Pular para o conteúdo
Contos para Dormir

João e o Pé de Feijão

João troca a vaquinha da família por cinco feijões mágicos. Na manhã seguinte, um pé de feijão gigante toca as nuvens…

Daniel Otto ·

Compartilhar no WhatsApp
Ilustração do conto João e o Pé de Feijão

Era uma vez um garoto chamado João que morava com sua mãe numa casinha modesta, no fim de uma estrada de terra. Eram muito pobres — tão pobres que a única coisa que tinham de valor era uma vaca chamada Moreninha. Moreninha tinha uma mancha branca na testa parecida com um coração torto e um jeito manso de encostar o focinho no ombro de João. Ela dava leite toda manhã e era com esse leite que João e sua mãe compravam pão, queijo e os outros alimentos de que precisavam para sobreviver. Mas um dia, Moreninha parou de dar leite. João tentou de manhã, tentou à tarde, conversou baixinho com ela, prometeu capim novo — e o balde continuou vazio. A mãe de João olhou para a despensa quase vazia e ficou desesperada. — Filho, não temos mais escolha. Você vai ter que vender a Moreninha no mercado. Com o dinheiro, podemos comprar comida para alguns meses e pensar num plano. João ficou triste — gostava muito da vaquinha — mas sabia que a mãe tinha razão.

Os Feijões Mágicos

João pegou a Moreninha pela corda e foi caminhando pela estrada em direção ao mercado. No caminho, encontrou um senhor velhinho de chapéu torto e olhos espertos, sentado numa pedra como quem esperava ali havia muito tempo, que o parou com um sorriso misterioso. — Aonde você vai com essa vaca tão bonita, rapaz? João explicou que ia vendê-la — e explicou também, sem querer, todo o resto: o leite que secou, a despensa vazia, a mãe preocupada. O velhinho mexeu no bolso do colete e tirou cinco feijões coloridos que brilhavam de um jeito estranho na palma da mão. — E se eu te oferecer esses cinco feijões em troca da sua vaca? São feijões mágicos — se você os plantar esta noite, amanhã de manhã verá algo que nunca imaginou. João deveria ter desconfiado. Mas os feijões brilhavam tão lindamente que ele entregou a corda da Moreninha sem pensar duas vezes.

Quando chegou em casa sem dinheiro e com apenas cinco feijões na mão, a mãe ficou furiosa. — Cinco feijões?! Você trocou nossa única vaca por feijões?! — Mas eles são mágicos, mãe. O senhor prometeu. — Mágicos — repetiu ela, e a voz tremeu no meio da palavra. Ela chorou de raiva e desespero, abriu a janela, jogou os feijões lá fora e mandou João para a cama sem jantar. João ficou deitado no quarto escuro, olhando para o teto, com o estômago roncando e o coração cheio de dúvida. Será que havia feito uma bobagem enorme? Será que aquele velhinho havia o enganado?

Acima das nuvens existia um mundo que nenhum ser humano havia visitado antes

O Pé de Feijão Gigante

Na manhã seguinte, João acordou com um barulho estranho — como se a terra estivesse gemendo. Ele correu à janela e ficou com a boca aberta. No jardim havia um pé de feijão enorme, tão alto que sua copa se perdia nas nuvens. O caule era grosso como uma árvore centenária, com folhas grandes como barcos e galhos que se entrelaçavam formando uma escada natural. João não pensou duas vezes: vestiu a roupa às pressas e começou a subir. Sua mãe gritou lá de baixo, mas ele já estava alto demais para ouvir.

Ele subiu por um tempo que pareceu horas. As mãos ficaram verdes de tanto apertar o caule, o telhado da casinha virou um lencinho lá embaixo e a luz foi ficando diferente — mais branca, mais fria. Então, de repente, ele atravessou a última nuvem e se encontrou num lugar mágico: uma terra que ficava no céu, com campos verdes, estradas de pedra branca e, ao longe, um castelo enorme feito de pedras cinzentas com janelas reluzentes.

