estrada pularem.

Era um gigante.

Um gigante sentado na beira do caminho, com os pés dentro do riacho, tão grande que a sombra dele cobria a estrada inteira.

— Bom dia — disse Nico.

O gigante baixou os olhos. Demorou um pouco para achar quem tinha falado.

— Você é do tamanho de um dedo meu.

— Sou.

— E o que é isso na sua cintura?

Nico ajeitou o cinto para o vermelho pegar sol.

— Sete de um golpe.

O gigante ficou quieto. Sete. De um golpe. Ele foi juntando as duas coisas na cabeça e não gostou nada do resultado.

O Queijo e o Passarinho

— Você é forte, então — disse o gigante, se levantando devagar.

— Eu me viro.

— Vamos ver.

O gigante pegou uma pedra do chão, apertou na mão até a pedra virar pó e deixou a poeira escorrer entre os dedos.

— Faz igual.

Nico enfiou a mão no bolso, tirou o queijo fresco e apertou com força. Saiu água pelos vãos dos dedos, escorrendo até o cotovelo.

— Da minha eu ainda tiro leite — disse.

O gigante piscou.

O alfaiate aperta um queijo branco e mole na mão, com o líquido escorrendo, diante de um gigante espantado na beira da estrada

— Isso não vale — disse ele. — Agora joga.

Pegou outra pedra, girou o braço e atirou para o alto. A pedra subiu, subiu, sumiu de vista, e demorou tanto para descer que deu para os dois conversarem sobre o tempo enquanto esperavam. Quando enfim caiu, do outro lado do riacho, fez um barulho seco de coisa pesada chegando no chão.

— Bonito — disse Nico. — Mas caiu.

Tirou o passarinho do bolso, abriu a mão e jogou para cima.

O passarinho, que já estava bem recuperado do susto da cerca viva, bateu as asas duas vezes e foi embora. Subiu, virou um pontinho, sumiu atrás das árvores.

Os dois ficaram esperando.

E esperando.

— Não vai cair não? — perguntou o gigante.

— A minha nunca cai — disse Nico.

O gigante coçou a cabeça com um barulho de vassoura em telhado.

— Vem comigo. Preciso de ajuda com uma coisa.

A Árvore que Andou

A coisa era um carvalho caído atravessado na trilha, do tamanho de uma rua.

— Pega a ponta de lá — disse o gigante. — Eu levo esta aqui.

O gigante abraçou o tronco pelo lado grosso, que era a parte pesada, e ergueu. Nico foi para a ponta fina, onde a copa se abria em galho e folha, e se acomodou no meio dela como quem senta numa rede.

Foram andando.

O gigante suava. O gigante bufava. O gigante trocava o tronco de ombro a cada vinte passos.

Nico, lá atrás, ia assobiando.

Quando finalmente chegaram na clareira, o gigante largou o tronco no chão com um estrondo e ficou de mãos nos joelhos, tomando fôlego.

— Pesado, hein? — disse Nico, pulando dos galhos.

— Você não está nem cansado?

— Eu? — Nico sacudiu a poeira das mangas. — Eu ia até assobiando.

O alfaiate acomodado entre os galhos da copa enquanto um gigante suado carrega o tronco pesado por uma trilha

O gigante olhou Nico de cima a baixo, olhou os sete pontinhos vermelhos, e chegou a uma conclusão que, para ele, fazia todo o sentido do mundo: era melhor não seguir viagem com aquele sujeito. Deu uma desculpa qualquer sobre um irmão que estava esperando, virou as costas e foi embora com passos bem largos, sem olhar para trás nenhuma vez.

Nico ficou sozinho na clareira, com o carvalho caído do lado.

— Foi um prazer! — gritou.

E seguiu pela trilha.

Os Dois Gigantes da Mata

Mais adiante, a mata fechava.

Foi ali que ele cruzou com um lenhador sentado na beira da trilha, com o machado no colo e nenhuma vontade de entrar.

O lenhador contou o motivo. Havia dois gigantes vivendo na mata do rei. Não faziam mal a ninguém de propósito, mas dormiam onde dava vontade, e onde eles dormiam a mata amanhecia amassada. As trilhas sumiam. As pontes rachavam. Ninguém mais entrava ali para tirar lenha.

— O rei prometeu metade do bosque e um lugar na corte para quem resolver isso — disse o lenhador. — Até hoje ninguém quis.

— Eu vou ver — disse Nico.

O lenhador olhou para ele, olhou para os sete pontinhos vermelhos e estendeu o machado.

— Então leva isto. Hoje eu não vou usar mesmo.

Nico entrou na mata e achou os dois no meio de uma clareira, roncando de barriga para cima debaixo de um carvalho carregado de bolotas. Roncavam de um jeito que fazia as folhas tremerem.

