Contos para Dormir
Ilustração do conto Cachinhos Dourados e os Três Ursos

Cachinhos Dourados e os Três Ursos

Uma casinha na floresta, três tigelas de mingau e uma menina muito curiosa. O que acontece quando os donos chegam em casa?

Equipe Contos para Dormir ·

A floresta convidava quem tinha curiosidade — mas nem tudo que brilha é seguro

Era uma vez uma menina de cabelos dourados e encaracolados chamada Cachinhos Dourados. Seus cachos brilhavam ao sol como fios de ouro, e seus olhos azuis tinham sempre um brilho curioso e inquieto. Ela morava com seus pais numa casa aconchegante perto de uma floresta e tinha o costume de explorar tudo ao redor — jardins, riachos, pedras, galhos. Se um passarinho cantava atrás da cerca, ela ia na ponta dos pés espiar de que cor ele era.

Sua mãe sempre dizia: — Cachinhos, a floresta é bonita mas tem segredos. Nunca entre sem avisar!

Mas mãe, — respondia a menina, sacudindo os cachos, — e se os segredos forem bonitos?

Bonitos ou não, eles não são seus — dizia a mãe, prendendo uma mecha atrás da orelha da filha. — Prometa que hoje você fica no campo.

Cachinhos prometia. Prometia sempre que era mandada. Mas a floresta a chamava com seu verde profundo e seus sons misteriosos como um convite irresistível.

A Casinha dos Três Ursos

O que Cachinhos não sabia é que, bem no meio daquela floresta, existia uma casinha. E nela morava uma família de três ursos: Papai Urso, grande e de voz grossa como um trovão manso; Mamãe Ursa, que fazia o melhor mingau de canela e mel do bosque; e Bebê Urso, pequeno, de voz fininha, dono de uma caminha só dele com cobertor de retalhos. Naquela manhã o mingau tinha saído quente demais, e Mamãe Ursa sugeriu um passeio até o riacho enquanto as tigelas esfriavam. Os três saíram em fila pela porta da frente, deixando a casa quieta e o cheiro doce de canela pairando no ar.

Naquela manhã, nenhum dos três imaginava a surpresa que encontraria ao voltar para casa

Os três ursos encontram Cachinhos Dourados dormindo

Enquanto isso, do outro lado do campo, naquela mesma manhã de sol bonito, Cachinhos tinha saído para colher flores perto de casa. Colheu margaridas, depois papoulas, depois umas florzinhas azuis que nunca tinha visto antes — e essas cresciam sempre um pouquinho mais adiante, e mais adiante, e mais adiante ainda. Sem perceber, foi se afastando, se afastando, até que a grama virou musgo e o musgo virou sombra fresca: ela havia entrado no bosque.

Lá dentro, tudo era diferente. O ar cheirava a terra molhada e a pinha, os passarinhos conversavam bem alto lá em cima e a luz descia entre as folhas em riscos dourados. Cachinhos parou, prendeu a respiração e escutou: havia água correndo em algum lugar que ela não conseguia ver. Mais longe, um pica-pau batia num tronco com um tec-tec-tec bem certinho, como se estivesse chamando alguém. Entre as árvores, Cachinhos encontrou um caminho coberto de folhas secas que estalavam sob seus sapatos. O caminho subia, dava uma curva e terminava numa clareira. E no meio da clareira havia uma casinha pequena e encantadora, com telhado de telhas vermelhas, janelas de madeira pintadas de branco e uma roseira subindo pela parede.

Que casinha linda! — sussurrou Cachinhos, apertando o buquê contra o peito.

Ela olhou em volta. Não havia ninguém. Bateu na porta: toc, toc, toc. Ninguém respondeu. Bateu outra vez, mais forte. Só o vento respondeu, balançando as rosas. Curiosa demais para resistir, ela empurrou a porta, que se abriu devagar com um chiado suave.

Cachinhos Dourados empurrando a porta de uma casinha de telhado vermelho na floresta

Lá dentro, o cheiro de canela era tão gostoso que a barriga de Cachinhos roncou alto. No meio da cozinha havia uma mesa de madeira e, sobre ela, três tigelas de mingau: uma grande, uma média e uma pequena, cada uma com sua colher.

Só um pouquinho — disse Cachinhos para si mesma, deixando o buquê de flores num canto da mesa. — Ninguém vai notar.

Provou a tigela grande, que era funda como uma bacia e soltava fiapos de vapor. O mingau estava tão quente que ela soprou, soprou, e mesmo assim fez uma careta e ficou abanando a língua.

