
O Soldadinho de Chumbo
Vinte e cinco soldadinhos nasceram da mesma colher velha — e o último, o de uma perna só, foi o que viajou mais longe.
De uma colher velha nasceram vinte e cinco irmãos, e o último deles atravessou a cidade inteira sem perder a postura
Era uma vez vinte e cinco soldadinhos de chumbo.
Eram todos irmãos, porque tinham saído da mesma colher — uma colher velha que um dia serviu sopa naquela casa e que agora era um exército inteiro dentro de uma caixa de papelão.
O menino ganhou a caixa numa manhã de aniversário. Tirou a tampa e lá estavam eles, deitados em fileira, dormindo lado a lado: casaco azul, calça branca, quepe preto e a mesma cara séria em todos.
— Soldados — disse o menino, baixinho, do jeito que a gente fala com uma coisa que acabou de chegar.
Foi tirando um por um e pondo de pé na mesa da sala.
Vinte e quatro ficaram iguais.
O último ficou diferente.
É que a colher tinha acabado. Quando chegou a vez dele, sobrou chumbo para o casaco, para os botões, para as duas mãos, para o quepe, para o rosto inteiro com as bochechas rosadas — e para uma perna só.
O menino olhou aquilo bem de perto.
— Esse aqui veio torto.
Mas o soldadinho não veio torto coisa nenhuma. Ele veio de uma perna só, que é bem diferente de vir torto.
E ficou de pé.
De pé numa perna só, tão firme quanto os outros vinte e quatro estavam nas duas.
O menino experimentou de novo, para ter certeza. Deitou o soldadinho na mesa, levantou. Deitou outra vez, levantou outra vez. Não teve jeito: ele ficava sempre de pé, no mesmo lugar, com a mesma cara séria, como se aquilo nem fosse assunto.
Em cima daquela mesa havia brinquedo para o dia inteiro. Um pião. Bichos de madeira. Um quebra-cabeça começado num canto. Uma caixinha de rapé com tampa de encaixe, dessas antigas.
O menino achou graça e deixou o soldadinho na ponta da fila, bem na beirada da mesa, virado para a sala.
Foi dali, daquela beirada, que o soldadinho viu o castelo.

A Bailarina de Papel
O castelo ficava do outro lado da mesa e era feito de papel.
A irmã mais velha do menino tinha construído tudo numa tarde de chuva: as torres, as janelinhas recortadas com tesoura, o portão de papel dobrado que abria de verdade. Na frente havia um lago que era um pedaço de espelho, e em volta do lago, cisnes de papel que se olhavam na própria imagem.
E na porta do castelo, em pé, estava a bailarina.
Também de papel. Saia branca aberta como uma flor, fita azul na cintura, os braços levantados acima da cabeça.
Ela dançava com uma perna erguida para trás — tão erguida, tão escondida atrás da saia, que dali de longe não dava para ver.
O soldadinho olhou aquilo por um tempo bem grande.
— Ela também tem uma perna só — pensou. — Igual a mim.
E, de tanto olhar, decidiu uma coisa: era ali que ele queria ficar.
Passou a tarde inteira assim, na beirada da mesa, o olhar em frente, sem piscar. Nem tinha como piscar, mas mesmo se tivesse, não piscaria.
Foi então que uma voz saiu da caixinha de rapé que ficava ao lado do castelo.
— Ei. Soldado.
A caixinha tremeu, a tampa pulou e de dentro subiu um boneco de mola, todo preto, com um sorriso torto de quem gosta de aprontar.
— Olhos para frente — disse o boneco, balançando na mola. — Você não vai ficar aí olhando o que não é seu.
O soldadinho não respondeu.
— Está me ouvindo? — disse o boneco, chegando mais perto, gingando.
O soldadinho continuou de pé, uma perna só, o olhar em frente.
O boneco de mola bufou, desceu de volta para dentro da caixinha e fechou a tampa com um estalo.
— Amanhã a gente conversa — disse a voz lá de dentro.

A Janela que Ficou Aberta
De manhã, alguém abriu a janela da sala para arejar.
