
João e o Pé de Feijão
João troca a vaquinha da família por cinco feijões mágicos. Na manhã seguinte, um pé de feijão gigante toca as nuvens…
Cinco feijões mágicos — pequenos por fora, mas com um poder enorme por dentro
Era uma vez um garoto chamado João que morava com sua mãe numa casinha modesta, no fim de uma estrada de terra. Eram muito pobres — tão pobres que a única coisa que tinham de valor era uma vaca chamada Moreninha. Moreninha tinha uma mancha branca na testa parecida com um coração torto e um jeito manso de encostar o focinho no ombro de João. Ela dava leite toda manhã e era com esse leite que João e sua mãe compravam pão, queijo e os outros alimentos de que precisavam para sobreviver. Mas um dia, Moreninha parou de dar leite. João tentou de manhã, tentou à tarde, conversou baixinho com ela, prometeu capim novo — e o balde continuou vazio. A mãe de João olhou para a despensa quase vazia e ficou desesperada. — Filho, não temos mais escolha. Você vai ter que vender a Moreninha no mercado. Com o dinheiro, podemos comprar comida para alguns meses e pensar num plano. João ficou triste — gostava muito da vaquinha — mas sabia que a mãe tinha razão.
Os Feijões Mágicos
João pegou a Moreninha pela corda e foi caminhando pela estrada em direção ao mercado. No caminho, encontrou um senhor velhinho de chapéu torto e olhos espertos, sentado numa pedra como quem esperava ali havia muito tempo, que o parou com um sorriso misterioso. — Aonde você vai com essa vaca tão bonita, rapaz? João explicou que ia vendê-la — e explicou também, sem querer, todo o resto: o leite que secou, a despensa vazia, a mãe preocupada. O velhinho mexeu no bolso do colete e tirou cinco feijões coloridos que brilhavam de um jeito estranho na palma da mão. — E se eu te oferecer esses cinco feijões em troca da sua vaca? São feijões mágicos — se você os plantar esta noite, amanhã de manhã verá algo que nunca imaginou. João deveria ter desconfiado. Mas os feijões brilhavam tão lindamente que ele entregou a corda da Moreninha sem pensar duas vezes.
Quando chegou em casa sem dinheiro e com apenas cinco feijões na mão, a mãe ficou furiosa. — Cinco feijões?! Você trocou nossa única vaca por feijões?! — Mas eles são mágicos, mãe. O senhor prometeu. — Mágicos — repetiu ela, e a voz tremeu no meio da palavra. Ela chorou de raiva e desespero, abriu a janela, jogou os feijões lá fora e mandou João para a cama sem jantar. João ficou deitado no quarto escuro, olhando para o teto, com o estômago roncando e o coração cheio de dúvida. Será que havia feito uma bobagem enorme? Será que aquele velhinho havia o enganado?
Acima das nuvens existia um mundo que nenhum ser humano havia visitado antes
O Pé de Feijão Gigante
Na manhã seguinte, João acordou com um barulho estranho — como se a terra estivesse gemendo. Ele correu à janela e ficou com a boca aberta. No jardim havia um pé de feijão enorme, tão alto que sua copa se perdia nas nuvens. O caule era grosso como uma árvore centenária, com folhas grandes como barcos e galhos que se entrelaçavam formando uma escada natural. João não pensou duas vezes: vestiu a roupa às pressas e começou a subir. Sua mãe gritou lá de baixo, mas ele já estava alto demais para ouvir.
Ele subiu por um tempo que pareceu horas. As mãos ficaram verdes de tanto apertar o caule, o telhado da casinha virou um lencinho lá embaixo e a luz foi ficando diferente — mais branca, mais fria. Então, de repente, ele atravessou a última nuvem e se encontrou num lugar mágico: uma terra que ficava no céu, com campos verdes, estradas de pedra branca e, ao longe, um castelo enorme feito de pedras cinzentas com janelas reluzentes.

