
Rapunzel — A Menina da Torre
No alto de uma torre sem porta nem escada vive uma menina de cabelos compridíssimos — e um sonho de conhecer o mundo.
No topo de uma torre sem escadas, uma jovem de cabelos dourados esperava por algo que ainda não sabia nomear
Era uma vez um casal que morava numa casinha simples, encostada num muro muito alto. O muro era de pedra escura e tinha o dobro da altura de um homem, de modo que ninguém na vila sabia direito o que havia do outro lado — a não ser eles dois, que tinham uma janelinha no sótão bem na altura certa para espiar.
Do outro lado do muro havia um jardim — o mais bonito e mais bem cuidado que se podia imaginar. Os canteiros eram fileiras certinhas, sem uma folha fora do lugar. Nas manhãs de orvalho subia dali um cheiro de terra molhada e de erva fresca que entrava pela janelinha e ficava rodando dentro de casa. O jardim pertencia a uma feiticeira que ninguém da vila ousava incomodar.
A mulher esperava um bebê. E, como às vezes acontece com quem está esperando, começou a sentir uma vontade enorme de comer uma coisa específica: os rapôncios verdinhos que cresciam em fileiras certinhas no canteiro da feiticeira. Uma verdura simples, dessas de fazer salada. Mas ela olhava do alto da janela e sentia que, sem aquilo, não conseguiria mais nem dormir.
Passou três dias quase sem comer nada. Ficou pálida, quieta, com os olhos sempre virados para o mesmo pedaço do muro.
— Só um punhado — disse ela ao marido, numa noite. — Um punhado e eu durmo.
O marido esperou anoitecer. Esperou mais um pouco, até a lua entrar atrás de uma nuvem, e então subiu no muro com o coração batendo tão alto que ele achou que o jardim inteiro fosse escutar. Pisou de leve entre os canteiros, colheu um punhado depressa e voltou pelo mesmo caminho.
A mulher comeu tudo naquela mesma noite. E dormiu.

Funcionou por um dia. No outro, a vontade voltou maior. Ele pulou o muro de novo — e dessa vez a feiticeira o esperava, de braços cruzados no meio do canteiro. Não gritou, não correu atrás dele, não fez nada. Só estava ali parada, como se estivesse esperando desde sempre.
— Você me rouba? — disse ela.
O homem contou a verdade: a esposa, o bebê que vinha, a vontade que não passava.
— Ela não come há três dias — disse ele, olhando para os próprios pés. — Eu não sabia mais o que fazer.
A feiticeira ficou quieta um instante. Depois falou com uma calma que assustava mais do que grito:
— Leve quanto quiser. Leve todos os dias, se precisar. Mas o bebê que vai nascer será entregue a mim.
Ele estava com medo, e o medo faz a gente concordar com coisas que depois não sabe explicar. Ele concordou.
Voltou para casa com os braços cheios de folhas verdes e com uma coisa pesada no peito que não conseguiu contar para ninguém — nem para a mulher, nem naquela noite, nem em nenhuma das outras.
A Torre sem Porta
A menina nasceu, e a feiticeira veio buscá-la. Deu-lhe o nome de Rapunzel, por causa da verdura do canteiro, e a criou como se fosse sua.
Não foi ruim com ela, é preciso dizer. Deu comida, deu roupa, penteou aqueles cabelos todas as manhãs, ensinou o nome de cada planta do jardim. Só nunca, nem uma vez, deixou a menina passar do portão. Rapunzel cresceu achando que o mundo acabava exatamente onde acabava o muro.
Quando Rapunzel completou doze anos, a feiticeira a levou para o meio da floresta e a deixou no alto de uma torre que não tinha porta nem escada — só uma janela lá em cima, de onde se via o horizonte inteiro e os pássaros passando mais perto do céu do que da terra.