Entrou vento. Entrou barulho de rua. Entrou aquele cheiro de cidade molhada que vem quando o dia ainda não decidiu se vai chover.
O menino chegou depressa, pôs o soldadinho no parapeito da janela — porque dali dava para ver a rua inteira, e quem é soldado gosta de vigiar — e saiu correndo, chamado pela mãe.
O soldadinho ficou ali.
Embaixo dele, três andares. Carroças passando. Um homem varrendo a calçada. Um cachorro dormindo no sol.
E então o vento deu uma virada.
Nunca se soube direito se foi só o vento ou se o boneco de mola deu uma ajudinha lá de dentro da caixa. O fato é que a cortina inflou, o parapeito tremeu e o soldadinho de chumbo despencou.
Três andares.
Ele caiu de cabeça para baixo, girando devagar no ar, e foi parar entre duas pedras da calçada, com o quepe enfiado no chão e a perna apontada para cima.
O menino desceu correndo. A irmã desceu atrás, ainda de meia, sem tempo de calçar nada.
Procuraram por toda parte. Empurraram folha seca com o pé, olharam embaixo da grade, viraram o cesto de lixo da esquina, passaram a mão no vão das pedras. Chamaram alto, os dois, como se um soldadinho de chumbo pudesse responder de algum lugar.
Quase pisaram nele duas vezes.
Uma vez o sapato do menino parou a um dedo do quepe preto.
Se ele tivesse gritado, teriam achado na hora. Bastava um "estou aqui" bem pequeno.
Mas soldado não grita. Ainda mais um soldado de chumbo plantado de cabeça para baixo entre duas pedras de calçada, esperando com toda a paciência que existe no mundo.
Os dois subiram sem ele, olhando para trás na porta.
E aí começou a chover.

O Barco de Papel
Choveu daquele jeito que lava a rua.
A água escorreu pelos telhados, desceu pelas calhas, encheu a sarjeta e virou um rio pequeno correndo rente à calçada.
Quando a chuva parou, dois meninos vieram brincar na água.
Um deles viu o soldadinho entre as pedras.
— Olha! Um soldado!
Tirou ele do buraco, sacudiu, admirou. O outro já estava dobrando uma folha de jornal. Dobrou de um lado, dobrou do outro, abriu no meio — e ficou um barquinho de papel, desses que qualquer criança do mundo sabe fazer.
Puseram o soldadinho dentro.
— Boa viagem!
E empurraram o barco na correnteza da sarjeta.
O barco pegou velocidade na hora. Rodou uma vez, endireitou e saiu descendo a rua inteira, balançando, tomando água pelas laterais, mergulhando e subindo de novo.
Os dois meninos correram na calçada acompanhando, gritando e batendo palma, até o barco ganhar uma curva e sumir da vista deles.
Dentro do barco, o soldadinho continuava de pé.
Uma perna só. O olhar em frente.
O Rato do Túnel
A sarjeta ia dar num túnel debaixo da rua, escuro e comprido como o corredor de uma casa sem luz.
O barquinho entrou lá dentro.
De repente o mundo ficou preto e o barulho da água ficou enorme, ecoando nas paredes de pedra.
Foi aí que apareceu o rato.
Era um rato grande, cinzento, de bigodes compridos, que morava naquele túnel e achava que o túnel era dele.
Veio correndo pela beirada, indignado.
— Alto lá! Onde está o seu passe? Ninguém passa por aqui sem passe!
O barquinho nem diminuiu. Passou reto, girando na correnteza.
— Segura ele! — gritou o rato para a água. — Ele não pagou o pedágio!
E saiu correndo pela margem estreita, bufando, escorregando nas pedras, os bigodes tremendo de raiva.
Correu até onde dava. Depois parou, sem fôlego, e ficou olhando o barquinho ir embora túnel adentro.
Lá na frente, um pontinho de luz foi crescendo.
O barulho da água aumentou.
Aumentou mais.
E o soldadinho entendeu, do jeito que a gente entende as coisas quando não dá mais para fazer nada a respeito, que o túnel ia terminar numa queda.

