Rapunzel — A Menina da Torre
Havia uma torre na floresta mais profunda do reino que não tinha porta nem escada — apenas uma janela no ponto mais alto, de onde se podia ver o horizonte em todas as direções e os pássaros que passavam mais perto do céu do que da terra. Nessa torre vivia Rapunzel, uma jovem de dezoito anos com cabelos de ouro que mediam mais de vinte metros e que ela enrolava e penteava todos os dias com uma dedicação que era parte orgulho e parte tédio.
A mulher que a havia preso ali — uma feiticeira chamada Gothel que a havia tomado de seus pais ainda bebê como pagamento por um favor — subia à torre todos os dias gritando: — Rapunzel, Rapunzel! Joga seus cabelos para mim! E Rapunzel jogava, e Gothel subia, e ficavam juntas até o entardecer quando Gothel descia de novo e deixava Rapunzel sozinha com os livros, os pinturas que ela mesma fazia nas paredes da torre, e a visão do mundo lá de cima.
Rapunzel havia aprendido a amar aquele mundo à distância. Sabia os nomes de todas as estrelas que via à noite, sabia em que mês as árvores mudavam de cor, sabia o canto de cada pássaro que pousava na janela. Mas havia algo que nenhum livro nem nenhuma janela podia ensinar: como o chão sentia sob os pés.
O Príncipe que Ouviu o Canto
Flynn Rider — que preferia ser chamado de viajante a de príncipe, porque achava que a palavra príncipe vinha com expectativas demais — estava fugindo de guardas reais numa noite de lua cheia quando ouviu algo que o fez parar no meio da corrida: uma voz. Não apenas uma voz bonita — era uma voz que cantava para o silêncio da floresta sem precisar de plateia, com aquela honestidade que só existe quando alguém canta porque precisa, não porque quer ser ouvido.
Subiu pela torre agarrando-se nas irregularidades da pedra — o que era mais difícil do que parecia em filmes —, chegou à janela sem fôlego, e encontrou Rapunzel com uma frigideira na mão pronta para atacar.
— Espera! — disse ele, com os braços levantados. — Não sou perigoso. Estou apenas… perdido.
Rapunzel o olhou por um longo momento com os olhos de quem havia estudado o mundo inteiro através de uma janela e sabia reconhecer quando alguém estava mentindo. — Você não está perdido. Está fugindo de algo.
Flynn abaixou os braços com um sorriso de rendição. — Está bem. Mas não sou perigoso de qualquer forma.
A Menina da Torre Descobre o Mundo
Rapunzel fez um acordo: mostraria onde Flynn havia escondido a coroa que havia roubado do palácio (sim, ela havia encontrado a mochila) se ele a levasse a ver as lanternas. Todo ano, no dia do seu aniversário, lanternas de luz dourada subiam ao céu sobre o reino — ela as via da janela e havia decidido que, um dia, as veria de perto.
Os dois dias que levaram para chegar à cidade foram, para Rapunzel, uma experiência tão intensa que ela passou alternando entre euforia e quase choro a cada nova coisa que descobria: a textura da grama molhada, o cheiro de pão fresco numa aldeia, a sensação de sol direto no rosto sem vidro no meio, a barulheira alegre de um mercado. Flynn observava tudo isso com aquela mistura de diversão e algo que não sabia nomear — talvez o que as pessoas sentem quando reencontram a própria capacidade de se surpreender com o mundo.
Na noite das lanternas, num barco no lago cercado pelo reflexo das luzes douradas na água, Rapunzel entendeu algo que havia procurado por anos: o sonho que ela havia alimentado desde a infância não era sobre as lanternas. Era sobre pertencer ao mundo. Sobre estar nele, de verdade, com os pés na terra e o vento no rosto e as mãos livres para tocar tudo que sempre havia visto apenas de longe.
A feiticeira Gothel tentou impedí-la de voltar. Mas Rapunzel, que havia passado dezoito anos aprendendo o mundo através de livros e janelas, havia aprendido também a confiar no próprio julgamento. Confrontou Gothel com a verdade que sempre havia souspeitado: — Você nunca me amou. Só amou o que eu podia fazer por você.
Depois de anos na torre, Rapunzel reencontrou seus pais reais — o rei e a rainha que haviam lançado lanternas ao céu todo ano no aniversário da filha perdida, sem nunca perder a esperança de que ela visse e soubesse. E ela havia visto. E sabia.
