
A Princesa que Não Quis Ser Resgatada
O reino inteiro marcou a festa do resgate para o domingo da lua cheia. Lá em cima, a princesa estava ocupada demais com a fechadura para ficar esperando.
No reino inteiro só havia uma pessoa que não estava esperando pelo resgate: a própria princesa
A princesa Cora tinha onze anos, um vestido azul de bolsos grandes demais e uma pergunta que nunca a largava:
— Como é que isso funciona?
Ela perguntava para tudo. Perguntou para o relógio do salão, que ela abriu aos seis anos e montou de volta aos sete. Perguntou para a bomba d'água do pátio, que voltou a jogar água depois de dois verões calada. Perguntou para o fole do ferreiro, para a roda do moinho e para o baú da avó, que estava emperrado desde antes de ela nascer e abriu numa tarde de terça com um estalinho seco.
Nos bolsos do vestido, Cora carregava um pedaço de arame, uma lima do tamanho de um dedo, um toco de vela, um lápis de carvão e um espelho redondo do tamanho de uma moeda. Não eram brinquedos. Eram ferramentas.

O rei achava graça. A rainha achava graça e ainda segurava a vela quando a filha trabalhava até tarde.
O Conselho Real não achava graça nenhuma.
Eram sete senhores muito sérios, que se reuniam numa sala com um mapa na parede. A coisa de que eles mais gostavam no mundo era resolver problema em reunião.
— Princesa não abre porta — dizia o conselheiro-mor, ajeitando o colarinho. — Princesa espera.
Cora ouvia, guardava a frase no bolso junto com o arame, e continuava abrindo.
A Torre da Meia-Lua
No fim do jardim, atrás das amoreiras, havia uma torre de pedra que ninguém usava.
Chamavam de Torre da Meia-Lua por causa da fechadura. Era uma peça enorme de ferro, do tamanho de um prato de sopa, com o buraco do meio recortado em forma de lua deitada. Estava fechada havia cem anos. Diziam que a porta encaixava sozinha e que, depois de encaixada, só abria pelo lado de fora.
Ninguém nunca tinha conferido, porque ninguém nunca tinha entrado.
Até que veio uma noite de vento.
O vento arrancou a hera da parede, sacudiu a porta velha e a deixou aberta um palmo. De manhã, Cora passou por ali para pegar amoras e viu aquela fresta escura.
E viu, pelo lado de dentro, a fechadura da Meia-Lua inteirinha. Com todo o miolo de ferro à mostra.
Ela ficou parada exatamente três segundos.
Depois entrou.
— Só para olhar — disse, para ninguém.
Atrás dela, o vento deu mais um empurrão.
A porta encaixou com um som fundo, de pedra caindo em poço.
Tum.

O Reino Organiza o Resgate
Cora subiu a escada em caracol e encontrou uma sala redonda lá em cima, com uma janela alta, uma mesa de três pernas e poeira suficiente para desenhar o próprio nome no chão.
Da janela dava para ver o jardim, as amoreiras e o telhado do castelo.
Ela gritou. Um guarda ouviu. O guarda correu. Em menos de uma hora, o reino inteiro sabia que a princesa estava trancada na Torre da Meia-Lua.
O Conselho Real se reuniu naquela mesma tarde.
Foi uma reunião magnífica. Abriram o mapa, acenderam as velas boas e decidiram tudo.
Primeiro, mandariam carta para o Cavaleiro do Norte, que era o herói mais famoso da região. Segundo, chamariam mestre Aldo, o serralheiro de Vila Alta, aquele de barba branca até o peito. Terceiro — e esta foi a parte que mais animou o Conselho — marcariam a Festa do Resgate para o domingo da lua cheia, com bolo, bandeirinhas e banda.
— Onze dias — anunciou o conselheiro-mor, satisfeitíssimo. — Onze dias e a princesa está livre.
Lá em cima, na janela, Cora fez a conta.
— Onze dias — repetiu ela.
