João e Maria
Numa aldeia na beira de uma floresta muito grande e muito antiga, vivia um lenhador com seus dois filhos: João, de dez anos, forte e corajoso como o pai, e Maria, de oito anos, esperta e observadora, sempre com os olhos abertos para os detalhes que os outros perdiam. A vida da família era simples mas feliz — até que chegou o ano da grande seca, quando as colheitas falharam, os animais foram vendidos um por um, e a dispensa foi ficando cada vez mais vazia.
A madrasta dos meninos — uma mulher de coração pequeno que havia se casado com o lenhador no ano anterior — foi quem disse o que ninguém queria dizer em voz alta: — Não temos comida suficiente para quatro. Se ficarmos juntos, morreremos todos de fome. Os meninos precisam ir.
O pai ficou em silêncio por um longo tempo. Então, com a cabeça baixa e os olhos marejados, concordou. João e Maria ouviram tudo pela fresta da porta do quarto, abraçados no escuro, e nenhum dos dois dormiu naquela noite.
— O que vamos fazer? — sussurrou Maria.
— Vamos pensar — respondeu João. — Sempre tem um jeito.
O Caminho de Pedrinhas
João teve uma ideia. Antes do amanhecer, enquanto a casa ainda dormia, ele saiu pelo quintal e encheu os bolsos de pedrinhas brancas que brilhavam levemente à luz da lua. No dia seguinte, quando o pai os levou floresta adentro com a desculpa de cortar lenha, João foi largando as pedrinhas no caminho — uma por uma, a cada dez passos — formando uma trilha invisível para quem não soubesse o que procurar.
— Por que você fica se atrasando? — perguntou a madrasta com impaciência, notando que João caminhava mais devagar do que os outros.
— Estou com dor no pé — mentiu ele, com a calma de quem já ensaiou a resposta.
No meio da floresta, o pai acendeu uma fogueira e disse que ia buscar água. Voltaria em breve, prometeu. Mas as horas passaram, o fogo foi apagando, e João e Maria perceberam que “em breve” não viria naquela tarde. A madrasta havia convencido o pai a deixar os filhos para trás.
Maria pegou na mão do irmão. — Não chora — disse ela, embora seus próprios olhos brilhassem. — Temos as pedrinhas. Vamos achar o caminho de volta.
E acharam. Guiados pelo brilho das pedrinhas brancas sob a luz da lua, chegaram em casa de madrugada. O pai, que não havia dormido, abriu a porta com os olhos vermelhos e os abraçou com aquele abraço de quem pensou que havia perdido algo que não sabia que amava tanto.
A Segunda Vez e as Migalhas de Pão
Mas a seca não acabou. E semanas depois, quando a situação ficou ainda mais desesperadora, a madrasta convenceu o pai novamente — desta vez trancando a porta de noite para que João não pudesse sair e pegar mais pedrinhas. Só tinham o pão do café da manhã.
João pegou seu pedaço de pão e, caminhando floresta adentro pela segunda vez, foi esfarelando-o no chão — uma migalha a cada passo, formando o que imaginava ser uma trilha de volta. Maria observou com um aperto no coração, mas não disse nada. Às vezes, quando não há outra opção, você aceita o plano que existe mesmo sabendo que não é perfeito.
O problema foi que os pássaros da floresta encontraram as migalhas antes deles. Quando João e Maria tentaram seguir o caminho de volta, a trilha havia desaparecido — comida pelos corvos e pombos que moravam nas árvores ao redor. Estavam perdidos de verdade desta vez, numa floresta que ficava maior e mais escura a cada passo que davam.
Caminharam o dia inteiro. Com fome, cansados e assustados — embora nenhum dos dois admitisse estar assustado, porque quando você está assustado junto com alguém que você protege, você guarda o medo para si mesmo e mostra apenas a coragem. Foi só quando o sol começou a se pôr que encontraram algo que nenhum dos dois havia esperado encontrar no meio de uma floresta escura: uma casa que cheirava a baunilha e açúcar queimado.
