Contos para Dormir
Ilustração do conto A Ovelhinha que Contava Crianças

A Ovelhinha que Contava Crianças

Todo mundo sabe que criança conta ovelhinha para dormir. Ninguém tinha pensado no contrário — até a Nina descer o morro, sentar na frente da cerca e começar do um.

Equipe Contos para Dormir ·

Todo mundo sabe que criança conta ovelhinha para dormir. Quase ninguém parou para pensar no que a ovelhinha conta.

No alto de um morro tinha um pasto. No pasto tinha um rebanho. E no rebanho tinha uma ovelhinha chamada Nina.

Nina era pequena — menor que todas as outras. A lã dela era branca e encaracolada, e caía na testa num tufo que ninguém nunca conseguiu ajeitar. No pescoço ela usava uma fitinha vermelha com um sininho de latão. O sininho fazia tlim quando ela andava, e ficava quieto quando ela parava.

De dia, Nina era a mais animada do morro inteiro. Cheirava tudo, comia trevo, subia no barranco só pelo gosto de descer rolando.

De noite, era a única acordada.

O Pasto Inteiro Dorme

Acontecia sempre igual.

O sol descia atrás do morro e o céu ficava cor de laranja. Depois cor de goiaba. Depois azul. Depois azul-escuro.

E aí, uma por uma, as ovelhas dobravam as pernas e deitavam na grama.

A tia Belinha dormia em três segundos. O Barbudo dormia mastigando, o que era engraçado de ver. As gêmeas dormiam encostadas uma na outra, formando um bolinho só de lã. Lá pelas tantas, até os grilos davam uma pausa.

Todo mundo dormia.

Menos Nina.

Nina deitava. Ajeitava as pernas. Fechava os olhos.

E os olhos abriam sozinhos.

Ela virava para um lado. Virava para o outro. Contava as estrelas do lado esquerdo do céu e depois as do lado direito, e se perdia sempre no meio, porque estrela não fica parada esperando ninguém contar.

— Por que todo mundo consegue e eu não consigo? — perguntou ela uma noite, para ninguém.

E alguém respondeu.

Uma ovelhinha branca de fitinha vermelha no pescoço, acordada e de olhos abertos no meio de um pasto onde todas as outras ovelhas dormem sob as estrelas

O Que a Vó Dorotéia Contou

Era a vó Dorotéia, a ovelha mais velha do rebanho.

A lã dela já não era branca, era cor de neblina. Andava devagar, parava no meio do caminho para pensar e depois continuava, como se tivesse combinado consigo mesma de não ter pressa nunca mais.

— Você não dorme, né, menina?

— Não durmo.

— Nunca?

— Nunca na hora certa. Só quando o céu já está clareando. E aí não adianta, porque todo mundo acorda.

A vó Dorotéia mastigou um pouco. Ovelha velha pensa mastigando.

— E você sabe o que as crianças fazem quando não conseguem dormir?

— Não.

— Elas contam ovelha.

Nina achou que era brincadeira.

— Contam ovelha como?

— Deitam na cama, fecham os olhos e imaginam uma cerca. Aí imaginam ovelhas pulando essa cerca, uma de cada vez, e vão contando. Uma. Duas. Três. Dizem que funciona muito bem.

Nina ficou olhando para a vó Dorotéia com o tufo caindo no olho.

— Mas eu já sou ovelha.

— Justamente — disse Dorotéia. — Por isso não adianta nada você contar ovelha. Ovelha tem que contar criança.

Ficaram as duas caladas um instante, ouvindo o vento passar pelo capim.

— E onde é que eu arrumo criança para pular a minha cerca?

— Ora. — A vó Dorotéia abriu um bocejo enorme, desses em que dá para ver o céu da boca. — A essa hora tem criança dormindo no mundo inteiro. Um montão. Você só precisa chamar.

— Chamar como?

— Contando. É só começar do um.

E dormiu no meio da conversa, do jeito que as ovelhas velhas fazem.

Uma ovelhinha branca pequena de fitinha vermelha conversando focinho com focinho com uma ovelha velha de lã cinzenta, as duas iluminadas pela lua

A Primeira Criança

Lá embaixo, no fim do pasto, tinha uma cerca de madeira.

Era uma cerca velha, de três tábuas, com um mourão torto no meio e capim alto crescendo por baixo. Ninguém usava aquela cerca para nada. Ela estava ali de tão antiga que já era mais paisagem do que cerca.

Nina desceu o morro devagar.

O sininho fez tlim, tlim, tlim o caminho inteiro.

Ela sentou na grama, de frente para as tábuas. Respirou fundo. E disse, bem baixinho, com um pouco de vergonha:

— Uma criança.

Não aconteceu nada.

Ela esperou. Um grilo recomeçou e parou de novo.

— Uma criança — repetiu Nina, mais firme.

E aí veio.

Do outro lado da cerca apareceu um menino. Tinha uns cinco anos, estava de pijama de bolinhas, descalço, com o cabelo todo levantado de um lado só — daquele jeito de quem passou a noite amassando o travesseiro.