O Escuro Grande
O túnel despejava num canal largo, daqueles que atravessam a cidade.
O barquinho saiu voando na queda, bateu na água e começou a afundar.
O papel de jornal foi amolecendo. As bordas murcharam, o fundo cedeu, a tinta escorreu.
O soldadinho ficou de pé até o último instante — e depois não teve mais barco embaixo dele.
Foi descendo.
E, no caminho, um peixe grande passou, viu aquilo brilhando e engoliu de uma vez, achando que era comida.
Dentro do peixe estava escuro. Mais escuro que o túnel.
Era apertado, era abafado e não dava para enxergar nada.
O soldadinho ficou parado.
Não tinha mais rua, não tinha mais barco, não tinha mais luz. Só o balanço do peixe nadando, para lá e para cá, uma hora depois da outra.
Então ele fez a única coisa que sabia fazer.
Ficou de pé.
Uma perna só. O olhar em frente. No escuro, onde ninguém estava vendo.
E era esse o detalhe: ninguém estava vendo. Não tinha menino para achar graça, não tinha irmã para elogiar, não tinha nem o boneco de mola para implicar. Ficar de pé ali dentro não servia para impressionar absolutamente ninguém.
Ele ficou assim mesmo.
Para passar o tempo, foi lembrando da sala lá de cima. Lembrou da mesa comprida. Do pião parado num canto. Do espelho que fazia de lago. Dos cisnes de papel se olhando na própria imagem.
E lembrou, principalmente, da bailarina de saia branca parada na porta do castelo, com a fita azul na cintura e os braços levantados acima da cabeça.
Lá fora, o peixe nadava.
Lá dentro, o soldadinho esperava.
E o tempo foi passando bem devagar, do jeito que passa quando não dá para contar nem os dias.
Uma hora o peixe subia e a água ficava mais clarinha por um instante, um cinza de leite entrando por alguma fresta. Outra hora descia, e voltava tudo a ser preto.
O soldadinho aprendeu a diferença entre os dois pretos.
Era só isso que ele tinha para fazer, e ele fez direito, hora depois de hora, sem ninguém para conferir.

A Cozinha Conhecida
O peixe nadou por muito tempo, incomodado com aquele peso duro na barriga.
Até que se enroscou na rede de um pescador, que o levou para o mercado. Lá uma cozinheira achou o peixe bonito, pagou o que era justo e voltou para casa com ele embrulhado num papel.
E foi assim, sem ninguém combinar nada, que o soldadinho de chumbo voltou para a mesma casa de onde tinha caído.
Na cozinha, a cozinheira abriu o peixe na tábua para preparar o almoço — e deu um gritinho.
— Mas o que é isso, meu Deus do céu?
Lavou o soldadinho na torneira e saiu pelo corredor chamando todo mundo.
O menino veio correndo. A irmã veio atrás.
— É ELE! — gritou o menino. — É o meu soldado!
E era. Mais escuro do que antes, com uma marca de tinta de jornal no ombro, mas era ele, inteiro, de uma perna só.
Puseram o soldadinho de volta na mesa da sala, onde o castelo de papel continuava lá e o espelho continuava fazendo de lago.
E na porta, com os braços levantados acima da cabeça, a bailarina de papel continuava na mesma pose, como quem não saiu do lugar um minuto sequer.
A Mão que Chegou a Tempo
Aí aconteceu uma bobagem, dessas que acontecem quando ninguém está reparando.
O irmão menor pegou o soldadinho da mesa da sala, levou para a cozinha e atirou ele na direção do fogão, achando graça.
O soldadinho voou, bateu na borda de ferro e caiu no cinzeiro quente, ali na frente da boca do fogo.
Ficou lá. De pé, é claro. Uma perna só.
E começou a esquentar.
O chumbo foi ficando morno, depois quente, depois brilhante — e o soldadinho sentiu que estava começando a mudar de jeito.
Foi quando a janela bateu com o vento.
O mesmo sopro levantou a bailarina de papel da mesa da sala. Ela girou no ar, atravessou o corredor rodando e veio parar no chão da cozinha, bem ali.
