
Expedição ao Fundo do Quintal
Lupa na mão, caderno na sacola e lanterna de emergência: um menino resolve explorar o próprio quintal e descobre que ele não acaba mais.
Um menino, uma lupa e um quintal que não acabava mais
Chico tinha seis anos e uma ideia.
A ideia tinha nascido na noite anterior, naquela hora em que a luz já está apagada e a cabeça ainda não. Foi assim: se existe gente que viaja o mundo inteiro para descobrir bicho novo, e se ninguém nunca tinha descoberto nada no quintal da casa dele, então o quintal da casa dele estava sobrando.
De manhã, ele desceu da cama antes de todo mundo. Precisava de equipamento.
A lupa estava na gaveta da cozinha, junto com as tampas de panela. Era uma lupa de cabo preto, meio riscada, que a mãe usava para ler bula de remédio. O caderno era um caderninho de capa vermelha, sem nenhuma folha escrita. O lápis ele apontou com a faca de manteiga, o que não deu muito certo, mas deu.
Faltava a lanterna.
A lanterna morava em cima da geladeira, no lugar das coisas de emergência. Chico puxou o banquinho, subiu, esticou o braço, encostou na ponta — e a lanterna caiu com um barulhão dentro da pia.
— Chico?
— Nada!
Ele guardou tudo dentro de uma sacola de feira. Lupa, caderno, lápis, lanterna. Encheu uma garrafinha de água, porque expedição sem água não vale. Botou o boné virado para trás, do jeito de quem vai mesmo.
Na porta dos fundos, chamou a tripulação.
— Fubá!
O Fubá era um cachorro pequeno, cor de milho, com uma orelha em pé e outra caída, que dormia enrolado no capacho e acordava se alguém pensasse alto demais perto dele.
— Chefe da expedição, presente — disse Chico. — Tripulação?
O Fubá bocejou.
— Isso conta como presente.

O quintal era o mesmo de sempre: o varal, o tanque de lavar roupa, o pé de goiaba encostado no muro, um canteiro de couve que a mãe regava e um monte de mato que ninguém regava e mesmo assim crescia. Do degrau até o muro do fundo davam vinte e dois passos de criança. Chico já tinha contado.
Só que naquela manhã ele não ia atravessar o quintal.
Ele ia entrar nele.
Deitou de barriga no chão, ali mesmo, a dois passos da porta.
Foi a primeira coisa que descobriu: o quintal, visto de barriga no chão, não era o mesmo quintal. O capim virava mato alto. A terra tinha buraco, caminho, montinho. Uma folha seca fazia sombra de telhado.
E passava gente. Passava muita gente.
Anotação Número Um
A primeira foi uma formiga.
Ela vinha subindo pela beirada de uma pedra, carregando um pedaço de folha maior do que ela. Bem maior. Do tamanho de um chinelo, se a formiga fosse grande como o Chico.
Chico encostou a lupa.
Dentro do vidro, a formiga ficou enorme. Dava para ver as perninhas dobrando, uma de cada vez, o pedaço de folha balançando em cima como uma vela verde, as antenas tocando o chão à frente como se estivessem lendo o caminho.
Ela chegou numa raiz atravessada. Parou. Subiu por cima. Escorregou. Desceu. Contornou. Achou outro jeito. Não largou a folha em momento nenhum.
— Fubá, olha isso.
O Fubá não olhou. O Fubá tinha achado uma sombra, e a sombra era mais interessante.
Chico seguiu a formiga com a lupa até um monte de terra fofa junto ao muro, com um buraquinho no meio. E foi aí que ele viu: não era só uma formiga. Era uma fila. Uma fila comprida, indo e voltando, cada uma com o seu pedaço verde em cima, uma estrada inteira funcionando bem ali, do lado do tanque, desde sempre, sem ninguém saber.
Ele abriu o caderno e escreveu com a letra torta e caprichada de quem está escrevendo uma coisa importante:
Anotação número um. Formiga carregadeira. Carrega folha maior que ela. Não desiste nunca. Mora num buraco perto do muro.
Leu o que tinha escrito. Achou pouco. Acrescentou:
São muitas.