— É rapidinho! — gritou o conselheiro. — Enquanto isso, Alteza, descanse. Se quiser, pode cantar na janela. Fica bonito para quem passa.
Naquela tarde subiu um cesto puxado por corda, e dentro do cesto vinha o mundo inteiro: um cobertor, três pães, um pote de geleia de amora, uma caneca, velas novas e um bilhete da rainha que dizia apenas "estou aqui embaixo".
O rei mandou uma almofada.
O Conselho mandou um leque, para o caso de calor.
Cora agradeceu por tudo. Guardou o leque na mesa de três pernas, acendeu uma vela e desceu a escada em caracol.
Tinha onze dias e uma pergunta.
— Como é que isso funciona?

O Que Havia Dentro da Fechadura
A fechadura da Meia-Lua, vista de perto, era uma coisa linda.
O ferro tinha folhas desenhadas na borda, gastas de tanto tempo. O buraco em forma de lua deitada era largo o bastante para caber dois dedos. E lá dentro, quando Cora encostou o espelhinho num ângulo bem certo e aproximou o toco de vela, apareceu o que ela queria ver.
Dentes.
Sete dentes de ferro, em pé, um atrás do outro, como uma fila de gente esperando a vez.
Cora desenhou os sete na parede com o lápis de carvão. Errou. Apagou com a manga. Desenhou de novo.
No segundo dia ela entendeu o truque: cada dente precisava subir até uma altura diferente e ficar lá. Se um só descesse, todos desciam junto, com um estalo de dar raiva. Uma chave de verdade levantaria os sete de uma vez, na mesma fração de segundo. Sem chave, seria um por um. E segurando.
— Preciso de sete mãos — disse Cora.
Pensou mais um pouco.
— Ou de um arame comprido e de muita paciência.
O arame ela tinha. A paciência ia arranjando pelo caminho.
Lá embaixo, o jardim ficava mais bonito a cada dia. Penduraram bandeirinhas nas amoreiras. Cavaram um buraco para o espeto do assado. Mestre Aldo veio de Vila Alta, olhou a fechadura de fora por um tempo longo, coçou a barba e disse que aquela era de um tipo tão antigo que a chave dela já não existia em lugar nenhum do mundo.
O Conselho ouviu, anotou e decidiu que no domingo o Cavaleiro do Norte abriria a porta com um machado.
Cora, lá em cima, achou aquilo uma pena. Ela tinha começado a gostar daquela porta.

Pinhão Traz o Que Falta
O arame do bolso era curto e mole. Entortava sempre na hora errada.
Foi no terceiro dia que uma gralha-azul pousou no parapeito da janela. Olhou para Cora com aquela cara de quem está avaliando o negócio e largou uma semente de pinhão em cima da mesa de três pernas.
— Obrigada — disse Cora. — Mas eu queria mesmo era um grampo.
A gralha inclinou a cabeça.
Cora esfarelou um pedaço de pão no parapeito.
No dia seguinte, a gralha voltou com um grampo de cabelo.
A partir dali virou combinado. Cora chamou o pássaro de Pinhão, por causa da semente.
Em troca de migalhas, Pinhão passou a trazer tudo o que encontrava brilhando pelo reino: uma tira fina de latão que tinha sido cabo de colher, um botão de casaca, um dedal furado, meia tampa de lata e um cordão de sapato. Numa manhã trouxe uma minhoca comprida, que Cora devolveu com muita educação.
O grampo era duro e fino. Servia para levantar os dentes.
A tira de latão era chata e comprida. Servia para segurar os que já estavam levantados.
— Agora sim — disse Cora.
Naquela noite ela conseguiu o primeiro dente. Ficou tão contente que quase soltou o grampo.

Sete Dentes, Sete Noites
Depois do primeiro, veio o segundo, na mesma noite.
O terceiro custou dois dias inteiros, porque era mais baixo que os vizinhos e escapava.
O quarto foi fácil e Cora desconfiou dele justamente por isso.
