
João e o Pé de Feijão: A Versão Brasileira
A história do pé de feijão como você nunca ouviu: com papagaios, cheiro de terra molhada e um jeitinho bem brasileiro.
No sertão rachado de sol, um menino trocou a última coisa que a família tinha por três sementes
Fazia onze meses que não chovia direito no Alto da Pedra.
O açude tinha virado uma poça com cheiro ruim, um cheiro doce e parado de barro cozinhando ao sol. O juazeiro do quintal perdeu quase todas as folhas e ficou parecendo desenho de árvore feito com lápis quase gasto. E a roça de Dona Zefa, que já não era grande, tinha virado um chão duro e rachado que nem valia a pena capinar.
Restava a cabra.
Chamava-se Rainha, dava leite de manhã e era, naquela altura, o patrimônio inteiro da família — que era Dona Zefa e o filho dela, o Joca, de dez anos.
A Rainha encostava a testa na perna da gente quando queria carinho e mastigava o que aparecesse pela frente: corda, papel, a barra da camisa de Joca. Tinha emagrecido junto com todo mundo, mas continuava dando o leite, teimosa.
— Filho — disse Dona Zefa numa segunda-feira, com a voz de quem passou a noite decidindo. — Leva a Rainha na feira e vende. Com o dinheiro a gente compra farinha e vai empurrando.
Joca olhou para a mãe. A mãe olhou para a parede.
— Sim, senhora.
Ele pegou a corda e foi. Não perguntou nada, porque tinha entendido que pergunta, ali, ia doer nos dois.
O Homem da Sombra
No meio do caminho, embaixo do único pé de umbu com sombra decente, havia um homem sentado.
Era velho, magro, de chapéu de couro. Tinha ao lado uma cuia e um saquinho de pano.
— Bom dia, moço — disse Joca, porque a mãe tinha ensinado.
— Bom dia. Bonita, a cabra.
— É a Rainha. Vou vender na feira.
O velho fez que sim com a cabeça devagar, como quem já sabia.
— Eu compro.
Joca ficou animado. A feira ainda era longe e a Rainha já tinha parado duas vezes para procurar sombra.
— O senhor paga quanto?
O homem não teve pressa. Abriu o saquinho de pano e despejou na palma da mão três sementes. Eram feijões — mas feijões esquisitos, meio azulados, com um brilho fosco que não era de feijão nenhum que Joca conhecesse.
— Isto aqui.
Joca riu. Riu de verdade, sem graça nenhuma.
— Moço, minha mãe me mata.
— Provavelmente — concordou o velho. — Mas escuta: você já viu chover neste sertão?
— Já. Uma vez, quando eu era pequeno. A água descia pelo morro fazendo barulho de gente conversando.
— Então você sabe que a terra fica onze meses parecendo morta e num dia só fica verde. Não é que a terra estava morta. É que ela estava esperando.
Ele estendeu a mão com as três sementes.
— Estas aqui não esperam chuva. Estas aqui chamam.
Joca olhou as sementes. Depois olhou para a Rainha, que tinha achado uma folha seca e estava ocupadíssima com ela.
Entregou a corda.

A Volta para Casa
Dona Zefa estava na porta quando Joca chegou. Sem cabra. Com a mão fechada.
Ela não gritou.
Foi pior: ela sentou no degrau, olhou para o chão rachado do quintal e ficou muito quieta por um tempo comprido.
— Mãe — disse Joca. — O homem falou que estas sementes...
— Vai dormir, Joca.
— Mãe, ele disse que elas chamam a...
— Vai dormir.
E foi só isso. Nem grito, nem sermão. Se a mãe tivesse brigado, Joca ia poder brigar de volta, e brigar é uma coisa que todo menino sabe fazer. Contra aquele silêncio ele não sabia nada.
Subiu para a rede com um nó na garganta.
Mas antes, quando a casa já estava escura e a respiração da mãe já tinha ficado funda, ele saiu de fininho pela porta dos fundos.
A lua estava alta e o quintal inteiro era cinza e prata. Joca se agachou perto do juazeiro, no pedaço de terra que ainda era terra e não pedra, e cavou três buraquinhos com o dedo. O chão estava tão seco que rangia.
Enfiou uma semente em cada um, cobriu e apertou de leve com a palma da mão, do jeito que tinha visto a mãe fazer mil vezes.
Depois foi buscar o pote e jogou por cima a água que sobrou — meio caneco, que era o que tinha.
— Chama — pediu baixinho, se sentindo o maior bobo do mundo.
Voltou para a rede, chorou baixinho para a mãe não ouvir, e dormiu.