Depois disso ele não conseguiu mais andar depressa.
Cada passo tinha alguma coisa. Uma casca de caracol vazia, branquinha, leve que nem papel. Uma tampinha de garrafa achatada, sem cor de tão velha. Uma pena cinza presa no capim. Ele juntava, olhava na lupa, guardava na sacola.
Do lado de fora, o quintal continuava tendo vinte e dois passos.
Por dentro, já estava bem maior.
O Besouro que Fingia de Morto
Perto do pé de goiaba, embaixo de um tijolo caído, Chico encontrou o besouro.
Era um besouro preto e brilhante, do tamanho de um caroço de azeitona, com as costas duras que nem casca. Estava andando tranquilo pela terra até perceber que tinha alguém olhando.
Aí ele parou.
Depois deitou de costas.
Depois encolheu todas as pernas e ficou completamente imóvel.
Chico ficou muito sério.
— Fubá — disse ele, baixinho. — Acho que eu matei o besouro.
O Fubá chegou perto, cheirou o besouro, espirrou e foi embora, porque para o Fubá aquilo não era assunto.
Chico não saiu de perto. Ficou olhando, com o queixo apoiado nas mãos, sentindo aquele aperto ruim de quem estragou uma coisa sem querer. Contou até cem. Contou outra vez, mais devagar, porque na primeira ele tinha corrido.
E aí, sem aviso nenhum, uma perninha se mexeu.
Depois outra.
O besouro virou de barriga para baixo, sacudiu as costas, ajeitou as antenas e saiu andando por baixo do tijolo como se nada tivesse acontecido.
Chico soltou o ar que estava segurando havia um tempão.
— Ele tava fingindo — falou baixinho. E depois gritou, para o quintal inteiro ouvir: — FUBÁ! ELE TAVA FINGINDO!
Escreveu no caderno tão rápido que rasgou um pedacinho da folha:
Anotação número dois. Besouro preto brilhante. Deita de costas e finge de morto quando fica com medo. Não morre. Só finge. Muito bom nisso.

Passou o resto da manhã tentando o truque com o Fubá: deitava de costas no capim, encolhia braços e pernas e prendia a respiração. O Fubá não caía nunca. O Fubá lambia a orelha dele até ele rir e estragar tudo.
O Escuro Debaixo do Tanque
Depois do almoço, a expedição chegou na parte difícil.
O tanque de lavar roupa ficava encostado no muro, apoiado em duas colunas de tijolo. Entre o chão e o fundo do tanque havia um vão. Um vão escuro, com cheiro de terra molhada, onde a água pingava o dia inteiro e nunca secava.
Chico tinha olhado para aquele vão a vida inteira. Nunca tinha olhado para dentro dele.
Ligou a lanterna.
A luz entrou e mostrou o chão preto de tão molhado, um caco de telha, um fio de raiz descendo pelo muro, uma teia de aranha esticada num canto com uma gota tremendo no meio, brilhando que nem lâmpada de casa de boneca.
E mostrou, lá no fundo, encostada no tijolo, uma coisa marrom do tamanho da mão dele.
A coisa piscou.
Chico se jogou para trás e sentou no chão de uma vez, com o coração batendo na garganta.
Esperou.
Chegou de novo, bem devagar, e apontou a lanterna outra vez.
Era um sapo.
Um sapo marrom, gordinho, cor de barro seco, com um risco mais claro nas costas e dois olhos dourados que devolviam a luz da lanterna. Ele não fugiu. Não pulou. Ficou ali, respirando, com a papada subindo e descendo devagarinho, do jeito de quem está em casa e não pretende sair.
— Desculpa — sussurrou Chico. — Eu não sabia que morava alguém aqui.
O sapo continuou respirando.
Chico apagou a lanterna, para não incomodar, e ficou de joelhos no escuro, ouvindo a água pingar.

Sentado no degrau, escreveu:
Anotação número três. Sapo. Mora debaixo do tanque. Olho dourado. Não gosta de luz na cara. Muito educado.
O Quintal por Dentro
Foi depois do sapo que Chico entendeu uma coisa.
Ele não estava descobrindo bicho. Ele estava descobrindo endereço.
Cada um daqueles bichos morava em algum lugar. A formiga no montinho perto do muro. O besouro embaixo do tijolo caído. O sapo no vão do tanque. E se todo mundo morava em algum canto, então todo canto tinha alguém.
Chico começou a levantar as coisas.
Embaixo do vaso rachado: onze tatuzinhos de jardim, que enrolaram todos ao mesmo tempo, virando onze bolinhas cinzentas. Ele esperou quietinho, e eles desenrolaram todos ao mesmo tempo também, o que foi ainda melhor.
Embaixo da lata velha: uma minhoca comprida e rosada, que sumiu na terra tão rápido que parecia que a terra tinha bebido ela.
Embaixo do balde furado, encostado atrás do tanque, não tinha ninguém — só terra seca e uma aranha pequena que saiu correndo de lado. Chico anotou isso também, porque numa expedição de verdade a gente anota até quando não acha nada.
E ele devolvia tudo. Cada vaso, cada tijolo, cada lata voltava exatinho para o lugar de onde tinha saído, com jeitinho, para ninguém acordar de manhã sem teto.
Na trepadeira do muro: um caramujo grudado numa folha, com os dois chifrinhos esticados, andando tão devagar que Chico teve que marcar o lugar com um graveto para provar depois que ele tinha andado.
No tronco do pé de goiaba: uma casquinha seca e transparente, no formato exato de um bicho, mas vazia por dentro. Chico olhou aquilo um tempão na lupa. Um bicho que sai de dentro de si mesmo e deixa a roupa velha pendurada no galho. Aquilo, para um dia só, era demais.

