
A Princesa e o Jardim de Inverno
O inverno esqueceu de ir embora e o jardim do castelo virou pedra de gelo. Todo mundo já tinha desistido dele — menos a menina do regador azul.
Todo mundo em Serra Longa sabia que o jardim tinha morrido — só ninguém tinha avisado o jardim
No reino de Serra Longa, o inverno chegava em maio, deixava tudo branco e ia embora em setembro. Era assim desde sempre. As pessoas guardavam as botas no alto do armário, punham os cobertores no sol e a vida seguia.
Naquele ano, o inverno não foi embora.
Passou setembro. Passou outubro. Em novembro ainda amanhecia nevando, e em dezembro o rio do vale criou uma casca de gelo tão grossa que dava para atravessar a pé. Todo mundo atravessou, porque não havia mais nada para fazer.
A princesa Olívia tinha nove anos, duas tranças castanho-escuras e um capote vermelho de lã que tinha sido da avó. Nos bolsos do capote cabiam quase todas as coisas importantes do mundo: um novelo de barbante, meia rosquinha, um toco de giz e uma lupa sem cabo.
E, na mão, ela levava para todo lado um regador de lata azul, amassado de um lado, que também tinha sido da avó.
O Jardim do Meio ficava no pátio interno do castelo, fechado dos quatro lados por parede de pedra. Não era grande: cabiam ali doze canteiros, um banco comprido de pedra, uma figueira torta e uma bica que pingava desde antes de qualquer pessoa viva ter nascido.
No verão, aquilo era um escândalo de flor. A avó de Olívia plantava sem plano nenhum. Enfiava bulbo onde encontrava espaço, jogava semente por cima do ombro, trocava muda com quem batesse na porta dos fundos. Ninguém nunca soube direito o que havia enterrado ali embaixo.
O Jardim que Todos Deram por Morto
Lá pelo sétimo mês daquele inverno, o Jardim do Meio virou uma coisa branca e dura.
O gelo cobriu os canteiros. A bica congelou no meio de um pingo, com uma lágrima de gelo pendurada na ponta. A figueira ficou preta e sem uma folha, parecendo desenho a carvão.

O jardineiro-chefe veio dar o parecer. Andou pelos canteiros com as mãos nas costas, cutucou o chão com o salto da bota e disse:
— Morreu, Alteza.
— Tudo? — perguntou Olívia.
— Tudo. Raiz nenhuma aguenta um inverno deste tamanho. Na primavera a gente limpa e replanta do zero.
Só que a primavera não vinha.
O jardineiro-chefe pendurou as ferramentas, trancou o galpão e foi cuidar das estufas, que era onde ainda havia trabalho. O portão do Jardim do Meio ficou encostado. A neve foi subindo em cima do banco comprido até o banco sumir.
Olívia foi lá no dia seguinte. E no outro. E no outro.
A Menina do Regador Azul
Foi mais ou menos assim que começou.
Ela descia até a cozinha de manhã cedo, enchia o regador azul com água morna — morna de verdade, do jeito que a gente lava as mãos, nunca quente — e atravessava o corredor gelado até o pátio.
Chegando lá, fazia sempre a mesma coisa, na mesma ordem.
Quebrar a casca. Molhar o pé. Cobrir de neve.
Quebrar a casca era bater de leve na crosta de gelo do canteiro com o cabo de uma colher velha, até abrir um buraquinho do tamanho de uma moeda. Molhar o pé era despejar a água morna devagar bem naquele buraco, e não em cima da planta. Cobrir de neve era juntar de volta, com as mãos, a neve que ela tinha empurrado para o lado.
Doze canteiros. Doze buracos. Doze vezes.
Quem visse de longe ia achar que a princesa estava regando pedra.
A cozinheira via da janela e balançava a cabeça. Os guardas comentavam entre si na troca de turno. Uma vez, uma moça da lavanderia parou no portão com uma cesta na cintura e falou com toda a educação do mundo:
— Não adianta, Alteza. Está tudo morto aí embaixo.
— Pode ser — disse Olívia.