Nico encheu os bolsos de bolota, subiu no tronco com jeito de quem sobe em escada de loja, e se acomodou num galho bem em cima dos dois.

Mirou. Soltou uma bolota.

Pom. Na testa do primeiro gigante.

O gigante abriu um olho, olhou para o lado e deu um empurrão no outro.

— Para com isso.

— Com o quê?

— Você sabe.

Ficaram quietos. Voltaram a roncar.

Nico esperou. Soltou outra.

Pom. Agora no nariz do segundo gigante.

O segundo sentou de uma vez.

— Ah, é assim?

— Eu não fiz nada!

— Eu senti!

Discutiram. Deitaram de novo, cada um virado para um lado, emburrados.

Nico esperou mais. Soltou duas bolotas quase juntas.

Pom. Pom.

O alfaiate escondido num galho solta bolotas sobre dois gigantes que discutem deitados na clareira

Os dois levantaram ao mesmo tempo, apontando o dedo um para o outro, cada um falando por cima da voz do outro, numa daquelas discussões em que ninguém escuta nada.

No fim, o primeiro gigante cruzou os braços e disse que não dormia mais na mesma mata que gente que joga coisa na cara dos outros. O segundo disse que ótimo, porque também não aguentava mais ouvir aquele ronco.

Foram embora para lados opostos, resmungando, esmagando arbusto pelo caminho.

Quando o barulho dos passos sumiu, Nico desceu da árvore, tirou as folhas do cabelo e foi bater na porta do rei.

O Unicórnio da Serra

O rei ouviu a história inteira sem interromper.

Depois olhou para o cinto.

— Sete de um golpe — disse Nico, antes que perguntassem.

Um conselheiro sussurrou alguma coisa no ouvido do rei. O rei fez que sim com a cabeça e falou com uma calma muito bem ensaiada:

— Antes do bosque, mais duas coisinhas. Tem um unicórnio na serra estragando as plantações. E tem um javali na mata de baixo que ninguém consegue chegar perto.

— Coisinhas — repetiu Nico.

— Coisinhas.

O unicórnio da serra era branco, alto e vinha em linha reta, com o chifre baixo como uma lança. Não parava para pensar. Escolhia um alvo e ia.

Nico subiu a serra com um rolo de corda no ombro e o machado do lenhador na cintura, e ficou esperando ao lado do carvalho mais grosso que achou.

Quando o unicórnio o viu, baixou a cabeça e disparou.

Nico ficou parado. Parado. Parado.

E, no último instante, deu um passo para o lado, atrás do tronco.

O baque foi tão forte que choveu bolota. O chifre entrou fundo na madeira e ficou preso ali, e o unicórnio começou a puxar para trás com toda a força, batendo as patas, sem conseguir sair.

O alfaiate de pé ao lado de um carvalho enorme com o chifre de um unicórnio branco encravado no tronco

Nico chegou perto devagar, falando baixinho, do jeito que se fala com bicho assustado. Passou a corda por cima do pescoço do unicórnio e deu um nó de alfaiate, desses que seguram firme sem apertar nada. Depois pegou o machado, alargou a fenda da madeira com dois golpes, e o chifre soltou.

O unicórnio ficou ofegando, olhando para ele.

— Pronto — disse Nico. — Agora a gente vai devagar.

E desceram a serra os dois juntos, sem pressa.

O Javali da Capela

O javali foi mais simples, e Nico depois contava essa parte rindo.

Ele entrou na mata de baixo assobiando, encontrou o bicho, e o bicho veio. Nico saiu correndo — correndo de verdade, sem fingir nada — direto para uma capelinha velha e vazia que ficava na beira da clareira.

Entrou pela porta da frente com o javali no calcanhar, atravessou a capela inteira, pulou pela janelinha dos fundos, deu a volta correndo por fora e baixou a tranca.

Do lado de dentro ficou o javali, bufando, rodando em círculo, muito bravo e inteirinho, sem um arranhão.

Do lado de fora ficou Nico, com as mãos nos joelhos, sem fôlego nenhum.

Quando os homens do rei chegaram, ele já tinha recuperado a respiração e estava encostado na parede da capela, de braços cruzados, com a cara mais tranquila do mundo.

Levaram o javali numa carroça grande até o outro extremo do bosque, onde não passava estrada nem gente, e abriram a porta. O bicho desceu, farejou o mato novo e foi embora sem olhar para trás.

O Que o Rei Descobriu

O reino inteiro passou a contar a história do homem que tinha derrubado sete de um golpe, espantado dois gigantes, laçado um unicórnio e prendido um javali sozinho. Em cada casa a história crescia um pouco. Numa versão eram sete gigantes. Noutra, sete dragões.

Nico ganhou a metade do bosque que o rei tinha prometido, um quarto no castelo e um lugar na mesa do rei.