O menino não olhou para Nina. Não falou nada. Estava dormindo. Dava para ver que estava dormindo, porque os olhos estavam fechados e mesmo assim ele andava tranquilo, do jeito que só se anda em sonho.

Chegou perto da cerca. Levantou um pé. Depois o outro.

E pulou.

Devagar. Muito devagar. Ficou um tempo no ar, bem mais tempo do que caberia num pulo de verdade, o pijama flutuando junto — e desceu do outro lado sem pressa nenhuma.

Plum.

Foi esse o barulho. Um plum macio, de pé descalço em grama molhada.

Depois o menino continuou andando, atravessou o pasto e sumiu no escuro. Não era um escuro de assustar. Era o escuro de quem está voltando para a própria cama.

Nina ficou de boca aberta.

Um menino de pijama de bolinhas pulando uma cerca de madeira em câmera lenta, de olhos fechados, enquanto uma ovelhinha branca observa da grama

Duas, Três, Quatro

— Duas crianças — disse Nina.

E veio a segunda.

Uma menina de camisola comprida, cabelo trançado, abraçada num urso de pano sem uma das orelhas. Ela pulou a cerca sem largar o urso um segundo.

Plum.

— Três crianças.

Um menino grandão, de calção, com o rosto marcado de dormir em cima do próprio braço. Pulou de qualquer jeito, quase enganchou o pé na tábua de cima, riu dormindo e caiu sentado do outro lado.

Plum.

— Quatro crianças.

Um bebê. Nina se assustou, porque bebê não pula cerca. Mas o bebê não precisou pular: passou por cima flutuando, deitadinho, os bracinhos abertos, como se estivesse boiando numa água que ninguém via.

Plum. Um plum pequenininho.

Nina riu — e, rindo, percebeu uma coisa. O corpo dela tinha ficado mais pesado.

Não pesado de ruim. Pesado de bom. Pesado do jeito que fica um cobertor quando alguém dobra ele duas vezes.

— Cinco crianças — disse Nina.

As Crianças de Longe

Nina foi contando, e as crianças foram vindo. E nenhuma era igual à outra.

Veio um menino de rede. Ele chegou balançando, com a rede e tudo, pendurada em dois ganchos de ar que não estavam presos em lugar nenhum. Passou por cima da cerca inteira sem encostar, e o barulho não foi plum: foi de pano roçando em pano.

Veio uma menina que dormia de janela aberta, e ela trouxe a chuva junto. Uma chuva mansa, de goteira em telhado de zinco. Quando ela pulou, caiu uma garoa em cima do pasto que molhou só um pedacinho da grama e parou.

Uma menina de camisola pulando uma cerca de madeira sob uma garoa fina, com uma ovelhinha branca de fitinha vermelha contando sentada na grama

Veio um menino que dormia segurando uma colher.

Nina achou aquilo tão esquisito que quase perdeu a conta.

— Por que uma colher? — perguntou ela.

O menino, é claro, não respondeu. Estava dormindo. Mas passou a colher de uma mão para a outra antes de pular, do jeito de quem não larga uma coisa nem sonhando, e Nina decidiu ali que devia ser uma colher muito importante.

Plum.

Veio um menino que dormia com um cachorro encostado no pé da cama. O cachorro pulou junto, sem que nenhum dos dois acordasse, e do outro lado deitou de novo exatamente na mesma posição.

Plum. E, logo depois, um plum de quatro patas.

Veio uma menina de touca, de um lugar onde estava nevando. Ela pulou e deixou cair um floco branco. O floco derreteu no ar, antes mesmo de chegar à grama.

Veio um menino que dormia de ponta-cabeça na cama, com os pés no travesseiro. Esse pulou a cerca de costas e nem percebeu.

Veio uma menina que ria dormindo, um risinho curto, e o riso ficou pendurado no capim depois que ela passou.

Nina foi gostando cada vez mais daquilo. Descobriu que criança dormindo faz um monte de coisa engraçada: fala palavra sem sentido, aperta o cobertor, procura com o pé um lugar mais fresco no lençol. E tem criança que dorme com a mão levantada, como se estivesse esperando alguém segurar.

— Doze crianças — disse ela. — Treze crianças. Catorze crianças.

O Sono Vai Chegando de Mansinho

A partir de um número que Nina não soube dizer qual foi, a coisa mudou de jeito.

As crianças não vinham mais uma de cada vez. Vinham de duas em duas, de três em três, sem barulho, e o pulo delas ficou tão devagar que parecia mais um flutuar comprido.

E a voz de Nina foi baixando.

— Dezoito crianças... dezenove crianças... vinte crianças...

Ela reparou que estava errando. Repetiu o vinte e dois sem perceber. Pulou o vinte e cinco inteiro e nem voltou para buscar.

A cabeça dela pendeu para o lado.

O tufo da testa caiu no olho e ela não teve vontade nenhuma de tirar.

Três crianças de pijama flutuando bem devagar por cima de uma cerca de madeira ao luar, enquanto uma ovelhinha branca de olhos pesados as observa deitada na grama

— Trinta crianças — disse Nina, e a palavra saiu enrolada, como sai palavra dita com a bochecha encostada no chão.