E continuou regando.
Do terceiro dia em diante, Bolota foi junto. Bolota era o gato laranja e gordo da cozinha. Ficava sentado em cima do muro, com as patas embaixo do peito, olhando aquilo tudo com cara de quem não entendia nada mas não queria perder.

O Que Seu Ambrósio Contou
No décimo dia, apareceu no portão um homem muito velho, apoiado num cabo de enxada que ele usava de bengala.
Era seu Ambrósio. Tinha sido jardineiro do castelo no tempo da avó de Olívia e agora morava na casinha atrás do pomar, onde passava os dias remendando peneira.
Ele ficou olhando um tempo. Depois entrou, se agachou com muita dificuldade e ergueu uma tampa de gelo com a unha do polegar.
— Está molhando o pé e não a folha — disse. — Quem te ensinou?
— Ninguém. Eu pensei.
Seu Ambrósio deu um risinho curto, do tipo que não faz barulho.
Naquela tarde ele levou Olívia até a estufa velha, acendeu uma lanterna e tirou do bolso do casaco uma coisa marrom, seca e enrugada, do tamanho de uma cebola pequena.
— Isso aqui parece o quê?
— Um bulbo velho.
— Parece morto?
— Parece.
— Pois é — disse o velho, guardando o bulbo de volta no bolso. — Só que não está. Está dormindo. Bulbo dorme fundo no frio, e quem dorme fundo demora a acordar. O que mata mesmo não é o gelo: é secar. Terra congelada não bebe. Se ninguém abrir um furo e der água por ali, ele passa o inverno inteiro com sede.
— E como eu sei se está funcionando?
Seu Ambrósio pensou um pouco antes de responder.
— Não sabe. Ninguém sabe. Só no degelo.
Olívia ficou quieta.
— E até lá? — perguntou.
— Até lá você rega — disse ele, e foi embora arrastando o cabo de enxada na neve.

Cento e Onze Feijões
Para não perder a conta dos dias, Olívia arrumou dois potes de vidro na janela do quarto.
O da esquerda estava cheio de feijões. Todo fim de tarde, quando terminava a rega, ela pegava um feijão do pote da esquerda e passava para o pote da direita.
Ploc.
No começo o barulho era fininho, de feijão caindo no fundo de vidro. Depois foi ficando surdo, de feijão caindo em cima de feijão.
O pote da direita foi enchendo devagar.
Trinta feijões. Cinquenta. Setenta.
E lá fora nevava.
Nevou no dia do aniversário do rei, que comemorou de luva. Nevou na semana da Festa das Fitas, que ninguém teve coragem de fazer. Nevou no dia em que o padeiro anunciou que não havia mais farinha da boa e passou a assar um pão escuro que todo mundo achou ruim na primeira semana e normal na terceira.
O reino inteiro estava cansado.
E foi aí que o intendente Duarte teve a ideia dele.
Duarte era o homem encarregado das obras de Serra Longa. Gostava de coisas retas, resolvidas e que não davam trabalho depois.
Ele chegou numa manhã com dois ajudantes, uma corda e um feixe de estacas.
— Bom dia, Alteza. A senhora sabe que isto aqui está perdido, não sabe?
— O senhor vai fazer o quê?
— O que devia ter sido feito faz tempo — disse ele, esticando a corda de um canto ao outro. — Calçar tudo de pedra e cobrir. Um pátio coberto, seco, com telhado. O reino precisa de um lugar assim muito mais do que precisa de flor.
— Pode ser — disse Olívia.
E ficou olhando as estacas serem fincadas no gelo, uma por uma, sem falar mais nada.

À noite, no jantar, ela pediu.
O rei ouviu o pedido inteiro, com a colher parada no ar. Olhou para a rainha. A rainha olhou para ele. Ficaram um tempo naquele silêncio de adulto decidindo coisa.
— Até o degelo — disse o rei enfim. — Se no degelo não nascer nada naquele jardim, o intendente calça.
— Combinado — disse Olívia.