João caminhou pela estrada em direção ao castelo com o coração batendo forte. Tudo ali era grande demais: as margaridas do acostamento batiam na cintura dele, uma abelha passou zunindo do tamanho de um passarinho e o cheiro que vinha das janelas era de pão assando — um pão do tamanho de uma cama. A porta do castelo era tão alta que ele precisou deitar a cabeça para trás para enxergar o topo, e a maçaneta ficava tão longe do chão quanto a copa de uma mangueira. Antes que ele pensasse em como bater, a porta se abriu com um rangido comprido. Na porta havia uma mulher altíssima de avental, com farinha até os cotovelos. — O que você quer, menino? — perguntou ela, surpresa, agachando-se para enxergá-lo melhor. — Poderia me dar alguma coisa para comer? — pediu João com educação. — Subi a manhã inteira e não janto desde ontem. A mulher olhou para os lados nervosamente, como quem confere se as nuvens têm ouvidos. — Você não devia estar aqui. Meu marido é um gigante e come crianças no café da manhã. Vá embora! João não se mexeu. Ela suspirou, olhou para o menino magrinho, para os pés descalços dele, e acabou abrindo mais a porta. — Um pedaço de pão e um copo de leite. Depois você some daqui. Mas antes que João pudesse agradecer, o chão começou a tremer.

A galinha dos ovos de ouro e o pé de harpa eram os tesouros do gigante
A Fuga pelo Pé de Feijão
— FI-FO-FUM! Sinto cheiro de gente aqui! — rugiu uma voz enorme que sacudiu as janelas do castelo e fez as panelas de cobre baterem umas nas outras. A mulher não perdeu tempo: pegou João como quem pega um gatinho e o escondeu dentro do forno apagado, bem a tempo, encostando a portinha e deixando um dedo de fresta para ele respirar. Lá de dentro, João enxergava o mundo em forma de tira: o pé da mesa, a barra do avental, duas botas do tamanho de barcos. O gigante entrou esbaforido, olhou em volta desconfiado e farejou o ar três vezes. — Tem gente aqui, mulher. Meu nariz nunca erra. — Seu nariz está é com fome — respondeu ela, calma como quem fala do tempo. — Deve ser o cheiro do ensopado — e continuou mexendo a panela sem olhar nem uma vez para o forno. O gigante resmungou alguma coisa e jantou tudo o que havia na mesa. Depois bateu a mão espalmada na madeira e ordenou à galinha: — Põe! A galinha, uma senhora galinha branca e gorducha, ajeitou-se, deu duas voltinhas e botou um ovo de ouro brilhante que rolou pela mesa e parou fazendo um barulhinho de sino. Dentro do forno, João prendeu a respiração. Nunca tinha visto nada tão bonito na vida inteira.

O gigante sorriu satisfeito e adormeceu na cadeira logo depois do jantar, roncando tão alto que os copos na prateleira trepidavam e uma teia de aranha no canto balançava feito rede. João esperou o ronco ficar bem compassado, contou até dez e empurrou a portinha do forno. Saiu na ponta dos pés, atravessou o assoalho pisando nas juntas das tábuas para não fazer barulho, pegou a galinha debaixo do braço — ela nem cacarejou, só piscou — e correu para fora do castelo em disparada. Quando chegou em casa e a mãe viu aquela galinha, ela já ia começar a brigar de novo. Mas a galinha se ajeitou no colo dela, deu duas voltinhas e botou um ovo de ouro. A mãe de João sentou-se no chão da cozinha e não achou uma palavra para dizer.
Ele voltou outros dias ao castelo, sempre escondendo-se do gigante e sempre com a ajuda calada da mulher de avental, que fingia não ver nada. Na segunda visita, conseguiu um saco de moedas de ouro que o gigante contava toda tarde e nunca terminava de contar. Antes de sair, ela lhe entregou um pão embrulhado num pano e disse baixinho que aquela era a última vez — e as duas vezes seguintes também foram a última vez. João atravessou o campo de nuvens de madrugada com o saco nas costas, ouvindo as moedas conversarem baixinho a cada passo.