João avista o castelo acima das nuvens

João caminhou pela estrada em direção ao castelo com o coração batendo forte. Tudo ali era grande demais: as margaridas do acostamento batiam na cintura dele, uma abelha passou zunindo do tamanho de um passarinho e o cheiro que vinha das janelas era de pão assando — um pão do tamanho de uma cama. A porta do castelo era tão alta que ele precisou deitar a cabeça para trás para enxergar o topo, e a maçaneta ficava tão longe do chão quanto a copa de uma mangueira. Antes que ele pensasse em como bater, a porta se abriu com um rangido comprido. Na porta havia uma mulher altíssima de avental, com farinha até os cotovelos. — O que você quer, menino? — perguntou ela, surpresa, agachando-se para enxergá-lo melhor. — Poderia me dar alguma coisa para comer? — pediu João com educação. — Subi a manhã inteira e não janto desde ontem. A mulher olhou para os lados nervosamente, como quem confere se as nuvens têm ouvidos. — Você não devia estar aqui. Meu marido é um gigante e come crianças no café da manhã. Vá embora! João não se mexeu. Ela suspirou, olhou para o menino magrinho, para os pés descalços dele, e acabou abrindo mais a porta. — Um pedaço de pão e um copo de leite. Depois você some daqui. Mas antes que João pudesse agradecer, o chão começou a tremer.

A mulher gigante de avental abre a porta do castelo

A galinha dos ovos de ouro e o pé de harpa eram os tesouros do gigante

A Fuga pelo Pé de Feijão

— FI-FO-FUM! Sinto cheiro de gente aqui! — rugiu uma voz enorme que sacudiu as janelas do castelo e fez as panelas de cobre baterem umas nas outras. A mulher não perdeu tempo: pegou João como quem pega um gatinho e o escondeu dentro do forno apagado, bem a tempo, encostando a portinha e deixando um dedo de fresta para ele respirar. Lá de dentro, João enxergava o mundo em forma de tira: o pé da mesa, a barra do avental, duas botas do tamanho de barcos. O gigante entrou esbaforido, olhou em volta desconfiado e farejou o ar três vezes. — Tem gente aqui, mulher. Meu nariz nunca erra. — Seu nariz está é com fome — respondeu ela, com a calma de quem fala do tempo. — Deve ser o cheiro do ensopado — e continuou mexendo a panela sem olhar nem uma vez para o forno. O gigante resmungou alguma coisa e jantou tudo o que havia na mesa. Depois bateu a mão espalmada na madeira e ordenou à galinha: — Põe! A galinha, uma senhora galinha branca e gorducha, ajeitou-se, deu duas voltinhas e botou um ovo de ouro brilhante que rolou pela mesa e parou fazendo um barulhinho de sino. Dentro do forno, João prendeu a respiração. Nunca tinha visto nada tão bonito na vida inteira.

A galinha branca bota um ovo de ouro na mesa e o menino espia do forno

O gigante sorriu satisfeito e adormeceu na cadeira logo depois do jantar, roncando tão alto que os copos na prateleira trepidavam e uma teia de aranha no canto balançava feito rede. João esperou o ronco ficar bem compassado, contou até dez e empurrou a portinha do forno. Saiu na ponta dos pés, atravessou o assoalho pisando nas juntas das tábuas para não fazer barulho, pegou a galinha debaixo do braço — ela nem cacarejou, só piscou — e correu para fora do castelo em disparada. Quando chegou em casa e a mãe viu aquela galinha, ela já ia começar a brigar de novo. Mas a galinha se ajeitou no colo dela, deu duas voltinhas e botou um ovo de ouro. A mãe de João sentou-se no chão da cozinha e não achou uma palavra para dizer.

Ele voltou outros dias ao castelo, sempre escondendo-se do gigante e sempre com a ajuda calada da mulher de avental, que fingia não ver nada. Na segunda visita, conseguiu um saco de moedas de ouro que o gigante contava toda tarde e nunca terminava de contar. Antes de sair, ela lhe entregou um pão embrulhado num pano e disse baixinho que aquela era a última vez — e as duas vezes seguintes também foram a última vez. João atravessou o campo de nuvens de madrugada com o saco nas costas, ouvindo as moedas conversarem baixinho a cada passo.

