Contos para Dormir
Ilustração do conto A Menina que Falava com a Chuva

A Menina que Falava com a Chuva

Enquanto todos correm da chuva, Clarinha conversa com ela. E a chuva, que ninguém escutava, tem histórias lindas para contar.

Equipe Contos para Dormir ·

Era uma vez, uma menina que ouvia segredos que ninguém mais conseguia escutar…

Em Ribeirão das Pedras, uma cidadezinha abraçada por morros cobertos de bambu e mangueiras antigas, vivia uma menina chamada Lara. Ela tinha nove anos, pele morena, cabelos sempre molhados de tanto correr na chuva e um par de botas de borracha amarelas que usava em qualquer estação do ano — mesmo nos dias de sol forte de agosto. A mãe de Lara achava isso excêntrico, mas havia aprendido que tentar tirar as botas amarelas de Lara era uma batalha que nunca valia a pena travar.

— Você vai cozinhar os pés dentro dessa borracha — dizia a mãe toda manhã.

— Prefiro cozinhar os pés a perder uma chuva — respondia Lara toda manhã.

Ribeirão das Pedras era o tipo de lugar onde dava para ouvir tudo: o sino da igreja rolando morro abaixo, o bambuzal rangendo à tarde como uma casa velha se ajeitando na cadeira, as mangueiras deixando cair fruta madura com um baque surdo. E, embaixo de tudo isso, o rio que dava nome à cidade, pulando de pedra em pedra.

O segredo das botas era simples: Lara precisava estar sempre pronta para a chuva. Porque a chuva, para Lara, não era apenas água caindo do céu. Era uma conversa. Desde os cinco anos, quando a primeira grande tempestade do verão a havia surpreendido no quintal da casa da avó, Lara ouvia a chuva falar.

Ela se lembrava daquele dia inteirinho: o cheiro de terra quente que subiu do chão antes da primeira gota, o trovão que veio de longe, arrastado como um móvel pesado. Qualquer criança teria corrido para dentro. Lara também quis. Mas ficou parada no meio do quintal, de coração acelerado — e então o barulho parou de ser barulho e virou frase.

Lara conversa com a chuva na varanda

Não com palavras exatamente — mas com sons que ela havia aprendido a traduzir, como quem aprende uma língua estranha e vai, aos poucos, entendendo cada nuance.

Gotinhas miúdas e rápidas diziam: estou aqui, estou aqui, estou aqui, como quem bate à porta com ansiedade. Chuva grossa e lenta murmurava histórias longas, dessas que só terminam quando a gente já está quase dormindo. A garoa fina de junho quase não falava: cochichava. E a chuva de tempestade — aquela dos trovões — gritava urgências que Lara precisava de coragem para ouvir.

Sua avó Dona Rosa, a única pessoa em quem Lara havia contado seu segredo, nunca riu dela nem uma vez.

Foi numa tarde de garoa, na cozinha da avó, com cheiro morno de café passado na hora. Lara contou tudo de um fôlego só, olhando para o oleado da mesa, com medo de encontrar aquele sorriso que os adultos dão quando acham graça sem querer magoar.

— A senhora acredita mesmo em mim? — perguntou, remexendo o café só para ter o que fazer com as mãos.

Dona Rosa demorou para responder. Foi até a janela e ficou olhando a horta encharcada.

— Acredito no que você escuta — disse. — Escutar é a coisa mais difícil que existe, minha filha. Todo mundo quer falar. Quase ninguém quer escutar.

— E se for só imaginação minha?

— Então é uma imaginação que presta atenção — respondeu a avó, rindo baixinho. — Já é bem mais do que a maioria consegue.

E completava sempre com a mesma frase, que Lara guardou para a vida inteira: Quem escuta a natureza nunca anda perdido, minha filha.

Lara e a avó Dona Rosa conversando na cozinha enquanto a garoa cai lá fora

O Aviso das Nuvens Pesadas

Num fim de tarde de março, quando o céu ficou cor de chumbo e o vento quente parou de soprar de repente — que em Ribeirão das Pedras era o sinal mais certo de chuva grossa — Lara estava sentada na varanda com um caderninho de anotações no colo.

O caderninho era pequeno, de capa verde, com os cantos empenados de tanto ter tomado água junto com a dona. Lara anotava ali o que a chuva contava, como um cientista anota observações: o dia, o tamanho das gotas, de onde vinha o vento e o que ela havia entendido.

E naquela tarde, antes de a chuva começar, ela sentiu algo diferente no ar. Uma tensão. Uma pressa. As cigarras pararam de cantar todas ao mesmo tempo, e o cheiro que subiu do chão não era o cheiro doce de terra molhada: era um cheiro seco, de coisa com sede.