A lista estava ficando comprida. Comprida e macia, como uma coberta grande demais para a cama.

E era esquisito, mas era gostoso: quanto mais crianças ela contava, menos sozinha ela ficava no escuro. Porque cada uma que pulava aquela cerca era uma criança que estava dormindo, naquele exato minuto, em algum lugar do mundo. Na cama de cima de um beliche. Num colchão no chão da casa da avó. Numa rede na varanda. Num quarto pequeno com chuva na janela.

A Lista Fica Comprida e Macia

Dali em diante, Nina quase não abriu mais os olhos.

Ela contava de olho fechado, e mesmo assim sabia quem estava passando, do mesmo jeito que a gente sabe, sem olhar, quem entrou no quarto.

— Quarenta crianças.

Plum.

— Cinquenta crianças.

Plum, plum.

— Sessenta crianças.

Plum, plum, plum.

Os números foram ficando redondos e o pasto foi ficando quieto. O vento parou de mexer o capim. A lua desceu um pouquinho.

— Setenta crianças — disse Nina, bem baixinho.

Não veio mais nenhum plum. Não porque as crianças tivessem parado de vir, mas porque elas passaram a pousar tão de leve que a grama nem sentia.

— Oitenta crianças.

O sininho de latão fez um tlim último, quando ela ajeitou o pescoço na grama. Depois ficou quieto.

— Noventa crianças.

A respiração de Nina ficou comprida. Entra devagar, sai devagar. Entra devagar, sai devagar.

— Cento e...

E não disse o resto.

Uma ovelhinha branca de fitinha vermelha dormindo enroscada no capim alto ao pé de uma cerca de madeira velha, sob uma lua baixa e um pasto silencioso

O Que o Rebanho Viu de Manhã

Quando o céu clareou, a vó Dorotéia desceu o morro para ver.

Encontrou a Nina dormindo lá embaixo, enroscada no capim junto da cerca velha, com o tufo caído no olho e a fitinha vermelha meio torta.

A vó Dorotéia não acordou a Nina. Não chamou, não fez barulho, não mexeu no capim.

Chegou pertinho de mansinho, deitou ao lado dela e ficou ali de guarda enquanto o sol subia.

Desde aquela noite, ficou combinado. Quando o céu passa de laranja para goiaba, e de goiaba para azul-escuro, o rebanho inteiro deita no alto do morro — e a Nina desce sozinha até a cerca.

Ela senta na grama. Respira fundo. E começa do um.

Às vezes dorme no vinte. Às vezes vai até quase cem. Nunca ninguém soube qual foi o número mais alto que ela alcançou, porque toda vez ela pega no sono antes de terminar de dizer.

E é bem possível — dizem as ovelhas velhas, que sabem dessas coisas — que a Nina esteja contando agora.

Talvez ela já tenha chegado num número perto do seu.

Talvez esteja faltando pouco.

Feche os olhos e imagine a cerca de três tábuas, o capim alto por baixo, a lua bem em cima.

Quando chegar a sua vez, é só levantar um pé.

Depois o outro.

E pular bem devagar.

Para conversar depois da história

Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.

  1. Se você pulasse a cerca da Nina hoje à noite, o que estaria levando na mão?
  2. Uma das crianças dormia segurando uma colher. Você tem alguma coisa que precisa estar do seu lado para você dormir?
  3. A Nina contou crianças de lugares bem diferentes. Como você acha que é dormir numa rede? E num lugar onde está nevando?

Sobre esta história

História original do Contos para Dormir, escrita para ser lida em voz alta na hora de dormir. A brincadeira nasce de um costume antigo e conhecido — o de contar carneirinhos pulando uma cerca para pegar no sono —, aqui virado do avesso: quem conta é a ovelha, e quem pula a cerca são as crianças. Não é reconto de nenhum conto clássico. O texto foi construído para desacelerar de propósito: os últimos trechos têm frases mais curtas, menos acontecimento e mais repetição que os primeiros, para acompanhar quem já está de olho pesado.

Perguntas frequentes sobre A Ovelhinha que Contava Crianças

Esta história ajuda a criança a pegar no sono?

Costuma ajudar, sim, porque ela vai ficando mais lenta de propósito. A contagem funciona como uma cantiga repetida e o final não tem acontecimento nenhum, só calmaria. Lendo devagar, muita criança dorme antes do último trecho — o que aqui não é problema, é o objetivo.

Para que idade é indicada?

Dos 2 aos 6 anos. As frases são curtas, tem refrão para a criança repetir junto e a contagem começa no um, bem devagar, o que agrada quem está aprendendo os números. Crianças um pouco maiores também gostam, principalmente da parte das crianças de outros lugares.

Quanto tempo leva para ler em voz alta?

Entre treze e quinze minutos, lendo com calma. Dá para parar em qualquer subtítulo e continuar na noite seguinte, porque cada trecho fecha um pedaço da contagem.

Tem alguma parte assustadora?

Não. Ninguém se perde, ninguém se machuca e nada aparece no escuro. O único conflito é o de não conseguir dormir, e ele se resolve devagar, do jeito mais tranquilo possível.

Que tal a história de amanhã?