A Manhã
Acordou com um barulho que não sabia identificar.
Não era galo. Não era vento na poeira, que é barulho seco, de coisa se arrastando. Era um barulho fofo e enorme, farfalhante, como se muita gente folheasse muitos livros ao mesmo tempo.
Era vento nas folhas. Muitas folhas.
Joca saiu correndo e parou seco no meio do quintal.
Do lugar onde ele tinha enterrado as sementes subia um caule verde, grosso feito tronco de coqueiro, torcido em espiral feito corda, com folhas do tamanho de esteira. Subia, subia, subia — atravessava a altura do juazeiro, atravessava a altura da casa, atravessava a altura do morro atrás da casa.
E ia se perder lá em cima, dentro de uma nuvem branca e gorda, dessas que no sertão a gente aprende a olhar com esperança e desconfiança na mesma medida.
O chão em volta do pé estava escuro. Joca se abaixou e encostou a mão: molhado. Água fria vindo debaixo da terra, num quintal onde fazia onze meses que nada era molhado.
Um bando de papagaios apareceu não se sabe de onde e ficou dando volta na folhagem, gritando feito gente discutindo.
Dona Zefa apareceu na porta, com a xícara na mão.
E a xícara caiu.

A Subida
— Nem pense — disse ela.
— Mãe, eu vou.
— Joca!
— A senhora falou que a gente ia empurrando. Eu vou ver o que tem lá em cima.
Mas Joca já tinha posto o pé na primeira volta do caule.
Subiu a manhã inteira. O tronco era torcido de um jeito que dava para pisar como escada, e ele foi indo, com as pernas tremendo, sem olhar para baixo — porque olhar para baixo, ele descobriu, é o que faz a coragem escorrer pelo pé.
Mesmo assim olhou uma vez. A casa virou caixinha de fósforo, o açude virou uma mancha, e o morro atrás da casa, que era a coisa maior do mundo dele, virou um calombo no meio do amarelo.
A casca do pé de feijão cheirava a mato cortado e soltava uma seiva pegajosa que grudava na palma da mão. Era bom. Era cheiro de coisa viva.
Lá pela metade, com o sol batendo em cima da cabeça, Joca teve vontade de desistir. Pensou na mãe sentada no degrau, olhando o chão rachado. Continuou.
Quando atravessou a nuvem, o ar ficou frio e molhado de repente, e ele teve que fechar os olhos por causa da água. Ficou um tempo dentro do branco, sem ver nada, com gotas escorrendo pelo queixo. Passou a língua no lábio. Água doce.
Era a primeira chuva dele em onze meses, e cabia dentro de uma nuvem.
Depois o branco abriu.
Do outro lado, tinha chão.

O Que Havia Lá em Cima
Era uma terra verde.
Verde de um jeito que Joca nunca tinha visto: capim até o joelho, árvore carregada de fruta que ele não sabia o nome, e água — água correndo por todo lado, em fiozinhos que se juntavam e viravam riacho, sem ninguém para beber.
Ele se ajoelhou num desses fios e bebeu até doer a testa. Depois ficou olhando a água ir embora, correndo à toa, e sentiu uma coisa parecida com raiva.
E, no meio daquilo, uma casa. Uma casa do tamanho de uma igreja, com telha do tamanho de porta.
Joca entrou pela fresta da porta, que já era mais larga que a casa dele.
Lá dentro cheirava a feijão cozido e a terra molhada. Havia sacos empilhados até o teto: sacos de feijão, de milho, de farinha. Havia potes de barro do tamanho de um boi, cheios de água limpa — tão cheios que transbordavam devagarinho pelo chão, sem ninguém se importar.
E havia, roncando numa rede que ia de uma parede à outra, um gigante.