O menino atravessa as nuvens com um saco de moedas

Na terceira visita, ele avistou uma harpa mágica de ouro que tocava sozinha lindas melodias. Era ela que embalava o sono do gigante: as cordas se moviam sem que ninguém encostasse nelas, como se soubessem todas as músicas de cor. A melodia era tão bonita que João ficou parado no meio da cozinha escutando, e por um instante esqueceu completamente por que tinha subido até ali. Pensou na mãe, no jardim, na casinha lá embaixo, e pensou que uma música daquelas ficaria bem nas noites de inverno. João esperou o ronco começar, subiu no banco, depois na mesa, e abraçou a harpa com todo o cuidado do mundo. Foi aí que ela gritou: — Amo! Amo! E gritou de novo, mais alto, até o castelo inteiro acordar junto: as panelas de cobre balançaram nos ganchos, os copos pularam na prateleira e a mulher de avental, sem que ninguém percebesse, deixou a porta dos fundos aberta. O gigante acordou rugindo e saiu correndo atrás de João com passadas enormes que sacudiam a terra. João correu mais rápido que nunca — mais rápido do que quando corria dos cachorros do vizinho, mais rápido do que ele mesmo achava que sabia correr. Atravessou a estrada de pedra branca, mergulhou nas nuvens, chegou ao pé de feijão e começou a descer deslizando pelo caule, com a harpa apertada contra o peito e as folhas enormes batendo no rosto dele a cada solavanco.

O menino desce pelo caule abraçado à harpa dourada

— Mãe! Mãe! Traz o machado! — ele gritava enquanto descia, e a própria voz voltava para ele multiplicada pelo vale. Sua mãe correu com o machado e ficou esperando de pé no meio do jardim, os olhos grudados nas nuvens. Assim que João chegou ao chão, ele mesmo pegou o cabo e deu golpes furiosos no tronco. As folhas grandes chacoalhavam, os feijões chocalhavam dentro das vagens e, lá em cima, o pé de feijão inteiro balançava como o mastro de um navio. O gigante já estava pela metade do pé de feijão quando o caule começou a ranger, rachar e — crac! — o pé de feijão tombou do céu até o chão, levantando uma poeira que demorou uma tarde inteira para assentar. O gigante caiu tão longe que nunca mais voltou.

João e sua mãe ficaram com a galinha dos ovos de ouro, o saco de moedas e a harpa que tocava sozinha músicas alegres. Com tantas riquezas, eles compraram uma casa maior, um jardim bonito e nunca mais passaram necessidade. No lugar onde o pé de feijão tinha nascido sobrou apenas um toco largo e liso, que virou mesa de piquenique no verão seguinte. João plantou alface e cenoura em volta dele — coisas comuns, que crescem devagar e não passam das nuvens. Nas tardes de sol, a mãe estendia o pano no varal, a galinha cochilava na sombra e a harpa tocava sozinha, só de contente.

Mãe e filho no jardim da casa nova com a galinha

João aprendeu que a coragem compensa, mas também que às vezes é preciso pensar antes de agir — vender a Moreninha por feijões, por mais que o fim tivesse sido feliz, foi uma decisão precipitada. Mas no fundo, ele sempre foi grato àquele velhinho de chapéu torto que havia lhe dado uma chance de mudar a própria história.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Trocar a vaca por cinco feijões foi uma boa ideia ou uma péssima ideia?
  2. O João subiu num pé de feijão sem saber o que tinha em cima. Você teria subido?
  3. O que você plantaria, se tivesse uma semente mágica?

Sobre esta história

João e o Pé de Feijão é um conto da tradição oral inglesa. A primeira versão impressa conhecida é de Benjamin Tabart, de 1807, e a versão que se popularizou pelo mundo é a de Joseph Jacobs, publicada em 1890 na coletânea English Fairy Tales.

Perguntas frequentes sobre João e o Pé de Feijão

Qual é a moral de João e o Pé de Feijão?

Que coragem e curiosidade abrem caminhos que a prudência sozinha não abriria. A história também é boa para conversar sobre riscos: nem toda troca esquisita dá certo, e vale perguntar à criança o que ela teria feito.

Quem escreveu João e o Pé de Feijão?

É um conto popular inglês, sem autor único. A versão mais conhecida foi registrada por Joseph Jacobs em 1890.

Para que idade essa história é indicada?

A partir dos 5 anos. O gigante causa tensão, mas a nossa versão evita descrições assustadoras e termina com João em segurança em casa.

Que tal a história de amanhã?