A Casa de Doces
Era impossível não parar. As paredes eram de biscoito amanteigado, o telhado era de chocolate, as janelas eram de açúcar cristalizado que brilhava como diamante, e da chaminé saía fumaça que cheirava a canela. Para dois meninos com o estômago vazio havia dias, era uma visão que pertencia mais ao sonho do que à realidade.
João deu o primeiro passo. Maria segurou seu braço. — Tem algo errado aqui — disse ela baixinho. — Uma casa assim no meio de uma floresta? Ninguém constrói algo assim sem um motivo.
— Estamos com fome demais para ficar com medo — disse João.
Maria olhou para o irmão, depois para a casa, depois para o irmão de novo. — Tudo bem. Mas ficamos juntos. E a qualquer sinal de perigo, saímos correndo.
Estavam mordendo um pedaço do telhado de chocolate quando a porta se abriu. Dela saiu uma velhinha pequena, de olhos quase fechados pelo riso, que os convidou para entrar com uma voz que soava como mel.
— Pobres crianças perdidas! Venham, venham. Tenho cama quente e sopa quentinha esperando.
Maria sentiu o aperto no coração aumentar. Mas João já estava dentro.
A Astúcia de Maria
A velhinha era uma bruxa. Maria percebeu isso na manhã seguinte, quando ela trancou João numa jaula de ferro e anunciou seus planos: ia engordá-lo com comida boa por algumas semanas e depois assá-lo no forno enorme que ficava no centro da cozinha. Maria seria a cozinheira durante esse tempo — a bruxa tinha olhos quase cegos e precisava de alguém para verificar quando o forno estava quente o suficiente.
— Deste jeito ele fica gordo? — perguntou a bruxa a João todos os dias, pedindo que ele estendesse o dedo pela grade para ela apalpar. João, avisado por Maria, estendia um osso de galinha que ela havia encontrado. A bruxa, com seus olhos fracos, achava que era o dedo do menino e ficava contrariada que ele não estava engordando.
— Esse menino não engorda de jeito nenhum — resmungava ela. — Bem, paciência. Já está gordo o suficiente. Amanhã você vai verificar o forno para mim, Maria, e quando estiver bem quente, me avisa.
Na manhã seguinte, a bruxa pediu a Maria que checasse a temperatura do forno se encostando perto da abertura. Maria entendeu o plano imediatamente — a bruxa queria empurrá-la para dentro.
— Não sei como fazer isso — disse Maria com inocência calculada. — Pode me mostrar?
A bruxa, impaciente, se inclinou na frente do forno aberto para demonstrar. E foi nesse momento que Maria, com toda a força que tinha, empurrou a bruxa para dentro e fechou a porta.
Depois correu até a jaula, encontrou a chave pendurada na parede e libertou o irmão. — Precisamos ir agora — disse ela. — Mas primeiro…
Ela olhou ao redor da casa. Em baús e panelas, a bruxa havia acumulado ouro e pedras preciosas de suas vítimas anteriores. Maria encheu os bolsos dos dois. Não por ganância — mas porque tinham uma família passando fome esperando por eles em casa.
Quando chegaram ao lago que ficava na beira da floresta, um pato branco os ajudou a atravessar. E do outro lado, encontraram o caminho que levava para casa. O pai os esperava na porta, envelhecido de preocupação, com os olhos marejados de quem passou semanas arrependido de uma decisão que não deveria ter tomado. A madrasta havia ido embora — sozinha, sem o ouro que pensava que ganharia ficando.
Com o tesouro da bruxa, a família nunca mais passou fome. E João e Maria cresceram sabendo que, quando os adultos falham em proteger as crianças, às vezes as crianças precisam proteger umas às outras — com coragem, com esperteza e com o amor que nenhuma bruxa e nenhuma floresta consegue destruir.