Mas quarto de castelo é grande e silencioso demais para quem cresceu com o telhado do vizinho na janela. Nas primeiras noites, Nico não conseguia dormir. E, quando não conseguia dormir, fazia a única coisa que sempre soube fazer: acendia uma vela, sentava de pernas cruzadas em cima da cama e costurava.

Foi assim que o rei descobriu.

Passou pelo corredor numa madrugada, viu a luz por baixo da porta, abriu e encontrou o herói do reino com uma agulha na mão, remendando o próprio colete azul.

O alfaiate sentado de pernas cruzadas na cama, costurando à luz de vela num quarto de castelo, com o rei parado na porta

Ficaram os dois se olhando um tempo.

— Você é alfaiate — disse o rei.

— Sou.

— E os sete?

Nico deu de ombros, sem largar a agulha.

— Sete moscas. Em cima de um pão com geleia. Numa terça-feira.

O rei sentou na beirada da cama. Ficou quieto por um bom tempo, olhando aquele sujeitinho miúdo de colete remendado. Depois começou a rir — um riso baixo, de quem entendeu a piada com atraso de meses.

— Mas os gigantes foram embora mesmo — disse o rei.

— Foram.

— E o unicórnio desceu a serra atrás de você.

— Desceu.

— E ninguém mais teve que fugir do javali.

— Ninguém.

O rei se levantou, ajeitou o roupão e foi até a porta.

— Então continua sendo verdade — disse. — Só que agora eu sei de que tamanho.

Dizem que Nico nunca deixou de costurar.

Continuou morando no castelo, continuou indo à mesa do rei, e continuou, nas noites em que o sono demorava, acendendo a vela e pegando a agulha. Os pontos dele eram tão certinhos que os cortesãos passaram a inventar rasgos nas capas só para ter um motivo de bater na porta.

O bosque ficou tranquilo. As trilhas voltaram. Os lenhadores voltaram.

E o cinto de sete pontinhos vermelhos ficou pendurado num prego atrás da porta, meio empoeirado, no lugar onde a gente pendura as coisas que já não precisa mais usar todo dia — mas que também não dá vontade nenhuma de guardar.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. O Nico não era forte nem grande. Então como ele conseguiu passar por tudo aquilo?
  2. Todo mundo achava que ele tinha vencido sete gigantes. Ele deveria ter explicado logo no começo?
  3. Qual foi a saída mais esperta dele, na sua opinião: o queijo, as bolotas ou o carvalho?

Sobre esta história

O Pequeno Alfaiate Valente (Das tapfere Schneiderlein) foi publicado pelos Irmãos Grimm em 1812, no primeiro volume dos Contos da Infância e do Lar, e vem de histórias de feira ainda mais antigas. Nossa recontagem segue o enredo original — as sete moscas, o cinto, o queijo espremido, o passarinho, a árvore carregada, os dois gigantes da mata, o unicórnio e o javali —, mas resolve todas as provas na esperteza: aqui as moscas saem voando pela janela e os gigantes vão embora resmungando, em vez de morrerem. O final também mudou. Nos Grimm, o alfaiate esconde a vida inteira que é alfaiate; nesta versão, ele conta.

Perguntas frequentes sobre O Pequeno Alfaiate Valente

Qual é a moral de O Pequeno Alfaiate Valente?

Que ser pequeno não impede ninguém de dar conta de coisas grandes, desde que use o que realmente tem. O Nico nunca vence pela força: vence pela cabeça rápida, pela calma e por conhecer bem o próprio ofício. A história também brinca com o fato de que os outros costumam inventar uma versão maior da gente do que a verdadeira.

O que significa 'sete de um golpe'?

No conto, o alfaiate pega sete moscas de uma vez só com um retalho de pano e borda sete pontinhos vermelhos no cinto para lembrar do feito. Quando alguém pergunta o que aquilo quer dizer, ele responde 'sete de um golpe' — e as pessoas entendem que foram sete gigantes, sete cavaleiros, sete feras. A frase é verdadeira; a interpretação é que vai crescendo de boca em boca.

Esta versão tem violência?

Não. No conto original dos Grimm as moscas morrem e os dois gigantes se matam. Aqui as moscas são sacudidas pela janela e voam tontas, os gigantes acabam discutindo entre si e vão embora emburrados, cada um para um lado da mata, e o javali é solto longe dali, inteiro. Ninguém morre, ninguém se machuca, e o conflito continua existindo do mesmo jeito.

Para que idade é indicada?

Dos 5 aos 10 anos. Tem episódios bem marcados — o queijo, a árvore, as bolotas, o unicórnio —, o que ajuda crianças menores a acompanhar, e um jogo entre o que é dito e o que é entendido que diverte bastante as maiores.

Que tal a história de amanhã?