A torre era de pedra cinzenta, coberta de hera até a metade, e por dentro cheirava a musgo e a vela apagada. Tinha uma cama de palha, uma mesa, um banco e o parapeito.
— Por que eu não posso descer? — perguntou Rapunzel, no primeiro dia.
— Porque lá embaixo é perigoso — respondeu a feiticeira.
E não explicou mais nada, nem naquele dia nem em nenhum outro.
Todos os dias, no fim da tarde, a feiticeira parava embaixo da janela e chamava:
— Rapunzel, Rapunzel, joga tuas tranças!
E Rapunzel, que tinha cabelos dourados compridíssimos, prendia a ponta da trança no gancho de ferro do parapeito e soltava o resto pela janela como se fosse uma corda. A trança descia batendo na pedra, e a feiticeira subia.
Os anos passaram assim. Rapunzel aprendeu sozinha o que dava para aprender de uma janela: o nome das estrelas, o mês em que as folhas mudavam de cor, o canto de cada pássaro que pousava no parapeito.
Aprendeu que a floresta faz um barulho diferente antes da chuva, mais baixo, como se as árvores estivessem prendendo a respiração. Aprendeu a contar os dias pelo lugar onde a sombra da torre caía no chão. Aprendeu a diferença entre o cheiro do vento que vinha do norte, seco, e o do que vinha do sul, que trazia água. Aprendeu quase tudo — menos como o chão sentia debaixo dos pés.
Às vezes soltava uma pedrinha pela janela só para escutar quanto tempo ela demorava a chegar lá embaixo. Demorava. Demorava muito.

E cantava. Cantava para o silêncio da floresta, não porque quisesse plateia, mas porque a voz era a única coisa dela que conseguia sair da torre. A voz descia pela pedra, atravessava as copas das árvores e ia embora sozinha, para onde ela não podia ir.
O Canto que Atravessou a Floresta
Um jovem andava a cavalo pela floresta quando parou no meio do caminho. Tinha ouvido uma voz — e não conseguiu seguir adiante enquanto não descobrisse de onde vinha.
Puxou as rédeas e ficou parado, escutando, com a mão no pescoço do cavalo para que ele também ficasse quieto. O som vinha de cima, de algum lugar acima das copas, e sumia quando o vento virava.
Procurou a torre por dias. Achou numa manhã, atrás de um matagal de espinheiros. Rodeou a pedra inteira, passou a mão pelas juntas procurando uma fresta, bateu com o punho fechado em três lugares diferentes. Não havia entrada nenhuma. Nem porta, nem escada, nem degrau.
Voltou no dia seguinte e ficou escondido entre as árvores até o fim da tarde. Foi assim que viu a feiticeira chegar, chamar pelas tranças e subir pela parede como quem sobe a escada da própria casa.
No outro dia, quando a floresta estava vazia, ele chegou perto e repetiu o chamado, com a voz meio trêmula:
— Rapunzel, Rapunzel, joga tuas tranças!
As tranças desceram.
Ele subiu com as mãos ardendo e o coração acelerado. E Rapunzel levou um susto tão grande quando viu um rosto desconhecido na janela que se encolheu contra a parede.

— Não tenha medo — disse ele, ainda sem fôlego. — Eu vim por causa do canto. Ouvi lá embaixo e não consegui ir embora.
— Você me escutou? — perguntou ela, sem sair da parede. — De onde?
— Do caminho, longe daqui. Faz uma semana que eu procuro esta torre.
Rapunzel o olhou demoradamente. Tinha passado a vida estudando o mundo por uma janela e havia aprendido, à sua maneira, a perceber quando alguém falava a verdade.
Conversaram até o sol baixar. Ele contou como era a vila: o cheiro do pão de manhã, o barulho do mercado, os cachorros dormindo na sombra do meio-dia, o sino que tocava sem que ninguém soubesse mais por quê.
— E o mar? — perguntou ela, em algum momento. — Como é o mar?
— Fica a três dias daqui — disse ele. — É grande demais para explicar. Você tem que ver.
Ela contou o nome das estrelas, uma por uma, apontando com o dedo, e ele descobriu que sabia menos do céu do que uma moça que nunca tinha saído de um quarto redondo.
Ele voltou no outro dia. E no outro. E foi ficando combinado, sem ninguém precisar dizer, que ele viria sempre — sempre depois que a feiticeira ia embora, sempre antes de escurecer.
— Traga um novelo de linha cada vez que vier — pediu Rapunzel um dia. — Eu vou trançar uma escada. Quando estiver comprida o bastante, eu desço sozinha.
— Eu posso te carregar — disse ele.
— Pode — respondeu ela. — Mas eu quero descer com as minhas pernas.

