A Bela e a Fera
Era uma vez um mercador viúvo que tinha três filhas. As duas mais velhas eram vaidosas e mimadas, só pensavam em festas e vestidos bonitos. Mas a caçula, chamada Bela, era diferente: tinha um coração generoso, adorava ler livros e ajudava o pai em tudo o que podia. Um dia, o mercador perdeu toda a sua fortuna num naufrágio e a família teve que se mudar para uma casinha simples no campo. As filhas mais velhas reclamavam sem parar, mas Bela adaptou-se com alegria, plantando um jardim e fazendo o lar ficar mais bonito a cada dia. O pai a admirava imensamente e prometia que um dia, assim que voltasse a ter dinheiro, compraria presentes para as três.
O Castelo Encantado
Certa vez, o mercador partiu numa viagem de negócios e perguntou às filhas o que queriam de presente. As duas mais velhas pediram colares de ouro e vestidos de seda. Bela sorriu timidamente e disse: — Para mim, pai, pode trazer uma rosa. Só isso já me fará muito feliz. Na volta, o mercador não conseguiu nenhum dos presentes, pois os negócios não tinham dado certo. Mas lembrou da rosa de Bela ao passar por um jardim magnífico que cercava um grande castelo misterioso na floresta. Ele entrou para colher uma única flor, mas mal tocou a roseira quando uma criatura enorme e assustadora apareceu rugindo: — Como você ousa roubar minhas rosas?!
Era a Fera — um ser com corpo de urso, cara de leão e chifres de boi, com olhos azuis que brilhavam na escuridão. O mercador caiu de joelhos tremendo, pedindo perdão e explicando que a rosa era para a filha mais nova. A Fera o ouviu com atenção e então declarou com voz rouca: — Deixarei você partir com a rosa. Mas em troca, você deve me mandar sua filha. Ela virá por vontade própria ou vocês dois pagarão por esse roubo. O mercador voltou para casa de coração partido e contou tudo para as filhas. Bela, pálida mas determinada, disse: — Pai, você foi buscar a rosa por minha causa. Sou eu quem deve ir.
Bela no Castelo da Fera
Bela chegou ao castelo com medo, mas logo percebeu que havia algo especial naquele lugar. Os corredores eram lindos, decorados com tapeçarias e flores frescas. Os criados invisíveis levavam bandejas de comida e acendiam velas. E a Fera, apesar da aparência assustadora, não era cruel. Ela tratava Bela com educação, dava-lhe um quarto confortável e conversava com ela durante o jantar. No segundo dia, a Fera a levou por um corredor e abriu uma porta de carvalho entalhado. Dentro havia uma biblioteca enorme — estantes do chão ao teto, repletas de livros de todas as cores e tamanhos. — Tudo isso é seu, enquanto estiver aqui, — disse a Fera baixinho. Bela ficou sem palavras, com os olhos marejados. Era o maior presente que alguém já havia lhe dado.
Os dias foram passando, e Bela começou a conhecer a Fera de verdade. Ela descobriu que ele adorava música, sabia contar histórias engraçadas e tinha um jardim secreto cheio de rosas azuis. Toda noite, ao fim do jantar, a Fera fazia a mesma pergunta com voz tímida: — Bela, você poderia um dia me amar? E Bela sempre respondia com gentileza: — Você é um amigo muito bom, mas ainda não sei. Mesmo assim, a Fera nunca deixava de ser atencioso. Certo dia, Bela viu num espelho mágico que seu pai estava doente, deitado na cama e chamando por ela. O coração apertou. — Preciso ir vê-lo, — ela disse à Fera com os olhos cheios de lágrimas. A Fera ficou em silêncio por um longo momento e então disse: — Você pode ir. Mas, por favor… volte antes de oito dias.
O Amor que Transforma
Bela voltou para casa e cuidou do pai até ele melhorar. Mas as irmãs, com inveja de sua felicidade, a convenceram a ficar mais tempo — dez dias, depois doze. Na noite do décimo segundo dia, Bela teve um sonho perturbador: via a Fera deitada no jardim, imóvel, como se estivesse morrendo. Ela acordou com o coração na garganta e pegou o anel mágico que a Fera lhe havia dado. — Por favor, me leva de volta! — pediu ela ao anel. Em um piscar de olhos, ela estava de volta ao castelo. Correu pelo jardim gritando o nome da Fera. Ela a encontrou deitada entre as rosas, com os olhos fechados e a respiração fraca.
— Fera, não! Por favor, não morra! — Bela se ajoelhou ao lado dele e tomou sua pata entre as mãos. — Eu me importo com você. Mais do que imaginava. Por favor, fique comigo. — Ela estava chorando sem perceber. As lágrimas caíram no rosto da Fera e, de repente, uma luz dourada envolveu todo o jardim. Bela fechou os olhos com o brilho. Quando os abriu, a Fera havia desaparecido. No lugar dele, havia um jovem príncipe de cabelos castanhos e olhos azuis, exatamente os mesmos olhos azuis que ela reconhecia. — Fui enfeitiçado por uma feiticeira, — ele explicou, levantando-se e segurando as mãos dela. — Só o amor verdadeiro poderia me libertar. Você me salvou, Bela. Ela olhou para ele por um longo momento e sorriu. Ela o reconhecia, sim — pela gentileza, pela paciência, pelos olhos que sabiam escutar. O príncipe e Bela se casaram, e o pai dela veio morar no castelo. As irmãs, de tanto inveja, foram transformadas em estátuas — mas até isso a Fera pediu para desfazer, pois Bela tinha um coração grande demais para guardar rancor.