O intendente Duarte, que estava na ponta da mesa, achou aquilo um desperdício de tempo, mas engoliu a opinião junto com a sopa.
Só faltava um detalhe: ninguém em Serra Longa fazia a menor ideia de quando o degelo ia chegar.
A Noite Mais Fria do Ano
A noite mais fria de que se tinha notícia no reino chegou logo depois do Ano-Novo.
O vento entrou pelo vale de uma vez só, apagou lampião no meio da rua e fez a casca do rio estalar de ponta a ponta como se alguém tivesse pisado numa telha.
De manhã, o gelo do Jardim do Meio estava com quatro dedos de espessura.
Olívia bateu com o cabo da colher. Não abriu.
Bateu mais forte. Não abriu.
Bateu com uma pedra, com o salto da bota, com as duas mãos, e conseguiu abrir três buracos nos doze canteiros — três — e o resto ficou fechado.
Então ela sentou no chão duro, encostou a testa nos joelhos e chorou. Não muito, mas chorou. Bolota se enfiou por baixo do braço dela, do jeito que gato faz quando resolve que está na hora.
Foi ali que a rainha apareceu no portão, de camisola, botas e um cobertor grosso no braço.
Não perguntou nada. Sentou no banco de pedra, sacudiu a neve, esticou o cobertor e abriu o braço.
Olívia foi.
Ficaram ali um tempão, as duas embrulhadas no mesmo cobertor, olhando o vapor da respiração subir na frente das lanternas.
— Está cansada? — perguntou a rainha.
— Estou.
— Quer parar?
Olívia pensou de verdade antes de responder, porque a resposta não era óbvia.
— Não.
A rainha ajeitou o cobertor no ombro dela.
— Então amanhã eu trago água quente na garrafa térmica e a gente derrete essa casca antes.
Foi o que fizeram. Levou quatro dias para abrir os doze buracos de novo.
Ploc. Ploc. Ploc. Ploc.

O Primeiro Pingo
O feijão número cento e onze caiu no pote da direita numa quinta-feira.
Olívia estava atravessando o corredor com o regador cheio quando ouviu um barulho que não fazia parte de nenhum inverno.
Pingo.
Ela parou.
Pingo. Pingo.
Era a bica. A lágrima de gelo pendurada na ponta tinha se soltado, e a água estava caindo na pedra outra vez, com aquele som de coisa que voltou a funcionar.
Naquela manhã o ar estava diferente. Não morno — só menos duro. O gelo dos canteiros amanheceu com uma película molhada por cima, e o telhado do castelo começou a chorar por todas as beiradas ao mesmo tempo.
O degelo tinha chegado.
Levou nove dias. Nove dias de água escorrendo por toda parte, de neve virando poça, de barro no corredor e de gente reclamando de barro no corredor.
No décimo, o Jardim do Meio apareceu inteiro pela primeira vez em quase um ano.
E era terra. Só terra escura, molhada e vazia.
Olívia atravessou os doze canteiros olhando o chão.
Nada.
Ela se agachou no canteiro do fundo, o mais perto da figueira, e ficou ali um tempo com as mãos na terra fria, sem pensar em coisa nenhuma.
Foi quando viu.
Um fiapo. Um traço verde-claro do tamanho da unha do dedo mínimo, saindo da terra molhada, torto e mole como quem acabou de acordar.
O Que Estava Esperando Embaixo
Olívia não gritou. Ficou de quatro na terra, com o nariz quase encostado no fiapo verde, e ali ela riu sozinha, um riso meio esquisito, de quem esteve muito tempo segurando alguma coisa.
Depois ela achou o segundo. E o terceiro.
No fim da tarde já eram tantos que não dava mais para contar.
O que aconteceu no Jardim do Meio nas três semanas seguintes foi assunto no reino por muitos anos. A avó de Olívia tinha plantado ali a vida inteira sem anotar nada, e tudo o que ela havia enterrado estava esperando embaixo — inclusive coisas que ela mesma tinha esquecido.
