Contos para Dormir
Ilustração do conto O Pastor que Gritava Lobo

O Pastor que Gritava Lobo

Da primeira vez todo mundo correu para ajudar. Da segunda também. Na terceira, ninguém se mexeu — e dessa vez era verdade.

Equipe Contos para Dormir ·

Mentira pequena não machuca ninguém. Até o dia em que a verdade precisa de alguém

Vicente tinha onze anos e tomava conta das ovelhas da vila.

Todo dia de manhã ele subia o morro com o rebanho, sentava numa pedra e ficava lá até o sol baixar.

Era um trabalho importante. Aquelas ovelhas eram de todo mundo — do padeiro, da tecelã, do ferreiro, da viúva da casa verde.

E era um trabalho muito chato.

As ovelhas comiam capim. Depois comiam mais capim. Depois andavam três passos e comiam capim de novo.

Vicente contava nuvem. Contava formiga. Jogava pedrinha no tronco. Cantava sozinho até enjoar da própria voz.

E aí, num daqueles dias compridos, teve uma ideia.

Um menino sentado numa pedra no alto de um morro, com ovelhas pastando ao redor

A Primeira Vez

Vicente levantou, encheu o peito de ar e gritou com toda a força:

— LOBO! SOCORRO! TEM UM LOBO!

Lá embaixo, na vila, tudo parou.

O padeiro largou a massa na mesa.

A tecelã largou o tear no meio da linha.

O ferreiro largou o martelo em cima da bigorna, ainda quente.

E todos subiram o morro correndo, com o coração na boca, uns de foice na mão, outros só com o que tinham.

Chegaram lá em cima esbaforidos.

As ovelhas pastavam, tranquilas.

Não tinha lobo nenhum.

E Vicente estava sentado na pedra, rindo tanto que nem conseguia falar.

— Vocês... vocês vieram correndo... — ele conseguiu dizer, entre uma risada e outra.

Ninguém riu junto.

O ferreiro balançou a cabeça. A tecelã suspirou. O padeiro disse só uma coisa:

— Não faça isso de novo.

E foram descendo o morro, em silêncio, voltando cada um para o seu trabalho.

A Segunda Vez

Passaram-se quatro dias.

Quatro dias de capim, nuvem, formiga e pedrinha no tronco.

E Vicente, que já tinha esquecido a cara das pessoas descendo o morro, pensou: mas foi tão engraçado.

Levantou. Encheu o peito.

— LOBO! É SÉRIO! O LOBO ESTÁ AQUI!

Lá embaixo, algumas pessoas hesitaram.

Mas ovelha é o pão de muita gente, e não dá para arriscar.

Subiram de novo. Menos gente, e mais devagar.

Não tinha lobo nenhum.

Vicente ria.

Dessa vez ninguém disse nada. Nem "não faça de novo", nem nada.

Eles apenas olharam para ele, deram meia-volta e desceram.

E aquele silêncio foi pior do que qualquer bronca.

Moradores de uma vila descendo um morro em silêncio, de costas, ao entardecer

A Terceira Vez

Uma semana depois, no fim da tarde, o capim mexeu.

Não foi o vento.

Vicente virou a cabeça e viu, entre os arbustos da beira da mata, dois olhos amarelos parados, olhando o rebanho.

Era um lobo.

Um lobo de verdade, magro, com o pelo cinzento e o focinho baixo.

Vicente sentiu o frio subir pelas costas.

Levantou de um pulo, encheu o peito e gritou:

— LOBO! SOCORRO! TEM UM LOBO DE VERDADE!

Lá embaixo, na vila, o padeiro escutou.

E continuou amassando o pão.

A tecelã escutou.

E continuou passando a linha.

O ferreiro escutou, olhou para o morro por um instante, e bateu o martelo de novo.

Ninguém subiu.

Vicente gritou mais uma vez. Gritou até a voz rachar.

Ninguém veio.

O Que Sobrou

O lobo avançou e as ovelhas se espalharam morro abaixo, balindo, correndo para todo lado.

Vicente correu junto, agitando os braços, gritando, batendo o cajado no chão — fazendo o barulho que conseguia, porque era só o que ele tinha.

Foi o barulho da correria que finalmente chegou na vila.

Quando os cães começaram a latir e as primeiras ovelhas apareceram na estrada, aí sim as pessoas entenderam e vieram.

O lobo fugiu de volta para a mata assim que ouviu os cães.

Ninguém se machucou. Mas o rebanho ficou espalhado por três morros, e levaram até quase meia-noite, com tochas, para juntar quase todas.

Quase.

Vicente ficou sentado na pedra o tempo todo, olhando as tochas subirem e descerem no escuro, sem coragem de olhar para ninguém.

No dia seguinte ele subiu o morro antes de todo mundo acordar.

E no outro dia também.

E durante muito, muito tempo, ele não gritou nem uma vez — nem de brincadeira, nem de verdade.

Só cuidou.

E foi só assim, um dia de cada vez, que a vila voltou a acreditar nele.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Por que os moradores não vieram na terceira vez, se dessa vez era verdade?
  2. O que o Vicente poderia ter feito para se divertir sem enganar ninguém?
  3. Como será que ele fez para as pessoas voltarem a acreditar nele?

Sobre esta história

Fábula de Esopo, do século VI a.C., em domínio público. Na versão grega original o desfecho é bem mais duro: o rebanho é devorado inteiro. Nossa recontagem mantém o susto e a consequência — as ovelhas se espalham e algumas se perdem —, mas nenhum animal é morto, e acrescenta o que o menino faz depois para reconquistar a confiança da vila.

Perguntas frequentes sobre O Pastor que Gritava Lobo

Qual é a moral de O Pastor que Gritava Lobo?

Que quem mente por diversão acaba não sendo acreditado quando fala sério. A fábula mostra que confiança não se exige nem se explica: ela some sozinha depois de algumas mentiras, e reconquistá-la dá muito mais trabalho do que perdê-la.

Esta história é assustadora?

Tem um momento de tensão quando o lobo aparece de verdade, mas nenhuma ovelha é morta e o menino não se machuca. O lobo foge quando os cães chegam, e o final é tranquilo, com a vila ajudando a reunir o rebanho.

Para que idade é indicada?

Dos 5 aos 9 anos. É a idade em que a criança começa a testar mentiras pequenas, e a fábula dá um jeito concreto de conversar sobre isso sem sermão.

Quanto tempo leva para ler esta história?

Cerca de 6 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site.

Que tal a história de amanhã?