Pinóquio — A História do Boneco que Queria Ser Real
Gepeto era um velho carpinteiro que morava sozinho num quartinho pequeno, cheio de relógios que ele mesmo havia feito e bonecos de madeira que sorriram das prateleiras com olhos pintados de alegre. Era um homem de mãos habilidosas e coração enorme, que havia passado a vida fazendo objetos bonitos para os outros sem nunca ter tido o que mais queria: alguém com quem compartilhar seu lar.
Numa noite de inverno, com a neve caindo lá fora e uma solidão que pesava mais do que o habitual, Gepeto pegou um pedaço de madeira especial que havia guardado por anos — um tronco de pinheiro com veios dourados que nenhuma peça de mobília jamais havia merecido — e começou a entalhar. Não sabia o que estava fazendo até que o rosto apareceu: dois olhos grandes, nariz comprido, boca com um sorriso levemente travesso. Estava esculpindo um menino.
Trabalhou a noite toda, e quando o boneco estava pronto, Gepeto o vestiu com uma roupinha que havia costurado e o colocou na cama ao lado de uma vela acesa. — Quem me dera que você fosse real — disse ele para o boneco, e aquela vontade era tão genuína e tão cheia de amor que chegou lá em cima, onde mora a magia.
Uma fada azul, de asas finas como organza e olhos do cor da meia-noite, desceu até a janela da oficina. Tocou o boneco com sua varinha. E o boneco — que havia sido madeira morta um momento antes — piscou, abriu a boca, e disse com uma voz ainda áspera de serrim:
— Pai?
O Nariz que Crescia
Gepeto chorou de alegria. Chamou o boneco de Pinóquio, o ensinou a andar, o vestiu, o alimentou com o pouco que tinha. E na manhã seguinte, com uma pasta nova nas costas e o coração cheio de esperança, mandou-o para a escola pela primeira vez.
Mas Pinóquio era um boneco feito de madeira com a curiosidade de uma criança nova no mundo, sem os anos de experiência que ensinam que nem tudo que brilha é ouro. No caminho para a escola, encontrou um gato e uma raposa — dois trapaceiros que viviam de enganar os ingênuos — que lhe prometeram que se ele enterrasse suas moedas de ouro no Campo dos Milagres, elas cresceriam em uma árvore de dinheiro.
— Mas não tenho que ir para a escola? — perguntou Pinóquio.
— Escola é para quem não conhece atalhos — disse a raposa com um sorriso de dentes afiados.
Pinóquio foi. E quando chegou em casa sem o dinheiro e sem a árvore prometida — que obviamente nunca havia existido —, contou uma mentira para o pai. Disse que havia perdido as moedas na estrada. E seu nariz, pela primeira vez, cresceu três centímetros.
A fada azul apareceu naquela noite. — Por que seu nariz está assim? — perguntou ela, embora soubesse a resposta.
— Eu… não sei — disse Pinóquio. O nariz cresceu mais dois centímetros.
A fada olhou para ele com uma expressão que não era raiva, mas algo mais sério: decepção amorosa. — Pinóquio, mentiras fazem o nariz crescer. Mas fazem outra coisa que é muito pior: elas crescem por dentro também. E uma vez que você começa a mentir, fica cada vez mais fácil mentir de novo, até que você não consiga mais distinguir o que é verdade.
A Ilha dos Prazeres e o Preço da Irresponsabilidade
As aventuras de Pinóquio continuaram. Ele fugiu novamente da escola, desta vez atraído por um cocheiro misterioso que levava crianças para a Ilha dos Prazeres — um lugar onde não havia aulas, não havia obrigações, não havia adultos mandando, apenas jogos, doces e diversão sem fim.
O amigo de Pinóquio na ilha era um menino chamado Lampião, tão irresponsável quanto ele mas muito mais entusiasmado com a própria irresponsabilidade. Eles riram, brincaram e fizeram exatamente o que quiseram por dias — até que Pinóquio acordou uma manhã e viu que Lampião havia começado a se transformar em burro. Orelhas de burro saíam da cabeça, a voz havia mudado para zurros, e Lampião olhava para as próprias mãos com terror enquanto elas se transformavam em cascos.
Pinóquio olhou para um espelho. Suas próprias orelhas haviam crescido também. Correu.
Essa fuga o levou ao fundo do mar — pulando de uma falésia para escapar do cocheiro —, e foi no fundo do mar que encontrou a baleia. Dentro da baleia — enorme como uma catedral, escura e fétida — encontrou Gepeto, que havia saído para o mar em seu barquinho tentando achar o filho e havia sido engolido.
O Filho que Salvou o Pai
Pai e filho se abraçaram no escuro da barriga da baleia, chorando os dois, sem que nenhum precisasse dizer nada sobre o passado — sobre as mentiras, sobre as fugas, sobre as decepções. Às vezes os abraços dizem mais e melhor do que qualquer palavra.
— Precisamos sair daqui — disse Pinóquio, que desta vez não estava pensando em si mesmo. Estava pensando no pai fraco e magro que havia ficado meses dentro da baleia.
Armaram uma fogueira dentro da barriga do monstro com restos de barcos afundados. A fumaça fez a baleia tossir violentamente e abrir a boca, e Pinóquio e Gepeto nadaram com toda a força que tinham em direção à costa. Quando chegaram exaustos na praia, Gepeto desmaiou de cansaço. Pinóquio, em vez de correr, ficou ao lado do pai a noite toda, aquecendo-o com o próprio corpo de madeira — que, descobriu, esquentava quando havia amor suficiente dentro.
A fada azul veio naquela madrugada. Olhou para Pinóquio — para o menino de madeira que havia mentido, fugido, causado problemas sem conta, mas que agora estava ali, ao lado do pai, sem pensar na própria conveniência — e fez o que havia prometido quando o trouxe à vida: transformou-o em menino de verdade. Não de madeira mais — de carne e sangue e coração que batia com tudo que um coração precisa para bater.
Gepeto acordou e viu não mais o boneco que havia esculpido, mas um menino real que o olhava com os mesmos olhos de madeira pintados — mas agora vivos, cheios de lágrimas e sorriso ao mesmo tempo. — Pai — disse Pinóquio, com voz de menino de verdade. — Aprendi que ser real não é sobre o que você é feito. É sobre o que você escolhe fazer.
