
O Peixinho que Não Descia ao Fundo
Todo peixe do lago já tinha visto o fundo. Menos Dulce — que ficava sempre na parte de cima, onde bate sol e dá para ver tudo.
Coragem quase nunca é um salto. Costuma ser uma soma de coisas pequenas
No lago atrás do canavial morava uma peixinha chamada Dulce.
Dulce era prateada com a barriga clara, e do tamanho de um dedo.
Ela conhecia o lago inteiro.
Conhecia a parte das vitórias-régias, onde a sombra é redonda.
Conhecia a parte perto da margem, onde a água esquenta primeiro de manhã.
Conhecia a parte do meio, onde os insetos caem e todo mundo se atropela para chegar antes.
Só tinha uma parte do lago que ela não conhecia.
O fundo.

A Parte de Baixo
O lago não era fundo de assustar. Uns quatro metros, talvez.
Mas quatro metros, para um peixe do tamanho de um dedo, é uma coisa comprida.
E o que incomodava Dulce não era a distância. Era o jeito como a água ia mudando.
Na superfície, a água era clara e morna.
Um palmo abaixo, ficava mais fresca.
Dois palmos, mais escura.
E dali para baixo, a luz do sol ia se transformando em faixas, e as faixas iam ficando cada vez mais fracas, até sumir.
Lá embaixo era só uma sombra verde-escura, sem forma nenhuma.
— O que tem lá? — Dulce perguntava.
— Ué. O fundo — respondiam os outros peixes.
— Mas o fundo é como?
— É o fundo, Dulce.
Ninguém sabia explicar, porque para eles não era pergunta. Eles desciam desde filhotes.
Dulce nunca tinha descido.
Um Palmo por Dia
Foi o bagre que reparou.
O bagre era velho, cinzento, cheio de bigode, e ficava quase sempre parado perto de um tronco caído.
Um dia ele falou, sem nem virar a cabeça:
— Você já desceu dois palmos hoje.
— Como você sabe?
— Eu vi.
Dulce ficou sem graça.
— Eu não gosto de lá embaixo.
— Não perguntei se você gosta.
Ele mexeu o bigode.
— Amanhã desce três.
E foi só isso que ele disse.
No dia seguinte, Dulce desceu três palmos.
Ficou lá um instantinho, sentiu a água mais fria na barriga, olhou para baixo — para aquela sombra verde sem forma — e subiu correndo.
O bagre não disse nada.
No outro dia, quatro palmos.
No outro, cinco.
Foi assim durante muitos dias.
Ela descia, o coração batia rápido, ela subia.
O bagre nunca disse "não tenha medo". Nunca disse "não tem nada lá". Nunca riu.
Ele só ficava por perto, parado, com aquele bigode comprido, enquanto ela descia.

O Fundo
Numa tarde de novembro, Dulce desceu e não parou.
Ela nem tinha planejado. Simplesmente aconteceu — passou o ponto de sempre e continuou.
A água ficou fria.
A luz virou faixa.
As faixas ficaram fracas.
E aí ela chegou.
O fundo do lago não era uma sombra sem forma coisa nenhuma.
Era um chão de areia clara, com marcas onduladas, como se alguém tivesse passado um pente.
Tinha pedras arredondadas cobertas de um verde macio.
Tinha um tronco velho, todo furado, com um monte de peixinhos bebês entrando e saindo dos buracos.
Tinha plantas compridas, altas como árvores, balançando devagar num ritmo só.
E era silencioso.
Muito silencioso. O barulho do lago inteiro ficava lá em cima, e ali embaixo tudo era quieto e lento.
Dulce ficou parada, olhando.
Depois de um tempo ela reparou numa coisa no chão, brilhando.
Nadou até lá.
Era uma colher.
Uma colher de metal, comum, que alguém tinha deixado cair do barco vai saber quando. Estava meio enterrada na areia, ainda brilhando um pouquinho.
Dulce achou aquilo a coisa mais extraordinária do mundo.
Ela subiu para contar.
Subiu rápido, atravessando as faixas de luz ao contrário, cada vez mais claro, cada vez mais morno — e quando chegou lá em cima, o bagre estava parado no lugar de sempre.
— Tem uma colher lá embaixo! — ela disse, sem fôlego.
O bagre mexeu o bigode.
— Ah, tem sim — ele disse. — Tem desde antes de eu nascer.
E voltou a olhar o tronco, do jeito que ele fazia.
Naquela noite, Dulce dormiu na parte do meio do lago — nem em cima nem embaixo.
Porque agora as duas partes eram dela.
Para conversar depois da história
Três perguntas para fazer à criança antes de apagar a luz.
- O que você faria para descer um pouquinho mais fundo a cada dia?
- O bagre nunca disse 'não tenha medo'. Por que será?
- Tem algum lugar que você quer conhecer mas ainda acha um pouco assustador?
Sobre esta história
História original do Contos para Dormir. O fundo do lago é descrito como ele é de verdade: mais frio, mais escuro e mais silencioso, com a luz do sol chegando em faixas cada vez mais fracas conforme se desce.
Perguntas frequentes sobre O Peixinho que Não Descia ao Fundo
Esta história é assustadora?
Não. O fundo do lago parece assustador no começo, mas não há nada perigoso lá embaixo — e é justamente essa a descoberta da história. Nenhum personagem se machuca ou corre risco.
Serve para criança medrosa?
Serve bem. A história não diz que o medo é bobagem: mostra uma personagem descendo aos poucos, no próprio ritmo, com alguém de confiança por perto. É mais ou menos assim que o medo diminui de verdade.
Para que idade é indicada?
Dos 4 aos 8 anos. O vocabulário é simples e a ideia de enfrentar um medo pouco a pouco costuma fazer bastante sentido nessa faixa.
Quanto tempo leva para ler esta história?
Cerca de 6 minutos em voz alta. É uma das histórias curtas do site, boa para as noites em que sobra pouco tempo.


