Contos para Dormir
Ilustração do conto O Barquinho do Lençol

O Barquinho do Lençol

Quando a criança se deita e fica bem quietinha, a cama solta as amarras e sai navegando pelo mar do quarto.

Equipe Contos para Dormir ·

Toda cama é um barco. Só que ela espera a casa dormir para sair do lugar

Você já reparou que a cama tem o formato de um barco?

Tem mesmo. Olha bem.

O colchão é o fundo.

As beiradas são as laterais.

O travesseiro é o lugar de encostar a cabeça e olhar o céu.

E o lençol, quando alguém puxa ele até o queixo, faz um bico bem em cima do peito — igualzinho a uma vela pegando vento.

A cama é um barco. Sempre foi.

O que acontece é que ela só sai do lugar quando ninguém está olhando.

Uma cama de criança vista de lado, com o lençol formando uma vela e o quarto em penumbra azul

As Amarras

O barquinho fica amarrado o dia inteiro.

De manhã ele está amarrado porque a criança pula em cima dele.

De tarde ele está amarrado porque ninguém arrumou a coberta.

De noite, na hora do banho, ele está amarrado porque tem roupa jogada por cima.

E quando a criança deita, no começo ele continua amarrado — porque ela ainda está se virando de um lado para o outro, ainda está com a perna para fora, ainda está pedindo água.

Barco não sai com gente se mexendo em cima.

Mas aí a criança para.

Ela fica de barriga para cima, com o cobertor até o queixo, e os pés param de balançar.

E é nesse minutinho, exatamente nesse, que as amarras se soltam.

Primeiro uma.

Depois a outra.

E o barquinho começa a se mexer bem devagarinho, tão devagar que quase não dá para sentir.

O Mar do Quarto

O chão do quarto virou água.

Não é água molhada. É água escura, macia, que faz aquele barulhinho de quando a gente sopra dentro de um copo.

O tapete virou uma ilha pequena.

O cesto de brinquedo virou uma pedra no meio do mar.

A porta do armário, entreaberta, virou a entrada de uma caverna que ninguém nunca explorou.

E o barquinho passa no meio de tudo isso, balançando.

Balança para um lado.

Balança para o outro.

Passa pela ilha do tapete.

Balança para um lado.

Balança para o outro.

Passa pela pedra do cesto.

O bicho de pelúcia vai junto, sentado na proa, olhando para a frente como quem sabe o caminho.

Um quarto escuro onde o chão virou mar calmo, com uma cama navegando entre o tapete e o cesto de brinquedos

A Viagem

O barquinho sai do quarto pela porta.

Navega pelo corredor, que é um canal comprido e estreito.

Passa devagar pela sala, onde o sofá é um rochedo grande e escuro.

Passa pela cozinha, onde a geladeira faz um ronco de motor de navio.

E aí chega na janela.

A janela está aberta um dedinho, do jeito que ficou.

O barquinho passa por ela sem encostar em nada, e de repente está lá fora.

Lá fora o mar é enorme.

Tem o telhado dos vizinhos, que agora são ilhas de telha.

Tem a rua, que virou um rio largo e calmo.

Tem a Lua lá em cima, redonda, servindo de farol.

E o barquinho não está sozinho.

Se olhar bem, dá para ver outros.

Tem um barquinho saindo da janela da casa azul, com um menino dentro.

Tem outro vindo do prédio da esquina, devagarinho, com duas irmãs no mesmo colchão.

Tem um bem pequenininho, de berço, que não vai longe — fica ali por perto, dando voltinhas curtas, porque quem dorme nele ainda é muito novo para viagem grande.

Todos navegando na mesma noite, no mesmo mar, sem se esbarrar nunca.

Os barquinhos não conversam. Barco não precisa conversar.

Eles só passam um pelo outro, balançam juntos por um instante e seguem cada um para o seu lado.

E o barquinho vai indo, sem pressa nenhuma, balançando para um lado e para o outro.

Não precisa chegar em lugar nenhum.

Esse é o segredo do barquinho do lençol: ele não vai para um lugar. Ele só navega.

Balança para um lado.

Balança para o outro.

E a cada balanço a criança fica um pouquinho mais pesada, um pouquinho mais funda, um pouquinho mais longe.

Até que o barquinho volta sozinho, pela mesma janela, pelo mesmo corredor, pela mesma porta.

Encosta no lugar de sempre.

Amarra as duas amarras de novo, com todo o cuidado.

E fica ali, quietinho, esperando a próxima vez em que alguém deitar e ficar bem parado.

Boa viagem. 🌙

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Para onde o seu barquinho iria hoje à noite?
  2. O que você levaria na viagem?
  3. Você prefere navegar no mar calmo ou nas ondas grandes?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir. A ideia da cama que vira barco aparece na literatura infantil desde sempre, e aqui ela é usada de um jeito bem específico: a viagem só começa quando o corpo para de se mexer, o que dá à criança um motivo para ficar quieta que não é uma ordem.

Perguntas frequentes sobre O Barquinho do Lençol

Quanto tempo leva para ler esta história?

Cerca de 6 minutos em voz alta, num ritmo bem lento. É uma das histórias curtas do site, feita para as noites em que já passou da hora.

Para que idade é indicada?

Dos 2 aos 6 anos. As frases são curtas e muito repetitivas, o que ajuda os pequenininhos a acompanhar. Crianças maiores costumam gostar de completar a viagem inventando o próprio destino.

Esta história é assustadora?

Não. O mar da história é sempre calmo, não existe tempestade nem perigo, e o barquinho não se perde em momento nenhum. É uma viagem tranquila que começa e termina na mesma cama.

Serve para criança que não para quieta na cama?

É justamente para isso. Na história, o barco só solta as amarras quando o corpo fica parado — então ficar quietinho vira parte da brincadeira, e não uma ordem do adulto.

Que tal a história de amanhã?