Provou a tigela média. Essa estava fria demais, grudenta, com uma casquinha por cima que a colher precisava furar. — Também não — disse ela, torcendo o nariz, e devolveu a colher no lugar.

Então provou a tigela pequena. Ah, essa estava perfeita: quentinha na medida certa, com gostinho de canela e mel e pedacinhos de maçã no fundo. Cachinhos fechou os olhos de tanto gosto. Tomou uma colherada, depois outra, depois mais uma — e quando deu por si tinha comido tudo e estava raspando o fundo da tigela.

Por um instante ficou olhando o vazio branco da tigela, sem jeito, e pensou que talvez devesse ter perguntado antes. Mas logo limpou a boca na manga e se virou para conhecer o resto da casa. Foi então que viu, ao lado da lareira, três cadeiras enfileiradas: uma grande, uma média e uma bem pequenininha, com uma almofada de bolinhas em cima.

Três cadeiras de tamanhos diferentes enfileiradas ao lado da lareira

A cadeira grande era dura demais e tão alta que Cachinhos precisou se pendurar para subir. Sentada ali, seus pés balançavam longe do chão e o encosto de madeira machucava suas costas. Do alto daquela cadeira a cozinha inteira parecia menor, e por um momento ela até imaginou como seria almoçar naquela casa todos os dias.

Essa não serve — decidiu, escorregando de volta para o chão.

A cadeira do meio era estofada, mas macia demais: quando ela se acomodou, afundou tanto que quase desapareceu no meio das almofadas e precisou se sacudir para conseguir sair.

Essa engole a gente! — riu, ajeitando o vestido.

Sobrou a cadeirinha pequena, do tamanho exato dela. Cachinhos se sentou e sorriu: os pés alcançavam o chão, o encosto encaixava direitinho nas costas e a almofada de bolinhas parecia feita sob medida. Ficou ali balançando os pés, feliz, imaginando quem seria o dono de uma cadeira tão confortável. A casa estava tão silenciosa que dava para ouvir o relógio da parede fazendo tique-taque. Balançou para a frente. Balançou para trás. Balançou mais um pouquinho, e um pouquinho mais…

Crack!

A cadeirinha se partiu embaixo dela e Cachinhos foi parar sentada no chão, no meio dos pedaços, com o coração batendo depressa. Ela levou as mãos à boca. Os pedacinhos de madeira ficaram espalhados pelo tapete como um quebra-cabeça desmontado. Por um instante pensou em juntar tudo, pedir desculpas e sair correndo — mas a casa continuava tão quieta e tão convidativa que a curiosidade falou mais alto outra vez.

Cachinhos Dourados sentada no chão ao lado da cadeirinha quebrada, com cara de susto

As Três Camas

Cachinhos levantou do chão esfregando o cotovelo dolorido e foi explorar, na ponta dos pés, o restante da casinha. Subiu uma escadinha estreita de madeira em que cada degrau fazia um estalo diferente — tec, toc, tec —, como se a casa inteira estivesse conversando baixinho com ela. Lá em cima encontrou um quarto de teto inclinado, com uma janelinha redonda e três camas lado a lado. O quarto cheirava a madeira e a lençol lavado, havia um tapete redondo no meio e as três camas tinham a mesma colcha em três tamanhos, como três degraus de uma escada. Pela janelinha dava para ver a copa das árvores balançando devagar, e um raio de sol atravessava o assoalho até o pé da cama menor.

A cama grande tinha um colchão duro como pedra. Cachinhos subiu com esforço, deitou, virou de um lado, virou do outro e desistiu: era como dormir em cima de uma tábua.

Como é que alguém consegue dormir aqui? — perguntou ela ao teto, esfregando as costas.

A cama do meio tinha tantos travesseiros e tantos edredons que, quando ela deitou, afundou até só aparecerem os cachos dourados e a pontinha do nariz. Os edredons cheiravam a lã limpa, e por um momento Cachinhos ficou bem quietinha ali dentro, escutando o próprio coração naquele ninho de penas. Mas cada vez que tentava se virar afundava mais um pouquinho, até que só sobrou rir sozinha e sacudir as pernas para se soltar; naquela cama também não dava para descansar.

Cachinhos Dourados afundando entre os travesseiros fofos da cama do meio

Sobrou a caminha pequena, a última do canto, coberta com um cobertor de retalhos. Cachinhos deitou só para sentir como era. O colchão era macio na medida certa, o travesseiro era fofinho e tudo cheirava a lavanda. Lá fora, o vento passava pelas folhas da roseira fazendo um barulhinho macio, parecido com o de uma chuva mansa. Ela pensou em levantar. Pensou em voltar para casa. Pensou em contar tudo para a mãe… e seus olhos foram fechando, fechando, fechando, até que ela adormeceu profundamente, com o buquê de flores ainda na mão.