A Conversa
Joca era menino e tinha medo, mas era também filho de Dona Zefa. Encheu o peito.
— Moço.
O ronco parou.
— MOÇO!
O gigante abriu um olho. Depois o outro. Sentou-se na rede, e a casa inteira rangeu feito porteira velha.
Olhou para baixo, viu um menino de calça remendada e chapéu de palha parado no meio do assoalho e coçou a cabeça. A barba dele era branca, desarrumada, com uma folha seca presa no meio.
— Como é que você subiu aqui?
— Pelo pé de feijão. Moço, o senhor tem água demais.
O gigante piscou.
— Tenho.
— E lá embaixo não tem nenhuma. Faz onze meses.
— Onze meses? — o gigante se inclinou para a frente, e o assoalho gemeu. — Onze meses sem chover?
— Onze. O açude secou. A gente vendeu a cabra. Quer dizer: eu troquei a cabra.
O gigante ficou quieto. Olhou para os potes transbordando no canto da sala, para a poça que a água fazia no chão dele havia sabe-se lá quanto tempo.
— Menino, eu não desço faz vinte anos. Minhas pernas não aguentam mais a descida. Daqui de cima só se enxerga nuvem por baixo.
E aí ele disse uma coisa que Joca não esperava:
— Eu não sabia.
Falou baixinho, para o tamanho dele.
O Que Joca Trouxe
Podia ter pegado tudo.
De tarde o gigante cochilou de novo, os sacos estavam ali, empilhados até o teto, e ninguém no Alto da Pedra ia perguntar de onde tinha vindo.
Joca ficou olhando os sacos de feijão e pensou na mãe sentada no degrau, olhando o chão rachado. Pensou em chegar em casa com um saco nas costas e não ter o que responder se ela perguntasse.
E não pegou.
— Moço — disse, quando o gigante acordou. — O senhor me empresta uma coisa?

O gigante puxou um pedaço de couro, tirou um carvão apagado do fogo e desenhou com o dedo mindinho, que para ele era fino feito lápis: o morro, a casa, o juazeiro e um risco por baixo de tudo.
— Cava aí — disse, apontando. — Tem veia d'água. Vocês estão pisando em cima dela há vinte anos. Daqui de cima dá para ver o verdinho que ela faz, mesmo na seca. Aí embaixo, não dá.
Joca desceu com duas coisas amarradas nas costas: o pedaço de couro com o desenho e um saquinho de sementes azuladas — as mesmas.
A descida levou o resto do dia. Dona Zefa estava no mesmo degrau.
O Alto da Pedra Hoje
Cavaram no lugar do desenho: ela, ele e dois vizinhos que vieram rir e ficaram ajudando. No terceiro dia bateu água.
O poço do Alto da Pedra deu para a família de Dona Zefa, para as três casas vizinhas e para o gado de todo mundo que quis trazer.
E as sementes azuladas foram plantadas na roça, e a roça pegou — não com pé gigante, porque no chão comum elas viravam feijão normal mesmo. Mas feijão normal, em terra com água, já é muita coisa.
O pé grande secou sozinho depois de umas semanas, e o caule virou lenha para o fogão do bairro inteiro.
Dizem que Joca subia de vez em quando, enquanto o pé aguentou, levando queijo e notícia.
E dizem que o gigante, que não descia havia vinte anos, chorou na primeira vez em que alguém apareceu lá em cima só para conversar.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- A mãe do Joca ficou brava com a troca. Você acha que ela tinha razão?
- Ele podia ter pegado tudo lá de cima e não pegou. Por quê?
- O que você faria com uma semente que crescesse até as nuvens?
Sobre esta história
João e o Pé de Feijão é um conto popular inglês, cuja versão mais conhecida foi registrada por Joseph Jacobs em 1890. O enredo original — a troca da vaca por sementes, o pé que cresce até as nuvens e o gigante lá em cima — é de domínio público. Esta é uma releitura nossa, ambientada no sertão brasileiro, com cabra no lugar da vaca e uma seca no lugar da pobreza genérica.
Perguntas frequentes sobre João e o Pé de Feijão: A Versão Brasileira
Esta é a história original de João e o Pé de Feijão?
É uma releitura brasileira. A estrutura vem do conto popular inglês registrado por Joseph Jacobs em 1890, mas o cenário, os personagens e o desfecho são nossos. A versão tradicional também está no acervo, com o título João e o Pé de Feijão.
O que muda nesta versão?
O cenário é o sertão em época de seca, a troca é por uma cabra em vez de uma vaca, e o gigante não é derrotado à força. O que Joca traz de cima também é diferente — e é o que dá sentido à história aqui.
Para que idade é indicada?
Dos 5 aos 9 anos. Tem aventura e um gigante, mas nenhuma passagem violenta: o conflito se resolve por conversa.


