A Bruxa Boa e o Bolo de Chocolate Mágico
Em algum lugar entre o horizonte e o fim do arco-íris, existia um reino chamado Lumíria — um lugar onde o céu nunca ficava completamente escuro, porque as estrelas ali brilhavam tão perto da terra que as pessoas podiam ouvi-las sussurrar nas noites de vento. As casas eram feitas de pedra clara e tinham janelas largas sempre abertas, e os habitantes de Lumíria tinham o costume de dormir com os olhos voltados para o céu, deixando que a luz das estrelas entrasse pelos vidros e iluminasse seus sonhos.
Nesse reino vivia uma menina chamada Íris, de onze anos, filha de uma astrônoma e de um músico. Íris tinha o cabelo preto e encaracolado que voava ao vento como uma nuvem de fumaça escura, e olhos grandes cor de âmbar que pareciam brilhar com luz própria nas noites mais escuras. Desde bebê, quando a mãe a levava ao terraço para observar o céu, Íris esticava os bracinhos para cima como se quisesse alcançar as estrelas. A mãe ria e dizia: — Você nasceu para isso, minha filha. As estrelas já te conhecem pelo nome.
O Telescópio Quebrado
O problema de Íris era que ela queria observar as estrelas de perto, mas o único telescópio da família estava quebrado há anos. Era um instrumento antigo, com lente arranhada e tripé enferrujado, que havia pertencido ao avô e depois à mãe, e que agora repousava num canto do sótão coberto de poeira. Toda vez que Íris o tirava de lá, a mãe sacudia a cabeça com tristeza. — Já tentei consertar três vezes. Não tem jeito, minha filha. Precisamos de um novo.
Mas telescópios novos custavam caro, e a família de Íris não tinha esse dinheiro sobrando. O pai ganhava tocando seu violino nas festas da cidade, e a mãe dava aulas de astronomia na escola, mas entre pagar as contas e comprar comida, não sobrava muito para instrumentos científicos. Íris entendia isso sem que ninguém precisasse explicar — já tinha onze anos e sabia muito bem como o mundo funcionava.
Então ela decidiu fazer o que toda criança inteligente faz quando não pode comprar algo que precisa: construir. Com pedaços de papelão, duas lentes velhas que encontrou numa loja de coisas usadas e um rolo de fita adesiva, Íris passou três semanas montando e desmontando, testando e errando, até construir um telescópio rudimentar que funcionava. Não era bonito, mas quando ela o apontou para a lua numa noite clara, viu as crateras com uma nitidez que a fez soltar um grito de surpresa.
A Estrela que Piscou Diferente
Foi numa noite de outubro, quando o céu estava particularmente limpo e o vento havia varrido todas as nuvens para longe, que Íris viu algo que mudaria sua vida. Estava no terraço com o telescópio de papelão, varrendo o céu devagar, quando uma estrela chamou sua atenção. Não pelo brilho — havia estrelas muito mais brilhantes. Era pela forma como ela piscava.
Todas as estrelas piscam um pouco, por causa da atmosfera que treme com o calor e o frio. Mas essa estrela piscava diferente: três vezes rápidas, pausa, duas vezes lentas, pausa longa, e então recomeçava. Era um padrão. Íris ficou olhando por meia hora, anotando numa caderneta com cuidado. Três rápidas. Duas lentas. Pausa. Repetia sem falhar uma vez sequer.
— Mamãe! — chamou ela, descendo as escadas com a caderneta na mão. — Acho que encontrei uma estrela que está mandando mensagem!
A mãe olhou os anotações com atenção, colocou os óculos no nariz e foi até o terraço ver com os próprios olhos. Ficou lá por um longo tempo, em silêncio. Quando voltou, tinha um sorriso que Íris não conseguia interpretar — era um sorriso de espanto, de alegria e de algo que parecia quase medo ao mesmo tempo.
— Íris — disse a mãe, devagar —, este padrão que você encontrou… eu preciso verificar uma coisa. Não durma ainda.
O Código das Estrelas
A mãe passou a noite toda consultando livros e anotações de décadas de observação. De madrugada, com as olheiras fundas e os olhos brilhando de emoção, ela chamou Íris e mostrou uma página de um caderno antigo, coberto com a caligrafia cuidadosa do avô de Íris.
— Seu bisavô era astrônomo — disse a mãe. — E há trinta anos ele registrou exatamente esse padrão nessa mesma estrela. Três rápidas, duas lentas. Ele passou anos tentando decifrá-lo, mas nunca conseguiu. Passou o problema para mim, e eu também não cheguei a lugar nenhum. Mas há algo que ele escreveu aqui que nunca entendi.