Na terceira visita, ele avistou uma harpa mágica de ouro que tocava sozinha lindas melodias. Era ela que embalava o sono do gigante: as cordas se moviam sem que ninguém encostasse nelas, como se soubessem todas as músicas de cor. A melodia era tão bonita que João ficou parado no meio da cozinha escutando, e por um instante esqueceu completamente por que tinha subido até ali. Pensou na mãe, no jardim, na casinha lá embaixo, e pensou que uma música daquelas ficaria bem nas noites de inverno. João esperou o ronco começar, subiu no banco, depois na mesa, e abraçou a harpa com todo o cuidado do mundo. Foi aí que ela gritou: — Amo! Amo! E gritou de novo, mais alto, até o castelo inteiro acordar junto: as panelas de cobre balançaram nos ganchos, os copos pularam na prateleira e a mulher de avental, sem que ninguém percebesse, deixou a porta dos fundos aberta. O gigante acordou rugindo e saiu correndo atrás de João com passadas enormes que sacudiam a terra. João correu mais rápido que nunca — mais rápido do que quando corria dos cachorros do vizinho, mais rápido do que ele mesmo achava que sabia correr. Atravessou a estrada de pedra branca, mergulhou nas nuvens, chegou ao pé de feijão e começou a descer deslizando pelo caule, com a harpa apertada contra o peito e as folhas enormes batendo no rosto dele a cada solavanco.

— Mãe! Mãe! Traz o machado! — ele gritava enquanto descia, e a própria voz voltava para ele multiplicada pelo vale. Sua mãe correu com o machado e ficou esperando de pé no meio do jardim, os olhos grudados nas nuvens. Assim que João chegou ao chão, ele mesmo pegou o cabo e deu golpes furiosos no tronco. As folhas grandes chacoalhavam, os feijões chocalhavam dentro das vagens e, lá em cima, o pé de feijão inteiro balançava como o mastro de um navio. O gigante já estava pela metade do pé de feijão quando o caule começou a ranger, rachar e — crac! — o pé de feijão tombou do céu até o chão, levantando uma poeira que demorou uma tarde inteira para assentar. O gigante caiu tão longe que nunca mais voltou.
João e sua mãe ficaram com a galinha dos ovos de ouro, o saco de moedas e a harpa que tocava sozinha músicas alegres. Com tantas riquezas, eles compraram uma casa maior, um jardim bonito e nunca mais passaram necessidade. No lugar onde o pé de feijão tinha nascido sobrou apenas um toco largo e liso, que virou mesa de piquenique no verão seguinte. João plantou alface e cenoura em volta dele — coisas comuns, que crescem devagar e não passam das nuvens. Nas tardes de sol, a mãe estendia o pano no varal, a galinha cochilava na sombra e a harpa tocava sozinha, só de contente.

João aprendeu que a coragem compensa, mas também que às vezes é preciso pensar antes de agir — vender a Moreninha por feijões, por mais que o fim tivesse sido feliz, foi uma decisão precipitada. Mas no fundo, ele sempre foi grato àquele velhinho de chapéu torto que havia lhe dado uma chance de mudar a própria história.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Trocar a vaca por cinco feijões foi uma boa ideia ou uma péssima ideia?
- O João subiu num pé de feijão sem saber o que tinha em cima. Você teria subido?
- O que você plantaria, se tivesse uma semente mágica?
Sobre esta história
João e o Pé de Feijão é um conto da tradição oral inglesa. A primeira versão impressa conhecida é de Benjamin Tabart, de 1807, e a versão que se popularizou pelo mundo é a de Joseph Jacobs, publicada em 1890 na coletânea English Fairy Tales.
Perguntas frequentes sobre João e o Pé de Feijão
Qual é a moral de João e o Pé de Feijão?
Que coragem e curiosidade abrem caminhos que a prudência sozinha não abriria. A história também é boa para conversar sobre riscos: nem toda troca esquisita dá certo, e vale perguntar à criança o que ela teria feito.
Quem escreveu João e o Pé de Feijão?
É um conto popular inglês, sem autor único. A versão mais conhecida foi registrada por Joseph Jacobs em 1890.
Para que idade essa história é indicada?
A partir dos 5 anos. O gigante causa tensão, mas a nossa versão evita descrições assustadoras e termina com João em segurança em casa.