Quando as primeiras gotas caíram — grandes, espessas, decididas, estourando no telhado de zinco —, Lara fechou os olhos e ficou quieta, do jeito que a avó havia ensinado: sem perguntar nada, deixando o som chegar inteiro.

A mensagem foi chegando aos poucos, como decifrar letras numa folha molhada: o rio está com sede. As pedras do fundo aparecem. Os peixes estão apertados. As raízes pedem. Já faz três anos que não chove direito aqui. Mas a culpa não é das nuvens.

Lara abriu os olhos devagar. Ficou um tempo olhando a água escorrer da calha. Depois pegou o caderninho e escreveu, com a letra mais firme que conseguiu: “O Ribeirão das Pedras está secando. E a culpa é nossa.”

Ela sabia o que estava acontecendo. Havia visto ela mesma: o córrego do Paiol, que alimentava o rio, estava sendo represado por uma obra nova. As árvores das margens estavam sendo cortadas. E ninguém parecia notar — ou, se notava, achava que era coisa de sempre, que o rio voltava sozinho, como sempre voltara.

O rio baixo, com pedras à mostra e uma régua de madeira fincada na margem

Duas semanas antes, ela havia descido até a curva do Paiol para conferir com os próprios olhos. Encontrou um banco de areia enorme onde antes existia poço fundo. E encontrou, fincada na margem barrenta, a régua de madeira que ela mesma enterrara ali, com uma marca de lápis para cada mês. A marca de janeiro estava bem no alto. A de março, quatro dedos abaixo.

A natureza falava — era preciso aprender a ouvir…

A Missão de Lara

No dia seguinte, Lara foi à escola com o caderninho embaixo do braço e procurou seu amigo Felipe, que era filho do engenheiro responsável pela obra do córrego. Felipe era um menino sério, de óculos grossos e a mania de duvidar de tudo que não tinha prova científica.

— Eu ouvi a chuva falar que o rio está morrendo — disse Lara, direto ao ponto.

Felipe ajustou os óculos e franziu a testa.

— Chuva não fala — disse ele, com a paciência de quem explica algo óbvio pela centésima vez. — Chuva é água que evapora, sobe, esfria e cai. Evaporação, condensação, precipitação. Nenhuma dessas palavras significa “conversar”.

— Eu sei. Aprendi na mesma aula que você. E mesmo assim ela me contou.

Felipe soltou o ar pelo nariz, do jeito dos adultos cansados.

— Lara…

— Eu sei que parece impossível — disse ela, sem se irritar. — Mas olha aqui.

Abriu o caderninho em cima da carteira e foi virando as páginas devagar, para ele acompanhar: as anotações dos últimos dois anos, os volumes de chuva estimados e a queda do nível do rio, medida naquela régua fincada na margem.

Lara e Felipe debruçados sobre o caderninho de anotações na carteira da escola

Felipe parou de bufar na terceira página. Na quinta, havia puxado uma cadeira. Na sétima, seguia as linhas com o dedo e nem reparava que os óculos escorregavam.

— Você mediu isso sozinha? — perguntou, baixinho.

— Toda primeira semana do mês. Menos em julho do ano passado, que eu peguei catapora.

— Pode não ser a chuva falando — continuou Lara. — Pode ser só eu prestando atenção. Tanto faz. Mas o rio está caindo de verdade. E a obra do seu pai desviou o córrego do Paiol em janeiro. Você consegue mostrar isso para ele?

Felipe ficou olhando para os dados por um longo tempo. Lá fora, o sinal do recreio tocou e nenhum dos dois se mexeu. Então guardou o caderninho na mochila de Lara, pegou o caderno de matemática e disse:

— Vou calcular o volume de água desviado. Se os números baterem, meu pai precisa saber.

Passaram os recreios daquela semana na mesma carteira. Felipe desenhou um gráfico com régua e lápis de cor: a linha do rio descendo, mês a mês, como uma escada indo para o porão. Marcou com uma seta o dia em que as máquinas chegaram ao Paiol — e a seta caiu bem no degrau mais fundo.

— Bateu — disse Felipe. E a voz saiu fininha, como a de quem acaba de descobrir que os adultos também erram.

Quando a Cidade Prestou Atenção

Quando todos ouviram, o rio voltou a sorrir…

Levou três semanas de reuniões, apresentações de dados e uma visita ao próprio leito do rio para que o engenheiro, o pai de Felipe, olhasse para os números e dissesse aquelas palavras que Lara havia esperado tanto.