O quinto derrubou todos os outros, três vezes seguidas. Na terceira, Cora sentou no degrau frio da escada, encostou a testa no joelho e chorou um pouco — não muito, mas chorou. Depois subiu, comeu pão com geleia de amora até se sentir melhor, desceu e começou tudo de novo.
O sexto ela levantou na noite de sexta-feira, com Pinhão dormindo de bico enfiado nas penas lá em cima.
E o sétimo era o pior de todos. Ficava no fundo, escondido atrás dos outros seis, e só dava para alcançar entrando com o grampo de lado, quase às cegas, com a mão torta e o pulso doendo.
Cora chegou perto dele umas vinte vezes.
Uma vez. Duas. Três. Perdia tudo e recomeçava.
Sete. Oito. Nove. Perdia tudo e recomeçava.
Do lado de fora, o mundo continuava. A rainha vinha todo fim de tarde conversar com a filha lá em cima, e as duas ficavam um bom tempo falando de bobagem. O rei mandava mais almofadas, que já eram cinco. O conselheiro-mor passava, olhava para cima e gritava sempre a mesma coisa:
— Falta pouco, Alteza! Domingo a senhora está livre!
— Falta pouco mesmo — respondia Cora, com carvão até o cotovelo.
A Noite da Véspera
O sábado amanheceu com cheiro de bolo assando no castelo inteiro.
Cora trabalhou o dia todo. Errou de manhã, errou depois do almoço, errou tantas vezes que parou de contar.
Quando anoiteceu, a lua subiu quase cheia por cima das amoreiras e entrou por baixo da porta, uma fatia fina de luz azul no chão de pedra.
Ela acendeu a última vela boa. Ajeitou o joelho. Encaixou a tira de latão.
Um.
Dois.
Três.
Quatro.
Cinco.
Seis.
Cora parou. Respirou fundo três vezes, do jeito que respirava antes de abrir o relógio do salão. Depois virou o grampo de lado e entrou atrás do sétimo, devagar, encostando o ouvido no ferro frio para escutar o que a mão não conseguia ver.
O dente subiu um pouquinho. Escorregou. Subiu de novo.
E parou lá em cima.
Então a fechadura da Meia-Lua fez um barulho que ninguém ouvia havia cem anos.
Cleque.
Cora não gritou. Ficou de joelhos no escuro, com a mão ainda no ferro, escutando o próprio coração bater dentro da orelha.
Depois empurrou a porta.
A porta abriu.
A Festa que Ninguém Sabia Como Fazer
Lá fora era madrugada, e a grama estava fria e molhada.
Cora andou até o castelo devagar, com os sapatos na mão, passando por baixo das bandeirinhas penduradas.

Não acordou ninguém. Foi até a cozinha, comeu um pedaço da beirada do bolo — só um pedaço da beirada, que quase não aparece —, subiu para o quarto e dormiu de vestido.
O guarda deu o alarme às seis da manhã: a Torre da Meia-Lua estava aberta e vazia.
Foi uma correria enorme, que durou até alguém abrir a porta do quarto e encontrar a princesa dormindo, com carvão nos dedos e um grampo torto na mão.
Aí veio o problema do Conselho.
Porque a festa era às quatro. O bolo estava pronto. A banda estava contratada. E o Cavaleiro do Norte chegava às três, de armadura polida e machado novo, para resgatar uma princesa que já estava tomando café na cozinha.
O Conselho Real se reuniu às pressas. Abriram o mapa, que não ajudou em nada. Discutiram por uma hora inteira.
— Não dá para desmarcar — disse um.
— Também não dá para trancar ela de novo — disse outro, e todos concordaram que não, isso não dava mesmo.
Foi a rainha quem resolveu, do jeito que ela resolvia as coisas: sem levantar a voz.
— Então a festa fica de pé — disse. — Só muda o nome.