Anotação número quatro — escreveu, e a letra já estava menor, para caber mais. — Tatuzinho vira bolinha. Onze deles. Minhoca some na terra. Caramujo anda, mas ninguém vê. Bicho que troca de casca no pé de goiaba.
Do lado de fora, o quintal continuava tendo vinte e dois passos de criança.
Por dentro, já não dava para medir.
Quando a Lanterna Ficou Necessária
O sol foi baixando sem pedir licença.
A luz do fim da tarde ficou daquela cor de mel que deixa tudo mais bonito do que é. O muro ficou todo laranja. O pé de goiaba virou um desenho preto contra o céu.
A mãe apareceu na porta.
— Chico. Banho.
— Cinco minutos.
— Cinco minutos de verdade ou cinco minutos seus?
— De verdade — disse ele, o que não era verdade.
Nesses cinco minutos, o quintal trocou de turno.
Foi a última descoberta do dia, e a maior de todas: o quintal da noite não era o quintal do dia. Os bichos da manhã tinham ido dormir, e outros tinham acordado no lugar deles.
Um grilo começou a cantar em algum lugar do canteiro. Outro respondeu do lado de lá do muro. A estrada das formigas estava vazia. Uma mariposa cinza deu três voltas em volta da luz da cozinha e pousou na parede, abrindo as asas devagar.
E do vão do tanque, baixo e rouco, veio um coaxo.
O sapo tinha acordado.
Chico ligou a lanterna e apontou para o chão — só para o chão, com cuidado, sem jogar luz na cara de ninguém. Lá no fundo do quintal, no meio do mato que ninguém regava, duas luzinhas verdes acenderam e apagaram. Acenderam de novo, mais para a esquerda.
Vaga-lumes.
Ele nem tentou pegar. Ficou parado, de boné virado para trás, sacola pendurada no ombro, vendo aquilo acender e apagar no escuro do próprio quintal.

O Fim da Expedição
Tomou banho sem reclamar, o que assustou a mãe mais do que a lanterna caindo na pia.
No jantar, contou tudo. Contou da formiga que não largava a folha, do besouro que fingia de morto, do sapo educado de olho dourado, dos onze tatuzinhos que enrolaram juntos. A mãe ouviu inteiro, com o queixo apoiado na mão, e no fim perguntou uma coisa que ele não esperava:
— Isso tudo estava lá desde quando?
Chico pensou.
— Desde sempre, acho.
— E a gente nunca viu.
— A gente nunca deitou no chão — explicou ele.
Na cama, abriu o caderno de capa vermelha mais uma vez. Quatro anotações. Letra torta na primeira, letra apertadinha na última, um pedacinho rasgado na página do besouro.
Na folha seguinte, escreveu com muito cuidado:
Amanhã: procurar o dono da casquinha.
Fechou o caderno e botou embaixo do travesseiro, que é onde se guarda o que é importante.
Lá fora, o quintal continuava trabalhando.
O grilo cantava no canteiro. O sapo respirava debaixo do tanque. A gota tremia na teia sem cair. As formigas dormiam no montinho de terra fofa perto do muro, com todas as folhas guardadas lá dentro.
O Fubá subiu na cama, deu três voltas e se enrolou nos pés do Chico, do jeito que cachorro faz quando não pretende mais sair dali.
E o quintal, que de fora tinha vinte e dois passos de criança, ficou a noite inteira do lado de dentro da janela — enorme, escuro e cheio de gente, esperando com toda a paciência do mundo que a expedição continuasse de manhã.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- Se você fizesse uma expedição no lugar onde mora, por onde começaria?
- O besouro finge de morto quando fica com medo. Que outros bichos você conhece que se escondem de um jeito engraçado?
- O Chico só viu tudo aquilo porque deitou no chão. Que coisas a gente deixa de ver por olhar de longe demais?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir, escrita para este site. Não é reconto de conto antigo nem adaptação de nenhuma obra: o Chico, o cachorro Fubá e o quintal com o pé de goiaba foram inventados aqui. Os bichos, esses são reais e se comportam como se comportam de verdade — a formiga cortadeira que carrega folha, o besouro que se finge de morto, o tatuzinho que enrola em bolinha e o sapo que passa o dia no escuro e canta à noite.
Perguntas frequentes sobre Expedição ao Fundo do Quintal
Para que idade é indicada esta história?
Dos 4 aos 8 anos. As crianças menores acompanham bem porque cada descoberta é curta e independente, e as maiores costumam gostar da parte da lanterna e do quintal mudando de turno quando escurece.
Esta história dá medo de bichos?
Ao contrário. Ela mostra formiga, besouro, minhoca, tatuzinho e sapo como vizinhos, cada um com sua casa e seu jeito. Nenhum bicho é apresentado como nojento ou perigoso, e o menino sempre observa sem machucar.
Dá para fazer essa expedição de verdade com a criança?
Dá, e é fácil. Basta uma lupa simples, um caderninho e permissão para deitar no chão. Levantar um vaso, olhar embaixo de um tijolo e devolver tudo no lugar já rende uma tarde inteira, mesmo num quintal pequeno ou num vaso de varanda.
Qual é a moral de Expedição ao Fundo do Quintal?
Que curiosidade não precisa de lugar distante. O quintal do Chico continua com os mesmos vinte e dois passos do começo ao fim da história; o que cresce é a atenção dele. Olhar de perto é o que transforma o lugar de sempre em lugar novo.