A caminha pequena era perfeita — tão perfeita que Cachinhos nem percebeu que adormeceu

Os Ursos Voltam do Passeio

Enquanto ela dormia, os três ursos voltaram do passeio pela floresta, com fome e conversando alto sobre as pedras do riacho. Bebê Urso foi o primeiro a entrar, de tão faminto. Papai Urso pendurou o cachecol no gancho da porta, farejou o ar e parou no meio do caminho. Então disse, com voz grossa: — Alguém comeu meu mingau!

Mamãe Ursa olhou para a sua tigela, com a colher fora do lugar: — Alguém comeu meu mingau também!

E Bebê Urso, com voz fininha e triste, apontou para a tigela raspada: — Alguém comeu meu mingau todo!

Em seguida viram as cadeiras. — Alguém sentou na minha cadeira! — disse Papai Urso, olhando a almofada amassada. — Na minha também! — disse Mamãe Ursa, endireitando o estofado. — E quebrou a minha! — choramingou Bebê Urso, ajoelhado no meio dos pedacinhos de madeira.

Os três ursos surpresos na cozinha diante das tigelas vazias e da cadeirinha quebrada

Os três ursos subiram a escada e encontraram uma surpresa inesperada

O Despertar de Cachinhos

Os três subiram a escadinha de madeira devagar, um atrás do outro. Papai Urso olhou para a cama dele, com o cobertor todo amassado: — Alguém dormiu na minha cama! Mamãe Ursa olhou para a dela, com os travesseiros fora do lugar: — Alguém dormiu na minha cama também! E então Bebê Urso chegou pertinho da caminha do canto e viu Cachinhos ali, dormindo com os cachos dourados espalhados no travesseiro. Sua voz saiu tão fina e surpreendida que acordou a menina na hora: — Alguém está dormindo na minha caminha!

Cachinhos abriu os olhos e levou um susto enorme ao ver três ursos enormes olhando para ela. Ela deu um grito, saltou da cama tão rápido quanto conseguiu, desceu a escada correndo, abriu a porta e saiu pela floresta em disparada, sem olhar para trás.

Os três ursos ficaram olhando pela janela, surpresos, enquanto os cachinhos dourados iam desaparecendo entre as árvores. Cachinhos correu, correu e correu até finalmente sair da floresta e enxergar a chaminé da sua casa fumegando ao longe. Ela entrou pela porta arquejando e pulou nos braços da mãe, que ficou pálida ao vê-la tão agitada. Cachinhos contou tudo — a casinha, o mingau, as cadeiras, as camas e os ursos. A mãe a escutou com paciência e depois disse com voz firme mas carinhosa: — Entrar na casa de alguém sem permissão, comer a comida deles e dormir nas camas deles foi errado, Cachinhos. Você entende isso, não é? Cachinhos baixou a cabeça envergonhada e assentiu. — Os ursos não eram maus, — ela disse baixinho. — Só ficaram assustados, como eu fiquei. A mãe sorriu e a abraçou. — Exatamente. A partir de agora, respeite o que pertence aos outros — e sempre peça antes de entrar.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. A Cachinhos entrou numa casa sem ser convidada. O que ela deveria ter feito?
  2. Como você acha que os ursos se sentiram ao chegar em casa?
  3. Se alguém mexesse nas suas coisas sem pedir, o que você diria?

Sobre esta história

A história foi publicada pela primeira vez pelo inglês Robert Southey, em 1837 — mas com uma diferença curiosa: a invasora não era uma menina, e sim uma velha. A troca pela menina de cachos dourados aconteceu em versões posteriores, ao longo do século XIX, e foi ela que ficou.

Perguntas frequentes sobre Cachinhos Dourados e os Três Ursos

Qual é a moral de Cachinhos Dourados?

Respeitar o espaço e as coisas dos outros. É uma das primeiras histórias em que a criança consegue perceber sozinha que a personagem principal está errada — o que a torna ótima para conversar sobre limites.

Quem escreveu Cachinhos Dourados e os Três Ursos?

Robert Southey publicou a primeira versão escrita em 1837, na Inglaterra. Nela a personagem era uma velha; a menina de cachos dourados apareceu em versões posteriores.

Essa história é boa para crianças pequenas?

Muito. A repetição das três tigelas, três cadeiras e três camas ajuda crianças de 3 a 6 anos a acompanhar a narrativa e a antecipar o que vem — o que dá segurança na hora de dormir.

Que tal a história de amanhã?