E assim foi. Ele trazia um novelo por vez, escondido dentro do casaco, e ela trançava de noite, com a vela acesa, e guardava o trabalho enrolado embaixo do colchão de palha. A escada crescia devagar, um palmo por dia. Rapunzel media com o braço e calculava, em silêncio, quantos dias ainda faltavam para o chão.
O Deserto e o Reencontro
A feiticeira descobriu. Descobriu como as coisas assim são sempre descobertas: por um deslize pequeno, uma frase distraída que Rapunzel deixou escapar numa tarde qualquer, sobre alguém que subia bem mais depressa do que ela.
Ficou furiosa. Cortou as tranças com uma tesourada só e levou Rapunzel para longe dali, para uma terra seca e vazia onde não havia torre nenhuma — nem ninguém.
Depois voltou, amarrou as tranças cortadas no gancho da janela e esperou, sentada no escuro.
Ao entardecer, o chamado veio de baixo. As tranças desceram. E quando o jovem chegou ao parapeito, quem estava lá era a feiticeira.
— Ela se foi — disse a feiticeira. — E você não vai encontrá-la nunca.
Ele recuou, escorregou e caiu da janela. Os espinhos do matagal machucaram seus olhos, e ele ficou sem enxergar.
Andou anos assim. Atravessou vilarejos e campos, comendo o que os outros lhe davam, dormindo onde a noite o pegava. Aprendeu a andar contando passos. Aprendeu a reconhecer as estradas pelo som que os pés faziam nelas — areia, pedra, capim. Aprendeu a saber que estava chegando numa vila pelo cheiro da fumaça dos fogões.
E em cada lugar onde parava, perguntava sempre a mesma coisa: se alguém tinha visto por ali uma moça de cabelos dourados que cantava.
Muita gente disse que não. Ele continuou perguntando.

Até que um dia, numa terra seca e quase sem gente, ouviu uma voz ao longe.
Era a voz. A mesma.
Ele caminhou na direção do som, tropeçando, com o coração batendo forte, e Rapunzel — que agora vivia ali, e que havia aprendido a plantar num chão duro o pouco que dava para plantar — o reconheceu antes que ele chegasse perto.
Correu até ele e o abraçou chorando. E duas lágrimas caíram nos olhos dele.
Ninguém nunca soube explicar direito o que aconteceu depois. Só se sabe que o jovem enxergou de novo — e que a primeira coisa que viu, depois de todos aqueles anos no escuro, foi o rosto que tinha procurado.
Voltaram juntos para a vila dele, andando devagar, sem pressa nenhuma, parando sempre que dava vontade de parar. E Rapunzel, que havia passado a vida inteira olhando o mundo de uma janela, finalmente sentiu o chão debaixo dos pés — a grama molhada de manhã, a poeira do caminho, as pedrinhas soltas que rolavam sob o calcanhar, e o cheiro do pão saindo do forno logo na primeira rua da vila.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- A Rapunzel aprendeu muita coisa olhando pela janela. O que dá para aprender só observando?
- Por que você acha que ela quis fazer uma escada em vez de pedir para alguém salvá-la?
- O jovem procurou por ela durante anos. O que faz uma pessoa não desistir de procurar?
Sobre esta história
Rapunzel foi publicada pelos Irmãos Grimm em 1812, mas a história é mais antiga: passa por Persinette, da francesa Charlotte-Rose de La Force (1698), e por Petrosinella, do italiano Giambattista Basile (1634). Em todas elas há o mesmo núcleo — a verdura roubada do jardim, o bebê prometido, a torre sem porta e as tranças. Nossa recontagem segue o enredo dos Grimm, incluindo o reencontro final no deserto.
Perguntas frequentes sobre Rapunzel — A Menina da Torre
Qual é a moral de Rapunzel?
Que ninguém consegue prender outra pessoa para sempre, e que a liberdade se conquista com paciência e coragem. A história também fala sobre não desistir de quem se ama: o jovem procura por anos, mesmo sem enxergar, e é isso que reaproxima os dois.
Por que a personagem se chama Rapunzel?
Rapunzel é o nome de uma verdura de salada — o rapôncio. Na história, a mãe da menina sente uma vontade enorme de comer essa planta do jardim da feiticeira, e é por isso que a criança recebe esse nome.
A história de Rapunzel tem final feliz?
Sim. Depois de anos separados, os dois se reencontram e voltam a viver juntos. É um final feliz que chega depois de uma parte triste — o que costuma render boas conversas com crianças a partir dos 6 ou 7 anos.