Na primeira reunião, na mesa da cozinha, o engenheiro achou graça: falou em vazão mínima, em estudo aprovado, e serviu mais suco para as crianças. Na segunda, já não achou graça e passou um tempo enorme olhando o gráfico do filho e coçando a nuca. Na terceira, ele mesmo propôs uma coisa que ninguém havia pedido — que fossem todos até o rio.

Lara, Felipe e o engenheiro na margem do rio, olhando a água rasa entre as pedras

Foram num sábado de manhã, os três, com as calças arregaçadas. Lara mostrou a régua na margem, marca por marca. Mostrou as raízes das árvores cortadas, secas e viradas para cima como mãos abertas. Depois pediu ao engenheiro uma coisa estranha:

— O senhor pode fechar os olhos um pouquinho?

Ele fechou, meio sem jeito.

— Está ouvindo?

— Ouvindo o quê?

— O rio — disse Lara. — Quando eu era pequena, ele fazia um barulho grosso nesta curva. Agora está fininho. Ele mudou de voz.

O engenheiro ficou calado um tempo longo, de olhos fechados, escutando aquele fiapo de água passar entre as pedras. Quando abriu os olhos, estavam vermelhos, e não era do sol.

— A menina tem razão — disse ele. — Precisamos redirecionar o desvio.

A obra foi parcialmente refeita. O córrego do Paiol voltou a alimentar o rio pelo caminho original. A prefeitura, envergonhada mas responsável, organizou um mutirão de replantio de árvores nativas nas margens — e Lara, é claro, foi a primeira a enfiar as mãos na terra com uma muda de ipê-amarelo.

O mutirão começou cedo, num sábado de céu limpo. Dona Rosa apareceu com um bolo de fubá e foi distribuindo pedaços para quem cavava. Felipe levou uma trena e mediu a distância entre as covas, porque para ele plantar torto seria pior do que não plantar.

Lara batizou a primeira muda de “Primeira”, apertou a terra em volta com as duas mãos e ficou de cócoras um tempinho, com jeito de quem apresenta duas pessoas uma para a outra.

— Esse aqui é o rio — sussurrou para a mudinha. — Ele estava com saudade de vocês.

Lara agachada plantando uma pequena muda de ipê na margem do rio

Três meses depois, na primeira chuva forte do inverno, Lara voltou à varanda com suas botas amarelas. A água já batia outra vez nas pedras lá embaixo, e o barulho havia voltado a ser grosso, daqueles que se escutam da ponte. Ela sentou no lugar de sempre, apoiou o caderninho no colo e fechou os olhos.

E ouviu a chuva dizer, com aquela voz lenta e grossa das tempestades que contam histórias longas:

O rio bebeu. As raízes beberam. Os peixes estão bem. Obrigada por ouvir.

E assim, o rio e a menina viveram felizes para sempre…

Lara abriu os olhos, sentiu as gotas escorregando pelo rosto como dedos gentis e sorriu. Pegou o caderninho molhado e escreveu na última página em branco: “A natureza sempre fala. O que falta, na maioria das vezes, é alguém disposto a parar e ouvir.”

Na escola, a professora Dona Conceição leu aquela frase em voz alta para toda a turma. E desde aquele dia, toda semana havia uma aula sobre o rio — sobre a água, sobre as árvores, sobre as histórias silenciosas que a natureza conta para quem se dispõe a escutar de verdade.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Todo mundo corria da chuva, menos a Lara. O que ela percebia que os outros não percebiam?
  2. Que sons da natureza você consegue reconhecer de olhos fechados?
  3. O que a chuva contaria, se pudesse falar com você?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para ser lida em voz alta na hora de dormir. Não é uma adaptação de conto tradicional: os personagens e o enredo são nossos.

Perguntas frequentes sobre A Menina que Falava com a Chuva

Qual é a moral desta história?

Que a natureza comunica o tempo todo e que observar com atenção traz respostas. É uma história sobre desacelerar e reparar no que está em volta.

Esta história fala sobre meio ambiente?

Fala, mas sem discurso. A relação da menina com a chuva e com o lugar onde vive abre naturalmente a conversa sobre cuidar da água e da natureza.

Para que idade esta história é indicada?

A faixa indicada é de 4 a 8 anos. Lara tem nove anos, e as crianças menores acompanham bem a parte dos sons da chuva e das botas amarelas; por volta dos 7 anos elas entendem também as medições do rio e o desvio do córrego. A leitura em voz alta leva cerca de quinze minutos.

Que tal a história de amanhã?