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O Urso que Queria Ver o Amanhecer

Tartaruga pequena na beira do mar olhando para o horizonte
No fundo do mar, uma tartaruga pequena sonhava com aventuras que pareciam impossíveis

No fundo do Mar Azul-Turquesa, entre corais cor-de-rosa e peixes de todas as listras imagináveis, vivia uma tartaruga chamada Mina. Era pequena para a sua idade — os outros jovens da sua espécie já nadavam rápido e se aventuravam até as partes mais profundas do oceano, enquanto Mina ainda preferia os recifes rasos onde a luz do sol chegava em fragmentos dourados.

O problema de Mina era que ela tinha medo. Não de coisas pequenas — ela não tinha medo de tubarões, nem de tempestades, nem do escuro das águas fundas como você poderia imaginar. Mina tinha medo de começar. De qualquer coisa nova, qualquer caminho desconhecido, qualquer situação onde ela não soubesse com antecedência como as coisas iam terminar.

— E se eu me perder? — ela dizia quando alguém sugeria explorar uma nova área do recife.

— E se eu não conseguir nadar até lá? — ela perguntava quando a aventura exigia mais esforço.

— E se não for tão bom quanto parece? — ela concluía, ficando onde estava enquanto os outros partiam.

A Notícia que Mudou Tudo

Um dia, um peixe viajante chamado Nilo chegou ao recife com notícias do norte: havia uma ilha nova surgido do oceano — uma das ilhas vulcânicas que aparecem às vezes quando o fundo do mar empurra rochas novas para cima. A ilha estava cercada de águas cristalinas com corais nunca antes vistos, peixes de espécies raras e uma profusão de vida que fazia o recife onde Mina morava parecer um parque municipal comparado a uma floresta virgem.

— A viagem leva três dias — disse Nilo. — Duas correntes favoráveis e um trecho de águas abertas de umas quatro horas. Quem quiser conhecer, parto amanhã de manhã.

Dezessete animais diferentes se inscreveram na hora. Mina ficou parada no seu cantinho do recife, sentindo aquele aperto familiar no peito — o aperto do desejo misturado com o medo.

Quatro horas em águas abertas. Três dias de viagem. Sem conhecer o caminho. Sem saber o que esperar.

Ela ficou acordada a noite toda pensando.

Tartaruga nadando em águas cristalinas do oceano
Pela primeira vez, Mina nadou em águas desconhecidas — e descobriu que o medo diminui quando você começa

O Primeiro Passo (ou Nadadeira)

De manhã cedo, quando o grupo estava se reunindo para partir, Mina apareceu. Não com confiança — com o coração batendo rápido e as nadadeiras tremendo imperceptivelmente. Mas apareceu.

— Achei que você não ia vir — disse sua amiga Lara, uma tartaruga verde do mesmo tamanho que já havia feito a viagem ao norte uma vez.

— Eu também achei — respondeu Mina honestamente. — Mas passei a noite toda imaginando os dois cenários: ficar aqui e nunca saber, ou ir e talvez me surpreender. E o segundo cenário parecia mais interessante.

Lara sorriu do jeito que tartarugas sorriem — devagar, com toda a face. — Ficar do seu lado a viagem toda, se quiser.

O grupo partiu com a maré. Mina nadou junto, no meio do grupo, sentindo cada nova légua de água desconhecida debaixo das nadadeiras como algo entre um susto e uma descoberta. O primeiro dia foi difícil — as correntes eram mais fortes do que ela estava acostumada, e houve um momento no fim da tarde em que ela se virou para ver o recife atrás delas e percebeu que já não conseguia mais ver a casa.

— Não posso mais voltar — ela disse para Lara, com aquele aperto no peito se apertando mais.

— Não precisa voltar por agora — respondeu Lara com calma. — Só precisa continuar nadando.

O Que Mina Encontrou

Na manhã do terceiro dia, o grupo chegou. E o peixe Nilo não havia exagerado uma palavra.

A ilha nova era de uma beleza que Mina não tinha palavras para descrever — não porque faltassem palavras, mas porque as palavras todas pareciam pequenas demais. Os corais eram de uma variedade que ela nunca havia imaginado existir: azuis elétricos, laranjas vibrantes, uns com formato de árvore e outros com formato de leque e outros ainda com formas que nenhuma coisa viva deveria ter mas que eram, ainda assim, absolutamente perfeitas.

Os peixes que viviam ali eram curiosos e sem medo — nunca haviam visto visitantes antes. Um peixe amarelo pequeno nadat direto para o focinho de Mina e ficou parado na frente dela, olhando, como se ela fosse a coisa mais estranha e fascinante que aquele peixe já havia visto na vida. Mina ficou imóvel também, olhando de volta, sentindo algo que só pode ser descrito como uma alegria que começa nas nadadeiras e vai subindo até a carapaça toda.

Ficaram três dias na ilha nova. Mina explorou cada centímetro que conseguiu, fazendo perguntas para Nilo sobre os animais que não reconhecia, tomando nota mentalmente de tudo que via. Na última noite, sentada numa rocha rasa com a cabeça para fora d’água e o céu estrelado acima, ela pensou em todas as outras viagens que havia recusado por medo, todos os recifes que nunca havia explorado, todos os anos passados no cantinho conhecido e seguro.

Pôr do sol sobre o oceano com reflexo dourado na água
Na última noite da ilha, Mina olhou para o horizonte e sentiu o mundo muito maior do que antes

O Horizonte que Não Para de Crescer

De volta ao recife, Mina era diferente — não de fora, ainda tinha o mesmo tamanho e as mesmas listras na carapaça. Mas de dentro havia uma mudança que as outras tartarugas percebiam sem conseguir nomear exatamente.

Ela ainda sentia medo de coisas novas. Isso não havia sumido. Mas havia aprendido algo sobre o medo que não sabia antes: ele fica menor quando você começa. A parte mais assustadora de qualquer aventura é o momento antes de começar — quando você está parado no seu cantinho e o desconhecido parece enorme. Assim que você dá o primeiro passo (ou a primeira nadadeira), o medo não desaparece, mas divide espaço com a curiosidade, e a curiosidade é sempre maior.

Quando Nilo apareceu novamente, meses depois, com notícias de uma caverna de bioluminescência no sul — peixes e medusas que brilhavam no escuro como estrelas vivas —, Mina foi a primeira a dizer sim.

— Mas é em águas profundas — alertou Nilo. — Escuras e frias.

— Eu sei — disse Mina. — Mas e daí?

O medo de começar algo novo é um dos sentimentos mais comuns do mundo — crianças e adultos sentem isso. Mas como Mina descobriu, a parte mais difícil é sempre dar o primeiro passo. Depois que você começa, o mundo fica um pouco maior, o coração fica um pouco mais corajoso, e as próximas aventuras ficam um pouco mais fáceis de aceitar.

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