Nesse instante a irmã mais velha entrou.
Viu tudo de uma vez: o cinzeiro, o brilho, a bailarina no chão, o irmão menor rindo sem entender.
— NÃO!
Pegou o pano de prato, enrolou a mão e tirou o soldadinho do calor num movimento só. Depois recolheu a bailarina do chão.
Levou os dois para a pia e deixou a água fria correr no chumbo até parar de sair fumacinha.

A Noite Mais Quieta da Casa
Quando o soldadinho esfriou, todo mundo veio ver como ele tinha ficado.
Estava mais escuro num lado, mais liso no outro e mais brilhante do que nunca tinha sido. E no peito, bem no meio do casaco azul, o calor tinha deixado uma marquinha pequena, meio redonda, meio pontuda.
A irmã virou o soldadinho para a luz da janela.
— Olha aqui — disse ela. — Ficou um coração.
À noite, a casa foi se apagando de cômodo em cômodo, como as casas fazem.
O menino ficou dormindo com a mão pendurada para fora da cama. A cozinha esfriou. A rua ficou com aquele barulho baixinho de cidade cansada.
Na estante da sala, longe de qualquer janela aberta e bem longe do fogão, a irmã tinha deixado os dois lado a lado.
O soldadinho de chumbo, com a marquinha de coração no peito.
E a bailarina de papel, de braços levantados, na mesma pose de sempre.
O soldadinho olhou para ela.
Ela olhou para ele.
Nenhum dos dois disse nada, porque nenhum dos dois falava — mas foi a coisa mais parecida com uma conversa que já tinha acontecido naquela casa.
Ele passou a noite inteira de pé, como sempre.
Uma perna só.
O olhar em frente.
Só que dessa vez não tinha mais nada para vigiar.
E o resto da noite foi silêncio. O soldadinho ficou ali, quietinho, do lado dela, até o dia amanhecer de novo.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O soldadinho tinha uma perna a menos que os irmãos. Isso atrapalhou ele em alguma coisa?
- Dentro do peixe estava escuro, apertado e demorado. O que você faria para aguentar um lugar assim?
- Ele passou a história inteira querendo voltar para o mesmo lugar. Qual é o lugar para onde você gosta de voltar?
Sobre esta história
O Soldadinho de Chumbo foi publicado por Hans Christian Andersen em 1838, na coleção Contos de Fadas Contados para Crianças, e está em domínio público. Nossa recontagem segue de perto o enredo original: os vinte e cinco irmãos saídos da mesma colher, a bailarina de papel, o boneco de mola, a queda da janela, o barco na sarjeta, o rato do túnel e o escuro dentro do peixe. A mudança está no desfecho: no conto original, o soldadinho termina derretido no fogão e a bailarina se perde no fogo. Aqui ele é resgatado a tempo, e os dois voltam inteiros para a estante.
Perguntas frequentes sobre O Soldadinho de Chumbo
Quem escreveu O Soldadinho de Chumbo?
O dinamarquês Hans Christian Andersen, que publicou a história em 1838. É o mesmo autor de A Pequena Sereia, O Patinho Feio e A Roupa Nova do Rei. O conto está em domínio público há muito tempo, e por isso existem tantas versões diferentes dele por aí.
O soldadinho de chumbo morre no final?
No conto original de Andersen, sim: ele acaba derretido no fogão e a bailarina de papel se perde no fogo. Nesta versão do Contos para Dormir, ele é retirado do calor a tempo por uma mão que chega correndo, e volta inteiro para a estante. O susto continua na história; a perda, não.
Esta história é assustadora para crianças pequenas?
Nesta versão, não. As passagens tensas — a queda da janela, o rato do túnel, o escuro dentro do peixe — são curtas e sempre terminam em alívio. Ninguém se machuca e o último trecho é calmo de propósito, para fechar o dia.
Para que idade essa história é indicada?
Dos 5 aos 10 anos. A viagem tem muitas etapas seguidas, o que agrada crianças que já acompanham histórias mais longas, e o personagem é fácil de guardar: um soldadinho de uma perna só que não perde a postura em lugar nenhum.


