A Fada Denteira e o Dente de Leite Perdido
No vilarejo de Colorim, cada família tinha sua própria cor. Não a cor da pele — isso era igual para todos —, mas uma cor de alma que brilhava levemente ao redor das pessoas quando elas sentiam emoções fortes: os Amarelos ficavam luminosos quando estavam felizes; os Azuis pulsavam suavemente quando estavam tristes; os Verdes brilhavam quando estavam curiosos; os Vermelhos faiscavam quando estavam com raiva ou animados. Era uma coisa linda de se ver numa festa, quando todas as cores misturavam-se no ar como fogos de artifício suaves.
Mas havia um problema. Com o tempo, as famílias de cada cor foram se juntando cada vez mais entre si e se afastando das outras. Os Amarelos achavam que os Azuis eram dramáticos demais. Os Vermelhos achavam que os Verdes eram lentos e pensavam demais. Os Azuis achavam os Amarelos fúteis. E assim por diante. As crianças cresciam ouvindo essas opiniões dos adultos, e aos poucos foram incorporando-as sem questionar.
Dois Meninos, Duas Cores
Foi nesse contexto que Davi e Leo cresceram. Davi era Amarelo — filho de uma família alegre e expansiva, sempre cheia de risadas e festas. Leo era Azul — filho de uma família quieta, reflexiva, que amava música lenta e conversas profundas. Os dois moravam na mesma rua, mas nunca haviam trocado mais de três palavras, porque cada um havia aprendido em casa que os da outra cor “eram muito diferentes”.
Até o dia em que Davi quebrou o tornozelo.
Foi uma queda boba de bicicleta numa descida rápida. Davi voou do banco, rolou pelo asfalto e ficou deitado na calçada com a perna torta e o joelho sangrando, cercado de uma auréola amarela forte — da cor de quem está com dor e com medo ao mesmo tempo. Nenhum de seus amigos estava por perto. Era tarde da tarde, a rua estava quase vazia.
Foi Leo quem passava por ali, voltando da escola com a mochila nas costas. Quando viu Davi caído, parou. Ficou um segundo avaliando a situação — o azul ao redor dele pulsando de preocupação —, e então foi até o menino sem hesitar.
— Consegue se levantar? — perguntou ele.
— Não sei — respondeu Davi, tentando esconder a dor na voz. — Acho que torci o tornozelo.
Leo jogou a mochila no chão, agachou-se, examinou o tornozelo com cuidado — sua mãe era enfermeira e ele havia aprendido o básico de primeiros socorros — e disse com calma: — Não parece quebrado, mas está bastante inchado. Você mora perto daqui?
Ajuda que Vem de Onde Menos Se Espera
Leo ajudou Davi a se levantar, colocou o braço dele no próprio ombro e o carregou praticamente até a porta de casa. Foram duas quadras de caminhada lenta e silenciosa, com Davi mancando e Leo sustentando, o amarelo e o azul deles misturando-se no ar em algo que nenhum dos dois sabia nomear — uma cor entre os dois, que não era nem amarela nem azul.
A mãe de Davi abriu a porta e ficou pálida ao ver o filho mancando, mas rapidamente mudou de expressão quando notou quem estava ajudando. — Leo, filho dos Sousa? — perguntou ela, com um tom levemente surpreso que qualquer criança de Colorim saberia interpretar: surpreso porque ele era Azul.
— Sim, senhora — disse Leo, com toda a educação que sua família lhe havia ensinado. — Encontrei seu filho caído na rua. Acho que precisa gelo no tornozelo.
A mãe de Davi ficou quieta por um momento. Depois abriu a porta completamente. — Entre, Leo. Muito obrigada.
Enquanto a mãe de Davi cuidava do tornozelo, Leo ficou sentado na cozinha tomando o suco que lhe ofereceram. Os dois meninos ficaram em silêncio por um momento — o amarelo de Davi ainda forte com o resquício da dor, o azul de Leo suave e calmo. Então Davi disse, sem pensar muito:
— Por que você me ajudou? A gente nem se conhece.
Leo encolheu os ombros. — Você estava machucado. Não precisa de mais motivo do que isso.
O Que a Amizade Revela
Nos dias seguintes, enquanto Davi ficou em casa com o tornozelo enfaixado, Leo voltou para visitar. Trouxe o dever de casa, depois trouxe um jogo de tabuleiro, depois simplesmente passou para conversar. E conversaram — de verdade, como dois meninos que se descobrem tendo mais em comum do que jamais imaginaram possível.
Davi descobriu que Leo era engraçado de um jeito diferente — não engraçado de gargalhadas, mas de observações sutis que faziam a gente pensar e depois dar aquela risada baixinha de quem entendeu algo verdadeiro. Leo descobriu que Davi era muito mais profundo do que parecia — debaixo da alegria constante, havia um menino que pensava muito sobre o mundo e que tinha perguntas que nunca havia feito para ninguém porque achava que pareceria estranho.
— Você já se perguntou por que as nossas cores aparecem? — perguntou Davi uma tarde. — Tipo, de onde vem isso?
Leo ficou pensativo. — Já. Minha mãe diz que é porque sentimentos são energia, e energia tem cor. Mas eu acho que tem mais coisa do que isso.
— Tipo o quê?
— Tipo… você já notou que quando as cores se misturam, aparece uma cor nova? Quando você estava com dor e eu estava preocupado, a cor entre a gente era uma espécie de roxo. Nunca vi ninguém falar sobre isso.
Davi ficou olhando para Leo por um longo momento. — Eu também vi — disse ele baixinho. — Achei que tinha imaginado.
O Dia em que Colorim Mudou
A amizade entre Davi e Leo cresceu devagar e com raízes fundas, como as melhores amizades crescem. Eles estudavam juntos, brincavam juntos, discutiam sobre tudo — às vezes concordando, às vezes brigando e se reconciliando, mas sempre voltando um para o outro com mais respeito do que antes.
Os adultos observavam com estranheza. Alguns comentavam nas esquinas: — Aquele menino Amarelo está sempre com o Azul. Isso não é normal. Mas as crianças eram crianças — elas não tinham o mesmo cuidado dos adultos em manter as distâncias, e logo os amigos de Davi começaram a conviver com Leo, e os amigos de Leo com Davi, e ali uma coisa nova começou a se formar em Colorim.
Numa festa da escola, quando todas as famílias se reuniram no campo central, algo que nunca havia acontecido antes ocorreu: as cores no ar, em vez de ficarem separadas em grupos distintos, começaram a se misturar. Amarelo e Azul viravam verde dourado. Azul e Vermelho viravam um lilás intenso. Quando alguém riu de uma piada e outro ficou curioso, e um terceiro ficou animado, o ar sobre o campo ficou cheio de uma cor que não tinha nome — uma cor que só existe quando muitos sentimentos diferentes se encontram no mesmo lugar ao mesmo tempo.
Uma criança pequena apontou para o céu e gritou: — Que bonito! E todos olharam.
Davi e Leo estavam lado a lado, olhando para o mesmo céu colorido, e nenhum dos dois precisou dizer nada. Às vezes as melhores coisas não precisam de palavras — elas simplesmente brilham no ar entre as pessoas que as entendem.