Subiram íris roxas em fileira torta. Subiram narcisos brancos de miolo alaranjado. Subiu um tapete de flor miúda azul que ninguém no castelo sabia nomear e que só abria no fim da tarde, quando o sol baixava atrás do muro, e fechava de novo à noite.

A figueira torta soltou folha nova, e a bica pingou o verão inteiro sem parar.
Duarte veio ver com os próprios olhos. Ficou parado no portão um tempo comprido, com o rolo de papéis debaixo do braço.
— Vou precisar de outro terreno — disse.
— Tem o pátio dos fundos — sugeriu Olívia. — É reto e não tem nada plantado.
Ele agradeceu, anotou e foi embora, e depois fez o pátio coberto lá, que existe até hoje e é bem útil quando chove.
Depois que o Jardim Acordou
Seu Ambrósio veio numa tarde, arrastando o cabo de enxada.
Andou pelos canteiros devagar, parando em cada um. No fim, sentou no banco ao lado de Olívia e esperou com ela a hora em que as flores azuis abriam, uma a uma, sem pressa nenhuma.
— Sua avó ia gostar disso aqui — disse ele.
Não disse mais nada, e nem precisava.
O verão em Serra Longa chegou com meses de atraso e ficou até tarde, como quem sabe que está devendo.
Olívia continuou descendo ao Jardim do Meio todo fim de tarde com o regador de lata azul, mas agora a água ia por cima mesmo, sem colher, sem buraco, sem neve para juntar de volta. Levava dez minutos.
Os dois potes de vidro continuaram na janela do quarto dela por muito tempo — um vazio, o outro cheio de feijão até a boca.
Naquela primeira noite de verão, com a janela aberta e cheiro de terra molhada entrando, Olívia deitou de barriga para cima e ficou ouvindo a bica pingar lá embaixo, devagarinho, no ritmo de sempre.
Bolota subiu na cama e se enroscou atrás dos joelhos dela.
Olívia contou um pingo. Contou o segundo.
E dormiu antes do terceiro.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- A Olívia regou o jardim cento e onze dias sem ver nada acontecer. Como é esperar por uma coisa que demora tanto?
- Todo mundo repetia que não adiantava. Por que você acha que ela continuava mesmo assim?
- Se você pudesse plantar hoje uma coisa que só vai crescer no ano que vem, o que você plantaria?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para o site. A princesa Olívia, o reino de Serra Longa, o Jardim do Meio, seu Ambrósio e o intendente Duarte não vêm de nenhum conto antigo: foram inventados aqui. Não é adaptação de nada, mas quem conhece O Jardim Secreto, de Frances Hodgson Burnett (1911), vai reconhecer um ar de família na ideia de um jardim que todo mundo deu por perdido. O que a botânica ensina sobre bulbos adormecidos foi simplificado para caber numa história de dormir.
Perguntas frequentes sobre A Princesa e o Jardim de Inverno
Qual é a moral de A Princesa e o Jardim de Inverno?
Que algumas coisas boas levam muito tempo para aparecer, e que continuar cuidando delas nesse meio-tempo é o que faz diferença. A história não promete que todo esforço dá certo — mostra uma menina cuidando de uma coisa viva mesmo sem ter como provar que ela ainda estava viva.
Essa história serve para uma criança que desiste fácil das coisas?
Costuma servir bem. A Olívia não é teimosa nem heroica: ela tem dias ruins, chora numa noite e quase para. O que a história mostra é a rotina miudinha — quebrar a casca, molhar o pé, cobrir de neve — repetida por meses. Crianças que se frustram rápido costumam se identificar mais com essa parte do que com um final feliz.
É uma história triste? O jardim morre?
Não. Apesar de todo mundo achar que o jardim morreu, ninguém morre na história e nada de ruim acontece com a Olívia. O clima é de espera, não de perigo, e o final é caloroso e lento — feito para ser lido na hora de dormir.
Para que idade essa história é indicada?
Dos 5 aos 10 anos. É uma história longa, com passagem de tempo e uma parte sobre como as plantas atravessam o frio, que rende mais a partir dos 6. Crianças menores acompanham bem se a leitura for em voz alta e com pausas.