Ela apontou para uma linha no final da página: O código só pode ser lido por quem ainda não aprendeu a duvidar.
Íris leu a frase três vezes. Depois olhou para a mãe. — Significa que precisa de uma criança? A mãe ficou quieta por um longo momento. — Acho que sim — respondeu ela finalmente.
Íris passou os dias seguintes estudando o padrão obsessivamente. Ela tinha aprendido código Morse na escola no ano anterior — era uma das coisas que a professora de história havia ensinado sobre a Segunda Guerra Mundial. Algo na sequência da estrela lembrava esse sistema: pontinhos e traços, curtos e longos. Com pulso firme, ela começou a traduzir: três curtos era a letra S. Dois longos era a letra M. S-M… não fazia sentido. Tentou outra combinação. Outra. E outra.
A Mensagem das Estrelas
Na décima quarta noite de observação, algo encaixou. Íris havia tentado usar o alfabeto ao contrário — Z no lugar de A, Y no lugar de B — e de repente as letras começaram a fazer sentido. A primeira palavra que apareceu a fez prender a respiração: VEM.
Ela continuou decifrando, letra por letra, noite após noite, registrando tudo na caderneta com a letra miúda que a professora vivia reclamando que era ilegível. A mensagem inteira levou três semanas para ser completada. Quando Íris leu a tradução final para a mãe, nenhuma das duas conseguiu dizer uma palavra por um longo momento.
A mensagem dizia: VEM QUANDO A CORAGEM FOR MAIOR QUE O MEDO. O CAMINHO COMEÇA ONDE O CÉU TOCA A TERRA.
— Onde o céu toca a terra — repetiu Íris em voz alta. — Isso é o horizonte.
— Mas o horizonte não existe de verdade — disse a mãe. — É uma ilusão óptica. Você caminha em direção a ele e ele continua se afastando.
— A menos que — disse Íris devagar, com algo se formando na mente como um raio de luz atravessando névoa — a menos que você suba alto o suficiente para que o horizonte esteja ao nível dos seus olhos. No pico mais alto do reino.
O Pico da Montanha Eterna
O Pico da Montanha Eterna era o lugar mais alto de Lumíria — tão alto que sua cúpula ficava coberta de neve o ano inteiro, e tão íngreme que pouquíssimas pessoas haviam chegado ao topo. Íris pediu permissão à mãe para fazer a subida. A mãe ficou em silêncio por um tempo muito longo antes de responder.
— Você tem onze anos — disse a mãe finalmente.
— E seu bisavô tinha doze quando começou a observar as estrelas sozinho — respondeu Íris.
A mãe sorriu apesar de si mesma. — Você vai com o guia Tobias. E vai me ligar a cada hora.
A subida durou dois dias inteiros. Tobias era um homem de poucas palavras e pernas fortes, que conhecia cada pedra do caminho e não se impressionava com nada. Mas quando chegaram ao topo na manhã do segundo dia e Íris levantou os olhos para o horizonte — para aquela linha perfeita onde o céu encontrava a terra — ele viu na expressão da menina algo que o fez parar e olhar também.
O horizonte dali era diferente. Não era uma linha distante e inacessível — era próximo, quase palpável, como uma cortina fina de luz prateada. E ali no centro, exatamente onde o céu encontrava a terra, havia um brilho que não era o sol nascente. Era uma luz azul-prateada, suave e pulsante.
— A estrela — sussurrou Íris. — Ela está aqui.
Não era uma estrela, percebeu ela ao se aproximar. Era uma pedra. Uma pedra lisa e redonda, do tamanho de sua mão fechada, que brilhava com uma luz interna como se tivesse engolido uma constelação inteira. E quando Íris a pegou, sentiu algo que nunca conseguiria descrever direito para ninguém: uma clareza, uma calma, como se toda a confusão do mundo tivesse parado de fazer barulho por um momento.
Guardou a pedra no bolso, desceu a montanha, e quando chegou em casa e a colocou no terraço ao lado do telescópio de papelão, a pedra brilhou por uma hora inteira antes de apagar. Como se finalmente tivesse chegado onde precisava estar.
Íris nunca soube ao certo o que era a pedra ou de onde tinha vindo. Mas sabia de uma coisa: a mensagem havia dito vem quando a coragem for maior que o medo, e ela havia ido. E às vezes, isso é a única explicação que existe.