E o Cavaleiro do Norte chegou às três em ponto, todo lustroso, e ficou sabendo da história no meio do jardim. Ele riu tanto que precisou tirar o elmo.
Depois pediu para ver a fechadura. Cora o levou até a torre, e os dois passaram um tempão ali: ela explicando os sete dentes com o grampo na mão, ele agachado, com a barba encostando no joelho, dizendo "ah, entendi" e "espera, mostra de novo".
O conselheiro-mor apareceu na porta, olhou aquilo tudo, ajeitou o colarinho e disse:
— Mas princesa não abre porta.
— Esta abriu — disse Cora.
E o conselheiro-mor não teve o que responder, então comeu bolo.
Depois que a Banda Foi Embora
A festa acabou tarde.
Quando a banda foi embora e as lanternas começaram a apagar sozinhas, o jardim ficou com aquele silêncio bom de depois de festa, que é diferente de todos os outros silêncios.
Cora foi até a torre uma última vez naquele dia. Encostou uma pedra grande na porta, para deixá-la aberta de vez.
E aberta ela ficou. Desde então, qualquer criança do vilarejo pode entrar e olhar de perto a fechadura da Meia-Lua, com os sete dentes e as folhas gastas na borda de ferro. Muita gente entra. Quase todo mundo sai com a mesma pergunta na boca.
Depois ela subiu para o quarto, lavou o carvão das mãos e sentou na cama com a janela aberta.
Pinhão pousou no parapeito, do jeito que pousava todo fim de tarde, e ficou ali quietinho, avaliando o negócio.
Cora tirou do bolso o grampo torto e colocou na mesinha de cabeceira, ao lado do arame, da lima, do toco de vela, do lápis de carvão e do espelho do tamanho de uma moeda.
Lá fora, a lua tinha ficado cheia de vez.
Ela apagou a vela.
E dormiu de uma vez só, sem acordar no meio, como quem terminou uma coisa que começou.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O Conselho disse que princesa espera. A Cora ouviu e continuou trabalhando. Você já ouviu alguém dizer que você não conseguia fazer alguma coisa?
- Ela levou onze noites para abrir a fechadura e errou muitas vezes no meio. O que faz uma pessoa tentar de novo depois de errar?
- A Cora resolveu tudo com cinco coisinhas que cabiam no bolso. Se você pudesse escolher cinco para levar sempre, quais seriam as suas?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para o site. A princesa Cora, a Torre da Meia-Lua, a gralha-azul Pinhão e o Conselho Real não vêm de nenhum conto antigo: foram inventados aqui. A ideia nasceu de uma brincadeira com a estrutura dos contos de fadas clássicos, em que quem está preso na torre costuma esperar por alguém que venha de fora — é assim em Rapunzel, dos Irmãos Grimm (1812), em que a moça da torre não é princesa nem abre a própria porta. Nesta versão, a espera continua acontecendo lá embaixo; é só a princesa que resolve não participar dela.
Perguntas frequentes sobre A Princesa que Não Quis Ser Resgatada
Essa história de princesa serve para crianças que não gostam de princesa?
Costuma servir bem, sim. A Cora usa vestido e mora num castelo, mas passa a história inteira ajoelhada no chão, com carvão na mão, tentando entender como uma peça de ferro funciona por dentro. Muita criança que torce o nariz para o rótulo de princesa gosta justamente dessa parte.
É uma história assustadora? Minha filha tem medo de ficar presa.
Não. A torre não tem vilão, ninguém ameaça a Cora e ela nunca fica sem comida, sem cobertor e sem companhia — a família fala com ela da janela todos os dias. O clima é de oficina, não de perigo. Ainda assim, se o medo de ficar preso for muito recente, vale ler junto e ir conversando.
Para que idade essa história é indicada?
Dos 5 aos 10 anos. É mais longa que os contos para os bem pequenos e tem uma parte de raciocínio, com os sete dentes da fechadura, que rende mais a partir dos 6. Crianças menores acompanham bem se a leitura for feita em voz alta, com pausas.


