A Fada dos Sonhos e a Criança que Não Queria Dormir
Tomás tinha seis anos e um problema muito sério: ele não conseguia dormir. Não porque tivesse medo do escuro — ele tinha um abajur de leão que projetava estrelas douradas no teto e que era sua maior preciosidade. Não porque estivesse com fome ou com calor. O problema de Tomás era que sua cabeça não desligava.
Assim que deitava, as perguntas começavam. Por que o céu é azul de dia e preto de noite? Se você cavasse um buraco no centro da Terra, sairia na China? Os polvos sonham? Se os robôs tivessem sentimentos, como eles iam chorar? Cada pergunta levava a outra, e cada outra levava a mais três, e de repente eram onze da noite e Tomás estava de olhos arregalados no escuro estrelado do quarto, completamente desperto.
A mãe tentou leite quente. Tentou músicas calmas. Tentou histórias entediantes sobre contar ovelhas. Nenhuma funcionou, porque Tomás sempre acabava se perguntando como as ovelhas se sentiam sendo contadas.
O Guardião dos Sonhos
Numa noite de terça-feira, quando Tomás já havia feito sete perguntas diferentes para o teto e o relógio marcava dez e meia, algo diferente aconteceu. Uma luz suave e azulada apareceu no canto do quarto — não brilhante o suficiente para assustar, mas distinta do suficiente para chamar a atenção.
Da luz, materializou-se uma figura pequena — do tamanho de um gato, com aparência de uma mistura de coruja e ser humano em miniatura, usando um casaco cinza e carregando um livro grosso debaixo do braço. Tinha óculos redondos e expressão paciente.
— Boa noite, Tomás — disse a figura com uma voz que soava como o barulho de páginas sendo viradas. — Meu nome é Morfeu. Sou o Guardião dos Sonhos do seu quarteirão.
Tomás piscou. Depois sentou na cama. — Existe um Guardião dos Sonhos por quarteirão?
— Existem Guardiões dos Sonhos por bloco, por bairro, por cidade e por país — disse Morfeu, abrindo o livro grosso numa página marcada. — Você está na minha lista há três semanas como caso de sono difícil. Finalmente resolvi vir pessoalmente.
A Biblioteca dos Sonhos Não Sonhados
— O problema — disse Morfeu, sentando-se na beira da cama com o livro aberto — é que você tem mais sonhos do que consegue sonhar numa noite. Seu estoque está cheio. Cada pergunta que você faz de dia gera um sonho potencial, e você tem acumulado perguntas sem sonhar o suficiente para liberar espaço.
— Então minha cabeça está cheia demais para dormir porque estou com sono de mais? — perguntou Tomás, que tinha o jeito de uma criança que sempre precisava entender a lógica de tudo antes de aceitar.
— Exatamente — disse Morfeu. — Quer ver?
Morfeu tocou o livro e o quarto de Tomás desapareceu. Eles estavam agora numa biblioteca enorme — não uma biblioteca normal, mas uma que parecia não ter teto, com prateleiras se estendendo para o alto até onde a vista alcançava, e em cada prateleira, ao invés de livros, havia bolhas de luz colorida. Cada bolha continha uma imagem pequena, como um filme em miniatura.
— Estes são seus sonhos não sonhados — disse Morfeu. — Veja.
Tomás pegou uma bolha azul. Dentro dela, viu-se a si mesmo num submarino de vidro transparente, descendo ao fundo do oceano enquanto polvos gigantes dançavam ao redor. Pegou uma bolha dourada: ele estava voando sobre uma cidade de nuvens, com asas feitas de mapas antigos. Pegou uma bolha verde: ele descobria que as árvores se comunicavam por vibrações no chão e aprendia a língua delas.
— São todos para mim? — perguntou Tomás, olhando para as prateleiras que iam até o infinito.
— São todos gerados pelas suas perguntas — disse Morfeu. — Cada vez que você se pergunta algo com genuína curiosidade, seu cérebro cria um sonho potencial. O problema é que você não está dormindo o suficiente para sonhá-los todos.
O Truque do Guardião
— Então como eu faço para dormir? — perguntou Tomás, de volta ao quarto real, com Morfeu sentado na beira da cama de novo. — Se eu tento parar de pensar, fico pensando em como parar de pensar.
— Você está tentando fazer a coisa errada — disse Morfeu. — Não tente parar de pensar. Escolha um pensamento e vai fundo nele.
— Como assim?
— Em vez de pular de pergunta em pergunta, fica numa só. Escolhe a que você mais gosta agora mesmo e vai explorando ela devagar. Imagine os detalhes. Os cheiros. As cores. Deixa a pergunta te levar para dentro dela. É assim que os sonhos começam — não quando a cabeça para, mas quando ela fica tão fundo num pensamento que não percebe mais onde a vigília termina e o sonho começa.
Tomás ficou quieto pensando nisso. Então escolheu a pergunta dos polvos — se os polvos sonhavam. E foi entrando nela devagar: como seria o mundo de um polvo? Oito braços, cada um com vontade própria. Ver as cores com a pele em vez dos olhos. Morar no fundo do mar onde a luz não chega direito e tudo é azul e silencioso…
O Primeiro Sono Verdadeiro
Tomás não percebeu o momento em que adormeceu. Foi exatamente como Morfeu havia descrito: ele foi entrando na pergunta dos polvos tão fundo que quando olhou ao redor, estava num oceano azul-profundo, e havia um polvo ao seu lado do tamanho de uma mesa, com olhos dourados e curiosos.
— Você também sonha, né? — perguntou Tomás no sonho.
— Todo ser que pensa sonha — respondeu o polvo, cada braço se mexendo independentemente como uma dança. — A questão é: com o quê?
— Com o quê você sonha? — perguntou Tomás.
— Com a superfície — disse o polvo. — Com aquele lugar onde a água termina e o ar começa. Nunca fui lá, mas imagino que seja belo.
De manhã, quando a mãe de Tomás abriu a porta do quarto às sete e meia, ele estava dormindo fundo, com um sorriso nos lábios e os braços esticados como se estivesse nadando. Ela ficou olhando para ele por um momento — aquela alegria silenciosa que as mães sentem quando um filho dorme bem —, e fechou a porta com cuidado para não acordá-lo.
Tomás acordou às nove, com a cabeça cheia de oceano e polvos e a certeza absoluta de que sim, os polvos sonham. Só não sabia de onde havia tirado essa certeza. Mas algumas coisas são assim — você simplesmente sabe, sem precisar explicar de onde veio o conhecimento.
