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O Gigante Gentil e a Cidade dos Sonhos

Floresta mágica e misteriosa
No alto da montanha, morava alguém que todos temiam mas ninguém conhecia de verdade…

Na cidade de Vento Sereno, havia uma montanha tão alta que sua ponta desaparecia nas nuvens nos dias nublados. E no cume daquela montanha, desde antes de qualquer morador se lembrar, vivia um gigante chamado Aldo. Aldo tinha trinta metros de altura, cabelos cor de musgo e mãos tão grandes que cada palma era do tamanho de uma carroça. Sua voz, quando falava, fazia as janelas vibrarem e as xícaras treme-tremerem nas mesas. Quando ele dava um passo, a terra estremecia levemente, como um suspiro do chão.

Por isso, todos em Vento Sereno tinham medo de Aldo. As crianças eram proibidas de subir a montanha. Os adultos faziam três voltas longas ao redor do caminho que levava ao cume. E o prefeito da cidade havia colocado uma placa na entrada da trilha que dizia: PERIGO — GIGANTE. PROIBIDO SUBIR. Ninguém reclamava da placa. Ninguém a questionava. Era assim desde sempre, e desde sempre parecia suficiente.

Mas havia uma menina em Vento Sereno que tinha o péssimo hábito de questionar as coisas que eram “assim desde sempre”. Seu nome era Marina, ela tinha sete anos, cabelos curtos e um olhar que sua professora descrevia como “incansavelmente curioso”. Marina havia lido todos os livros da biblioteca municipal sobre gigantes e nenhum deles mencionava que gigantes eram necessariamente perigosos — só que eram grandes. E ser grande, Marina sabia por experiência própria, não significava querer machucar ninguém.

A Menina que Subiu a Montanha

Numa tarde de sábado em que sua mãe estava ocupada consertando a cerca do jardim, Marina enfiou uns biscoitos no bolso do casaco, amarrou bem os cadarços das tênis e começou a subir a trilha proibida. Ela não estava com medo. Estava com curiosidade — que é uma sensação completamente diferente, mesmo que o coração bata do mesmo jeito nas duas.

A trilha era linda, cheia de cogumelos laranja e pedras cobertas de líquen verde. Marina subiu por quase uma hora até que chegou ao cume — uma enorme plataforma rochosa coberta de musgo macio — e ficou parada, boquiaberta.

Aldo estava sentado de costas para ela, com as joelhos dobrados perto do peito, olhando para o horizonte onde o sol começava a tingir o céu de cor de laranja. E seus ombros estavam levemente curvados, com aquele jeito que Marina reconhecia bem — era o jeito que o corpo fica quando alguém está triste e tentando não mostrar.

Marina deu um passo. Uma pedra rolou sob seu pé. Aldo se virou devagar — e Marina viu pela primeira vez os olhos do gigante: castanhos, enormes e, surpreendentemente, vermelhos nas bordas, como de quem havia chorado recentemente.

— Você não deveria estar aqui — disse Aldo, com uma voz que fez as nuvens ao redor tremerem levemente. Mas não era uma voz ameaçadora. Era apenas uma voz muito, muito grande.

— Trouxe biscoitos — disse Marina, erguendo o punhado de biscoitos como se isso fosse a resposta mais lógica do mundo. — Você quer?

Luzes mágicas de amizade
Às vezes, a coragem de um só muda tudo…

Uma Amizade Improvável

Aldo olhou para os biscoitos minúsculos na mão minúscula de Marina com uma expressão que cruzava entre a surpresa e algo muito parecido com gratidão. Com o cuidado de quem sabe que suas mãos são do tamanho de carroças, ele abriu a palma enorme e Marina depositou os biscoitos — que cabiam todos juntos no espaço de uma das linhas da palma gigante. Aldo os colocou na ponta da língua, pensativo.

— Estão bons — disse ele, com uma voz que desta vez parecia mais gentil. — Faz quanto tempo que ninguém sobe aqui.

— Desde sempre, aparentemente — disse Marina, sentando-se na borda de uma pedra grande. — Por que você fica aqui sozinho?

Aldo ficou em silêncio por um tempo. Depois disse:

— Porque quando desce, as pessoas correm. Os cães latem. As crianças choram. Eu não quero assustar ninguém. Por isso fico aqui. É mais fácil.

Marina ficou pensando nisso. Então perguntou:

— O que você faz aqui em cima o tempo todo?

Aldo apontou para o horizonte com um dedo do tamanho de um tronco de árvore.

— Observo as nuvens. Sei quando vai chover dois dias antes de qualquer um lá embaixo. Sei de onde vem o vento. Às vezes afasto as nuvens de chuva com as mãos quando está previsto uma tempestade forte demais — ele abriu as palmas imensas e Marina imaginou aquelas mãos empurrando nuvens como almofadas. — Mas ninguém sabe disso.

O Dia em que Vento Sereno Soube a Verdade

Cidade segura e aconchegante
A cidade que aprendeu a agradecer…

A grande tempestade chegou em setembro, três semanas depois da primeira visita de Marina ao cume. Era uma tempestade de verdade — o tipo que vem com o céu verde e o ar com cheiro de ferro — e toda Vento Sereno correu para dentro de casa com as janelas bem fechadas. Marina olhou para o alto da montanha e viu, entre os relâmpagos, a silhueta enorme de Aldo de pé no cume, com as mãos abertas empurrando as nuvens mais pesadas para os lados, desviando-as da cidade como quem afasta cortinas.

A tempestade durou a noite toda. Mas as enchentes que os vizinhos temiam não aconteceram. De manhã, a cidade acordou molhada mas intacta. E Marina, que havia filmado a silhueta de Aldo com seu celurinho velho, mostrou o vídeo para a mãe. Que mostrou para o pai. Que levou ao prefeito. Que convocou uma reunião.

A placa de PERIGO foi retirada. No lugar, instalaram uma nova: TRILHA DA GRATIDÃO — SUBIDA EM RESPEITO AO GUARDIÃO DA MONTANHA. E no primeiro domingo depois da troca de placa, Marina subiu a trilha com seus pais, a professora e doze colegas de classe — cada um carregando um pote de biscoitos.

Aldo estava no cume, como sempre. Mas desta vez, quando olhou para baixo e viu a fila de pessoas subindo em sua direção com os braços cheios de oferendas, ele não ficou imóvel de surpresa. Ele abriu as imensas mãos cobertas de musgo, deixou as pessoas pousarem os potes nas palmas e disse, com a voz enorme que fazia as nuvens vibrar:

— Obrigado por subir.

Noite estrelada de paz
E assim, o gigante gentil nunca mais ficou sozinho…

Naquela tarde, enquanto descia a trilha de mãos dadas com a mãe, Marina olhou para trás uma última vez. Aldo havia sentado de novo no cume, mas desta vez estava rindo — uma gargalhada suave que fez as nuvens se moverem como barcos num lago calmo. E pela primeira vez em muitos anos, o som do gigante não assustou ninguém em Vento Sereno. Pelo contrário: as pessoas nas janelas das casas olharam para o céu, sorriram, e voltaram para o que estavam fazendo com o coração um pouco mais leve.

Não julgue ninguém pelo tamanho, pela aparência ou pelo que os outros dizem. Cada pessoa tem um presente único para oferecer ao mundo — às vezes, basta uma criança corajosa para descobrir qual é.

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